Xavier observou o subordinado com atenção, tentado perceber se estaria a brincar com ele. Não parecia ser o caso.

— Ainda temos luz — devolveu, pensativo.

— O fio está todo esticado e algumas lâmpadas partiram-se, mas ainda passa electricidade para este lado.

— Podia ser pior — constatou. — Mostra-me.

Acompanhou os mineiros, passando pelo cruzamento e seguindo em frente. Ao fundo conseguiu distinguir uma zona mais escura. Ao aproximar-se, avaliou o problema. A saída estava bloqueada. Uma das paredes e parte do tecto colapsaram, enchendo o corredor de pedras enormes. Nem uma criança conseguiria passar por ali.

Trocou um olhar com os outros. Estavam assustados e com razão. Acabara de acontecer o que todos os mineiros mais temiam. Xavier esforçou-se por acalmar o batimento cardíaco. Sabia que tinha de se manter calmo se queria sair dali com vida.

— Pedro, vai chamar os outros, diz-lhes para trazerem as alavancas — pediu.

Xavier sabia que teriam de ser eles a reabrir o caminho. Os túneis eram tão extensos que podia demorar dias até perceberem onde eles estavam. Por outro lado, as pedras eram grandes, mas nada que fosse impossível de mover.

Quando a equipa regressou com grossas traves de madeira para usar como bimbarras, colocaram de imediato mãos à obra. As pedras mais pequenas foram movidas de modo a permitirem o uso das alavancas para afastar as maiores. Trabalhavam com a eficiência que só era possível em homens que tinham enfrentado várias situações semelhantes. Cada vez que um acidente deste género acontecia, Xavier questionava-se do porquê de não haver escoras nos túneis. Por outro lado, sabia que precisariam de cortar uma floresta para que tal fosse possível.

Uma após outra, as pedras mais pequenas foram afastadas, revelando uma que deveria pesar pelo menos meia tonelada. Quatro alavancas foram colocadas em posição. Xavier teve esperança de conseguir vislumbrar o resto do túnel depois de afastar este calhau. Na maioria das vezes, era suficiente, embora tivessem de passar o resto do dia a remover os detritos sem receber salário. Contudo, era melhor do que se ficassem presos ou que tivesse de ir dar más notícias à família do mineiro que não regressava.

— Aos três — anunciou.

Os mineiros prepararam-se para fazer força. Se agissem coordenados, não seria muito difícil mover a rocha. Assim que Xavier deu sinal, as alavancas desencaixaram a pedra das restantes, fazendo-a rolar para o corredor.

Eles estavam preparados, afastando-se do caminho. Ainda o calhau não se tinha imobilizado quando um rugir imenso ocupou toda a caverna. Xavier não hesitou, dando um salto para trás e afastando-se da pilha que se começou a desmoronar. Só quando se tinha afastado duas dezenas de metros é que se aventurou a olhar para trás. Pelo meio da poeira conseguia distinguir que o monte de pedras parecia ter aumentado.

As luzes fraquejaram para recuperar de seguida. Depois apagaram-se por completo em todo o corredor.

— Pedro? Hélio? Marcelo? — chamou os mineiros, um a um, para ter a certeza que não tinham ficado soterrados.

Por muito apelativo que fosse o salário, a sua primeira preocupação eram os homens que tinha a seu cargo. Acidentes aconteciam a toda a hora, e acreditava que a maneira como lhes reagia fazia a diferença entre uma trivialidade e uma tragédia.

— Parece que vamos precisar de ir buscar a candeia — constatou, num tom mais irónico do que gostaria.

Sentiu um vulto seguir em direcção do cruzamento. Sentou-se no chão. O facto de a pilha ter desabado não era um bom sinal, significava que o colapso tinha sido mais extenso do que lhe parecera ao início. Tanto podiam estar bloqueados três metros de túnel como trinta. Se para três já demorariam mais do que um dia, para trinta morreriam à sede antes de conseguirem remover o obstáculo. Seria óptimo se tivesse uma maneira de comunicar aos outros mineiros onde estavam. Todavia, apesar de todas as invenções do último século, nada desse género existia ainda.

Surgiu uma luz ao fundo. Fraca e distante, mas aumentando a cada instante. Outro problema assaltou-lhe a mente. O óleo da candeia não duraria mais do que algumas horas. Nunca conseguiriam trabalhar na escuridão completa.

Ainda antes de Marcelo regressar, usou a parca luminosidade para se pôr de pé e agarrar numa das traves que não ficara soterrada. Os companheiros imitaram-no, retomando a tarefa de imediato. Começaram por afastar as pedras soltas do caminho. A chama tremeluzente permitiu-lhe ver uma enorme racha na parte lateral do túnel. Não era um bom sinal. Tocou no ombro de Hélio e apontou-lhe o problema. O mineiro tinha experiência suficiente para perceber as implicações. Teriam de ter muito cuidado para não provocar outra derrocada.

Na segunda tentativa, a escolha de pedras a mover foi mais criteriosa, começando sempre pelo topo. Era mais difícil e moroso trabalhar assim, mas também mais seguro. Os calhaus mais pequenos foram passados de mão em mão. Desta vez, trabalharam em silêncio total, de ouvidos atentos ao mínimo deslizar do entulho. Pedra após pedra, o suor ia-se acumulando na fronte de Xavier. Conseguia ver que o mesmo se passava com os colegas. Nenhum deles se queixou. Seria fútil se o fizessem. Não seriam queixas o que os iriam salvar.

Não haveria outros mineiros que quisesse ter consigo nesse momento. Aliás, a maioria deles trabalhara com ele desde o primeiro dia. Desde que o antigo líder da equipa perdera a vida numa explosão mal calculada, há onze anos atrás, que Xavier fora escolhido por unanimidade para o posto. Desde aí a equipa só se alterara duas vezes, ambas por motivo de reforma, um dos luxos que os mineiros haviam conquistado com a sua grande greve geral.

De súbito, ao deslocar uma das pedras do topo do monte, Xavier ouviu o que lhe parecia um chocalhar. Sem hesitar, saltou da pilha e correu para longe do perigo. Um momento depois, uma nova derrocada acontecia, desta vez mais extensa que a anterior. A deslocação de ar fez a chama tremer. Ao olhar em volta, contou apenas oito vultos.

parte2

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