O turno estava prestes a começar. Xavier verificou o equipamento mais uma vez. A picareta, o capacete, as botas e um pão numa sacola. Tudo parecia em ordem, no entanto, não seria um dia normal.

Olhou para a equipa que liderava. Aquela dezena de homens passava doze horas por dia juntos. Uns mais velhos que outros, provenientes das diferentes regiões, todos unidos pelo carvão. A Grande Mina alimentava a capital.

O elevandor colocou-se em movimento. Dali a um par de minutos, iriam trocar de lugar com os homens que saíssem por aquelas portas. Na Grande Mina não havia dias de folga. O carvão não podia parar de ser extraído. Todos dependiam disso.

Muitos dos seus companheiros tinham ainda a cara suja do dia anterior. O trabalho era cansativo e muitos pouco mais conseguiam do que dormir quase todo tempo que tinham livre. Pelo menos o salário não era mau. O carvão tinha de fluir e a capital pagava para isso. A última greve paralisara-a de tal maneira que o governo fora obrigado a conceder um estatuto especial aos mineiros. A sociedade compreendera que sem carvão nada funcionava.

O elevador chegou à superfície. As portas abriram-se e uma dezena de mineiros sujos de fuligem abandonou a gaiola. Com um ar resignado, a equipa de Xavier acercou-se no interior. Achava irónico o elevador ser alimentado pelo carvão extraído por eles. Aliás, tudo era movido pelo vapor, que por sua vez vinha do carvão. Havia noites em que sonhava com picaretas e pilhas deste ouro negro.

Carregou no único botão disponível e o aparelho iniciou a sua descida tremida. A maquineta rangia por todos os cantos. Depois da primeira viagem, já todos sabiam que se tinham de agarrar com firmeza às grades. A meio do percurso havia uma roda dentada defeituosa, que causava um solavanco violento. Todos os que desciam naquela gerigonça pela primeira vez assustavam-se. Os mineiros limitavam-se a trocar um esgar e a agarrarem-se melhor. O chocalho aconteceu como previsto e o elevador continuou a descida.

Ao atingirem o fim do poço, saíram para dar lugar à subida de outra equipa. A caverna tinha o comprimento de três galeões e era parcamente iluminada por meia dúzia de lâmpadas. Na outra extremidade, uma corrente com recipientes elevava o carvão até à superfície. O mecanismo estava em perfeita sincronia com o braço que despejava o desejado minério. Xavier imaginou quanto tempo iria demorar até os próprios mineiros serem substituídos por máquinas.

Conduziu a equipa por um dos corredores laterais, seguindo os carris em passo apressado. Tinham de conseguir produzir uma tonelada de matéria negra se quisessem receber o salário ao fim do dia. Não hesitou em nenhuma das bifurcações, conhecia aqueles túneis como a pele do polegar. Havia mais penumbra que iluminação ali. Por vezes, tinham sorte e os engenheiros estendiam as luzes e os carris um pouco mais. Outras vezes decidiam desligar corredores inteiros ou mudar as linhas para outros sectores. A gestão da electricidade era um mistério para Xavier. O único dado que tinha como garantido é que nunca haveria suficiente.

No últímo cruzamento, viraram para um braço que estava mergulhado na escuridão. O mais novo, de nome Marcelo, acendeu uma candeia previamente preparada. O grupo seguiu, unido pela luz. Adiante encontraram o veio preto. Não precisou de lhes dar ordens, a equipa já trabalhava junta há quase uma década, cada um sabia o que tinha de fazer. Com as picaretas cravaram orifícios no limite entre o carvão e a restante rocha. De meio em meio metro um desses buracos era escavado, para mais tarde receber uma barra de dinamite. Sem esse explosivo, jamais conseguiriam extrair as colossais quantidades de minério diárias. Algures no passado, depois do grande cataclismo, a extracção era feita à mão. Eram necessários oitenta mineiros para extrair meia tonelada de carvão num turno de doze horas. Nessa altura, o outro negro só podia ser usado pelos mais abastados. Os serviços públicos só funcionavam a certas horas.

No total foram dispostas dezanove cargas. Os fios foram atados uns aos outros, até se ligarem ao par que os conduzia ao detonador. As ligações foram verificadas mais uma vez. Os mineiros recuaram até ao cruzamento. O especialista em esplosivos, o Tiago, ligou os cabos ao detonador, que não era mais do que uma caixa com uma bateria e um interruptor.

Bastava dois dias sem extracção de carvão para que este faltasse a uma família vulgar. Outro dia e as empresas privadas teriam de suspender alguns serviços. A máquina estatal podia ainda aguentar-se outras quarenta e oito horas devido às reservas que eram mantidas por lei. Todavia, uma semana depois, tudo estaria parado. Não havia nenhuma alternativa. Não havia árvores suficientes para o produzir. Ou era carvão, ou seria à força de braços.

Xavier confirmou que estavam todos ali. Tapou os ouvidos com os dedos e acenou para Tiago, que fez o mesmo, antes de accionar o mecanismo com o cotovelo. A explosão ensurdecedora martelou-lhe o cérebro. Sentiu o solo estremecer, seguido do som de algo a desmoronar-se. O corredor encheu-se de poeira. Puxou o lenço que trazia ao pescoço para proteger as vias respiratórias. Deixou que a maioria dos detritos voltassem a assentar antes de dar a ordem seguinte.

— Pedro e Hélio, vão buscar os vagões. Vamos lá despachar esta porcaria.

Avançaram pelo túnel, encontrando ainda bastante pó no ar perto do local da explosão. Havia carvão espalhado por todo o lado. Havia também muita pedra e um bocadinho extra de túnel. Os companheiros meteram-se de imediato ao trabalho, separando o útil do inútil. Teriam de levar ambos dali, se quisessem continuar a explorar aquele veio.

Hélio e Pedro voltaram nesse momento, esbaforidos e assustados.

— Temos um problema, o túnel desabou e está bloqueado — anunciou Hélio.

O Mineiro - parte1

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