Apercebeu-se que Marcelo faltava. Os outros notaram quase de imediato. Um braço sobressaía do monte de entulho. Xavier aproximou-se para lhe tomar o pulso. O coração deu um salto ao aperceber-se que o do colega já não batia. Afastou um par de pedras, para encontrar o crânio debaixo de um calhau demasiado grande. Não havia nada a fazer.

Olhou para os colegas e abanou a cabeça. Eles perceberam de imediato e quiseram aproximar-se.

— Não vale a pena tentarmos retirá-lo — ordenou. — Corremos o risco de ficarmos também soterrados.

Houve uma troca de olhares, mas os membros da equipa limitaram-se a dar uma olhada nas partes do corpo que não haviam ficado soterradas.

— O que haveremos de fazer? — perguntou Hélio.

— Não tenho a certeza, preciso da vossa opinião para avaliar as nossas opções. A primeira: podemos simplesmente ficar aqui e esperar que nos venham buscar.

— Não me agrada, que outras opções temos? — contrapôs Pedro.

Um murmúrio de apoio fez-se ouvir.

— Podemos tentar remover mais pedras, pode ser que tenhamos mais sorte desta vez, basta um de nós conseguir escapar para chamar ajuda.

— Não me parece uma boa ideia, já vimos que aquilo ainda vai desmoronar mais umas quantas vezes até conseguirmos desimpedir o túnel. Se ao menos tivéssemos um braço mecânico… — rebateu de novo Pedro, sendo a sua sugestão aceite com acenos de cabeça.

— Então só nos sobra uma opção — anunciou Xavier. — Temos de seguir por um dos caminhos e tentar encontrar outro túnel iluminado. Bem sabemos que os túneis formam uma espécie de teia, havendo várias ligações redundantes, justamente para casos como este.

— Parece-me bem — concordou Hélio.

Acenos de cabeça e murmúrios indicaram-lhe que todos preferiam essa opção. Hélio foi escolhido para ser o novo portador da candeia. O grupo seguiu atrás dele sem perdas de tempo.

Assim que chegaram ao cruzamento, decidiram virar à esquerda. Um pouco mais à frente chegaram a uma bifurcação, onde voltaram a virar à esquerda. O túnel parecia recente. O caminho desembocou num veio ainda não explorado. Voltaram atrás e escolheram o ramo direito. Andaram uma centena de metros até chegarem a um beco sem saída.

Desanimados, voltaram ao cruzamento, seguindo em frente. Não chegaram a percorrer uma dezena de metros até chegarem à primeira bifurcação. Mais uma vez escolheram a da esquerda. Na seguinte fizeram o mesmo. Parecia a Xavier que estavam a descer. Não era incomum os túneis seguirem os veios, que nem sempre eram horizontais. Tiveram de fazer ainda outras duas escolhas antes de chegarem a uma parede de rocha maciça. Voltaram atrás e escolheram a outra hipótese.

Nas horas seguintes repetiram o mesmo processo várias vezes, testando metodicamente cada uma das opções. Numa dessas tentativas o caminho trouxe-os de volta ao cruzamento. Persistiram e insistiram, até que a luz se apagou.

Xavier parou. Sem luz não conseguiriam ir muito longe, contudo, não estava preparado para desistir. Tinha uma noção de onde estavam e quais os caminhos que ainda não tinham explorado.

— Vamos manter a calma — pediu, esforçando-se por seguir o seu próprio conselho. — Vamos testar os caminhos que nos faltam. Temos de nos manter todos juntos, por isso sugeria que metessem a mão no ombro do colega da frente.

Retomaram a busca, desta feita mais devagar. Xavier ia sentido as paredes com os dedos, esforçando-se por não deixar passar nenhuma das bifurcações sem se aperceber. Era muito mais difícil, mesmo para quem estava habituado a orientar-se com pouca luz. Sempre que chegavam a um caminho sem saída, ele tentava cada pedaço da parede, só para ter a certeza que não lhe escapava nenhuma abertura, por mais improvável que fosse haver uma.

Perdera por completo a noção do tempo. Sabia que o turno há muito que teria acabado e que já teriam dado pela sua falta. A adrenalina não lhe permitia saber se passara da hora em que dormia ou não. Todavia, o cansaço indicava-lhe que podia até já ter passado mais que um dia. Era impossível ter a certeza. Sabia que não era o único a sentir-se cansado. Pelas atitudes dos companheiros, deduziu que eles também estariam exaustos, sem precisar de ver as faces.

A cada passo, a esperança ia diminuindo. Pelas suas estimativas, se não se tivesse enganado nem saltado nenhuma opção, só existia mais uma mão cheia de caminhos não testados. Ponderou se haveria de contar aos restantes e decidiu não o fazer. Não lhe agradava ter de lhes ocultar factos e por ser a primeira vez que acontecia, ainda para mais numa situação tão crítica, não o ajudava a sentir-se melhor. Para além disso, eles teriam essa noção de qualquer maneira e se alguém a verbalizasse, torná-la-ia mais real.

A sede começava a atormentá-lo. Parecia que tinha areia na boca. Os sons criavam um eco excessivo e incomodativo. Os pés doíam-lhe. Aliás, quase todos os músculos lhe doíam.

A esperança voltou, quando a penúltima opção lhe revelou um longo túnel, que avançou imenso, sem um única intercepção. Uma corrente de ar acariciou-lhe a face. Conseguia sentir que os companheiros estavam a ficar mais animados. Teve de se contar para não apressar o passo. Não queria que a corrente se quebrasse. Subiram e desceram sempre no mesmo caminho que serpenteava à esquerda e à direita, talvez seguindo o que chamavam de veio traquina.

Sem que nada o fizesse antever, chegaram a uma bifurcação. Xavier acreditou estar noutra secção da mina. Aplicou o mesmo método de escolha. Pouco depois chegavam a um cruzamento, o primeiro desde que se tinham enfiado no túnel. Virou à esquerda. Havia imensas pedras no chão, fazendo-os tropeçar. Acabaram por ser bloqueados por um monte enorme. Tentou perceber se haveria alguma maneira de contornar o problema, quando sentiu uma mão humana. Estava fria. Um frio de morte. Como eles estariam quando os encontrassem dali a vinte e três dias.

parte3

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