Oscar Klemt respirou fundo, uma vez mais, para tentar abrandar a sua pulsação. Após todos os meses de treino que tivera para o voo espacial, era suposto ter mais sucesso nisso. Mas não conseguia. Dentro de minutos, a Star of Bethlehem ia ser lançada. O culminar de anos de trabalho, o seu projecto mais pessoal, e a sua maior contribuição para o conhecimento académico e religioso. O projecto First Noël.

Ainda agora lhe parecia incrível como conseguira levá-lo avante. Bem, o mérito não fora só seu. Devia muito ao entusiasmo e diligência do Papa Francisco VII. Não fosse por ele, e o projecto seria mais um devaneio de um académico entusiasmado com a figura de Cristo. Mesmo que não o considerassem um maluquinho, duvidava que alguma vez tivesse tido a aprovação do Comité de Controlo Cronológico, o CCC, para um empreendimento dessa natureza.

A voz da comandante Prince trouxe-o de volta à Terra (ou à órbita terrestre, neste caso):

– Professor! Ei, professor! Ainda está vivo? – gracejou ela. Klemt acenou que sim com a cabeça, e deu-se por agradecido, uma vez mais, por tê-la ao comando da Star. Kristina Prince era a pessoa com mais experiência em voos de deslocamento cronológico, com treze viagens bem sucedidas no currículo. Foram as suas tripulações que conseguiram descobrir que Jack, o Estripador, não era um mas dois indivíduos, que mostraram que Napoleão Bonaparte era uma mulher e, mais recentemente, documentaram a batalha de Phobos, comprovando de uma vez por todas que havia sido um míssil disparado dessa lua de Marte que exterminara a colónia principal desse planeta. Tudo isso sempre sob os auspícios do CCC e das suas regras inflexíveis de não interferência.

Nunca ninguém tentara, no entanto, fazer um salto de quase dois mil e quinhentos anos. A comandante, no entanto, parecia não estar muito afectada com a grandeza da tarefa, limitava-se a fazer a última verificação de sistemas antes de desacoplar a nave da estação orbital Minerva III:

– Navegação?

– Tudo em ordem, comandante – respondeu Thomas “Tom-Tom” Tomasson, o navegador e operador do cronodeslocador da nave.

– Leme?

– Em ordem. – Connor Smith era o piloto, um sujeito de poucas palavras, que contrastava com o navegador. Esta parelha trabalhara com a comandante na maioria das suas missões, e ela confiava em absoluto neles.

– Engenharia? – perguntou a comandante, pelo intercomunicador, aos gémeos Ibañez.

– Motores e restantes sistemas prontos – respondeu Miguel, o gémeo que se gabava de ser o mais velho, embora apenas por alguns minutos.

– Dispositivo de deslocação cronológica em stand-by, diagnósticos indicam estar tudo em ordem – respondeu Carlos, o gémeo mais novo. – Temos uma máquina do tempo prontinha para dar um salto!

– Muito bem, – respondeu Prince – o comando está pronto para iniciar a contagem final. Apertem todos os cintos, se ainda não o fizeram. Bem, Professor, Menina Delforte, empolgados?

– Nervoso, isso sim. Mas confiante em si e na tripulação. Bem como na minha assistente – completou, apontando para Maria Delforte, que além de ser assistente da investigação académica dirigida por Klemt, era a operadora do sistema de captação de som e imagem que iam usar, bem como representante oficial do Vaticano na missão. Constatou que a jovem parecia muito mais séria que o habitual, o que não era de estranhar, dada a natureza da missão.

– Ah, estamos agora a receber a instrução para iniciar os procedimentos de lançamento – anunciou Prince.

No observatório principal da estação, uma multidão que incluía jornalistas, cientistas, membros do clero e curiosos em geral, aguardava o lançamento da Star. As centenas de vozes criavam um ruído surdo, que se silenciou quando uma voz no sistema de altifalantes anunciou:

– Lançamento dentro de 15 segundos.

Nesse momento, todas as atenções se focaram na nave, cujos motores iónicos começaram a emitir uma vibração que, sendo inaudível no vácuo, se conseguia adivinhar.

– Ignição iniciada – informou Smith – Desacoplando ligações à estação…

– Dez segundos – anunciou Tomasson.

­– Desactivando estabilizadores de inércia… desactivados.

– Cinco segundos. Quatro… Três… Dois…

– Activar motores – ordenou a comandante.

– Zero! – anunciou o navegador, no mesmo momento em que a acção dos motores se fazia sentir e a Star of Bethlehem, já libertada, começava a mover-se para fora da zona de atracagem da estação. No observatório, a maioria dos presentes aplaudiu, enquanto alguns deles diziam algumas orações e outros se quedavam em silêncio, contemplando a nave que se começava afastar. Os jornalistas captavam o momento com atitudes que iam de sobriedade grave até exultação e euforia.

No interior da Star, a comandante dava as instruções protocolares, após uma nova verificação de sistemas que confirmou que estava tudo em ordem:

– “Tom-Tom”, podes delinear o trajecto para nos levar à aceleração máxima. E por favor, nada de passagens rentes ao cinturão de asteroides, desta vez.

– Não, comandante… Caramba, já esperava que tivesse deixado isso para trás. Não se preocupe, vou arranjar um trajecto limpinho para darmos o salto, aqui o Connor até vai conseguir conduzir a nave sem pôr as mãos no volante.

– Hmm? – interrogou-se o visado, sem perceber a referência. – Mãos no volante? O que é um volante?

– Esquece lá isso – resmungou o outro – Um dia explico-te.

– Muito bem, meninos, façam o que têm a fazer – instruiu Prince.  Nesse momento a nave já estava quase fora do alcance visual do observatório na estação.  Finalmente, a comandante disse, mais para si própria do que para se dirigir aos outros:

– Vamos lá, então. Vamos assistir ao nascimento de Cristo.

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