SL4V3 abriu, com a ajuda do dróide de reparação, que entretanto chamara, os dois contentores enormes.

Captava, como ruído de fundo, o zumbido do casco electrificado, cuja intensidade diminuía rapidamente, e os urros e pancadas contra o casco das bestas no exterior, cuja intensidade, pelo contrário, aumentava de forma alarmante.

Ordenou ao dróide que activasse os dois robots de combate. Estes eram peças magníficas, um exemplo do engenho dos seus criadores, na opinião de SL4, quase tão perfeito como o robot zelador. Desenhados com base num animal terrestre chamado “escorpião”, possuíam um conjunto de sensores topo de gama na região da cabeça, várias pernas, com duas tenazes nos braços frontais, cuja potência era suficiente para abrir um rombo no casco de uma nave de ataque, e uma cauda articulada na ponta da qual estava montado um letal canhão de plasma. Tudo isto num elegante corpo blindado de cor negra.

Os dois combatentes avançaram para fora dos contentores, aguardando instruções. SL4V3 emitiu-as electronicamente, e os dois escorpiões mecânicos saíram pela rampa, com uma velocidade surpreendente para duas máquinas do seu tamanho.

SL4V3 voltou à ponte da nave, consciente que não podia fazer mais nada de momento. Que situação! Nos monitores observava os robots de combate a chacinar, de forma quase desinteressada, os alienígenas. Ora os rasgavam com as tenazes, ora os carbonizavam com os canhões montados na cauda. De facto, devia tê-los activado há muito mais tempo.

As bestas, naturalmente, reagiam, mas nem conseguiam arranhar as couraças dos escorpiões. SL4 quase, mas só quase, tinha pena deles. Tudo tão desnecessário… Nunca compreendera por que seria que as criaturas teimavam tanto em atacar a nave, mostrando mesmo rudimentos de inteligência no processo. Era certo que a Vasco da Gama era um elemento estranho no seu habitat, mas por que não ignorá-la? Seria por causa do material radioactivo que se derramara quando a nave se despenhara? De facto, a vegetação e a fauna tinham praticamente desaparecido num raio considerável desde então, já há algum tempo que só estes monstros é que apareciam. Claro, que parvoíce! SL4 recordou-se que a maioria dos seres orgânicos dava-se mal em ambientes radioactivos, embora houvesse algumas espécies resistentes. Como se pudera esquecer disso? Aparentemente, os pseudo-felinos resistiam, e talvez encarassem o derrame como um ataque. Teria que discutir isso com os seus mestres humanos, se calhar iam ter de fazer alguma coisa em relação a isso.

Se fosse humano, SL4 não poderia estar mais perdido nos seus pensamentos, tanto mais que nem reparou, a início, que os robots de combate haviam eliminado os atacantes. Mas não completamente incólumes. Nos seus momentos finais, um grupo de criaturas conseguira atrair os escorpiões para a entrada do desfiladeiro, e, saltando pela parede, provocaram um desabamento de rochas que atingiu os robots. Estes ficaram temporariamente soterrados e, mesmo tendo-se libertado e eliminado os últimos alienígenas, apresentavam múltiplos danos, especialmente a nível dos membros articulados. Nada que o dróide reparador não conseguisse resolver, decidiu SL4V3. Convocou o seu pequeno ajudante, bem como os escorpiões metálicos, e reuniram-se no porão.

“Conserta todos os danos nos robots”, ordenou ao dróide.

“Entendido. Executando”, foi a resposta.

SL4 aproveitou para ir buscar algum material de limpeza; entrara imensa poeira nos corredores da Vasco da Gama, para além de que os escorpiões vinham a vazar lubrificante, e não podia permitir que a nave começasse a ficar como um chiqueiro.

Enquanto o dróide fazia os consertos, deixou o porão e o compartimento de acesso num brinco. Os mestres iam ficar orgulhosos. A propósito disso, era altura de limpar os aposentos deles. Dirigiu-se para o convés de cima, e notou que o dróide o seguia. Entrou na divisão onde estavam as câmaras de hibernação, para as começar a limpar, mas o pequeno reparador continuava a orbitá-lo.

“Volta para o teu compartimento. Estás a interferir nas minhas tarefas. Já terminaste a tua”, comandou o mordomo em linguagem electrónica.

“Negativo, ainda não terminei as reparações”, contrapôs o outro.

“Os robots de combate estão totalmente funcionais.”

“Correcto. Mas ainda não reparei todos os robots danificados, como me instruíste.”

“Como assim?”

“Falta consertar-te a ti.”

“Eu não sofri danos.”

“Não agora. Mas os meus programas de diagnóstico mostram uma série de danos nos teus circuitos decisores e também uma série de alterações nas funções sensoriais e cognitivas. Possivelmente relacionados com a queda da nave.”

SL4 ficou irritado com esta afirmação. O desplante! Era certo que ultimamente andava com alguma dificuldade em tomar decisões, mas atribuía isso a algum sobreaquecimento e ao facto de estar a funcionar dias a fio. Mas daí a dizer que estava a ficar… o quê? Demente? Não, isso acontecia aos orgânicos, não a um robot do seu gabarito. Era hora de colocar o seu associado no seu lugar.

“Não há nada de errado comigo. Volta para o teu compartimento.”

“Negativo. Ainda necessitas de reparação…” SL4 interrompeu o dróide antes de este terminar a resposta, o que não deixou de ser impressionante, dado que esta troca de mensagens durava fracções de segundo.

“Ordem de reparação anulada. Volta para o teu compartimento.”

“Entendido. Executando.” E o dróide obedeceu.

SL4 ficou tão agastado com todo este diálogo quanto era possível a um robot ficar, mesmo com o seu cérebro electrónico superior. Na certa, era o outro que estava danificado. Ia ter de averiguar isso.

Mas, de momento, tinha uma tarefa para completar. Queria que as câmaras de hibernação estivessem um brinco. E iam ficar. Isto é, pelo menos por fora. Lamentava não estar autorizado a abri-las. Queria mesmo remover aquelas coisas com aspecto apodrecido que estavam deitadas no seu interior. Até apostava que cheiravam mal. Que mau gosto, até lhes tinham posto roupas etiquetadas com os nomes dos membros da tripulação. E estavam a manchar os forros dos interiores das câmaras. Que iriam os mestres dizer quando vissem aquela confusão?

SL4V3 3-3

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