À medida que o sol vermelho descia no horizonte, SL4V3 laborava à saída do desfiladeiro Norte montando os vários postes de uma vedação voltaica. Depois de os dispor com precisão milimétrica na passagem, ligou-os aos geradores. Os indicadores de função acenderam todos em luz verde.

Se o rosto plástico humanóide de SL4 lhe permitisse sorrir de satisfação, fá-lo-ia, ao contemplar a vedação. Se alguém, ou algo, tentasse passar entre dois dos postes, iria imediatamente levar uma valente descarga, e bem localizada. Choques a sério, não como as cócegas que o casco da nave andava aparentemente a fazer. Regulara os aparelhos para potência máxima, mais que suficiente para matar um humano. Esperava que o efeito nas criaturas fosse semelhante.

A estrela começava a desaparecer por trás da linha de montanhas; SL4V3 apressou-se a regressar à segurança da nave. Com ou sem vedação, não achava prudente estar cá fora durante a noite, e os seus captadores áudio já registavam, ao longe, sons muito orgânicos – rosnados e uivos.

SL4 encontrava-se na ponte de comando da nave. Ajustara as câmaras para captarem imagens da saída do desfiladeiro, imagens essas que apareciam no enorme ecrã principal da ponte.

E lá vinham eles. Vários dos monstros correram pelo desfiladeiro em direcção à nave, e os da linha da frente receberam a merecida descarga. SL4 conseguia ver nos monitores que alguns deles começavam a fumegar enquanto estrebuchavam à medida que as vedações faziam o seu serviço. Os que se deixaram ficar mais para trás acabaram por recuar, e no fim fugiram.

O robot constatou, contudo, um aspecto preocupante. A vedação praticamente esgotara as suas reservas energéticas, após ultrapassar a capacidade dos geradores. Se a matilha tivesse insistido um pouco mais, pelo menos alguns deles teriam, certamente, passado.

Então, que fazer?

No dia seguinte, reactivou a vedação. Os geradores carregaram-na durante algum tempo e ficaram activos. SL4V3 estava, contudo, muito ciente de que, se os mostrengos viessem em número suficiente, os geradores não iam conseguir compensar as descargas. Talvez se diminuísse a intensidade das descargas, conseguisse ultrapassar esse problema…?

Decidiu não o fazer. Com a vedação em potência máxima, sabia que pelo menos alguns dos animais iriam ficar devidamente esturricados; se baixasse a potência talvez até conseguisse manter a vedação funcional o tempo todo, mas nada lhe garantia que conseguisse dar o merecido destino às abomináveis criaturas.

A decisão lógica era, então, manter a potência máxima.

Talvez até estivesse a preocupar-se desnecessariamente e os desagradáveis seres tivessem aprendido uma valiosa lição e o deixassem em paz.

Pois sim. Os seus circuitos de optimismo deviam estar em overclocking. Bom, restava esperar pela noite e ver o que acontecia.

Afastou-se da vedação em direcção à Vasco da Gama, descendo a cratera que a mesma produzira quando se despenhara. Entrou na nave e fechou a rampa de acesso.

Ainda não se encontrava completamente satisfeito com a sua decisão estratégica e resolveu procurar algo que servisse de plano de apoio.

Estava a rever os sistemas da nave e a tentar descobrir se teria meios de ampliar o sistema de autodefesa eléctrico quando um alarme soou.

Os pseudo-felinos aproximavam-se, e em força. De facto, muitos mais que na véspera. SL4 percebeu que a vedação não iria resistir muito tempo. Seria possível que as brutas criaturas tivessem alguma capacidade de raciocínio e tivessem percebido o ponto fraco do seu plano de defesa? Certamente que não! Recusava-se a acreditar nisso. Provavelmente era apenas instinto de manada. Mas um instinto que lhe iria provocar problemas muito em breve.

Amaldiçoando-se pela sua pouca lógica (de certeza que era a poeira da cratera que lhe estava a fazer mal!) que o fizera abordar o problema da defesa daquela maneira, resolveu activar o dróide de reparação e ordenar-lhe que diagnosticasse qual o problema com o electrificador do casco da nave.

O pequeno robot, que se assemelhava a uma bola com hélices e inúmeros braços, apressou-se a cumprir a instrução de SL4. Ainda assim, este último encontrava-se num estado de preocupação e incerteza que, se fosse orgânico, poderia passar por ansiedade, quase pânico. A sua linha de raciocínio era apenas esta:

“Aquelas criaturas vão destruir a nave. O que é que os mestres vão pensar de mim?”

Observou os monitores. Lá fora, os monstros estavam a esgotar a vedação rapidamente. SL4V3 ficou perturbado (tanto quanto era possível a um robot) quando constatou que eles avançavam ordeiramente: iam-se fritando com aparente determinação, mas logo eram substituídos por outros. Latiam ritmadamente, como se estivessem a comunicar uns com os outros.

Finalmente, a vedação desactivou-se. Os seres começaram a chegar-se ao casco electrificado, e não obstante os heróicos esforços do dróide de reparação, também esta linha de defesa pouco mais parecia fazer do que incomodar os mostrengos.

No meio do turbilhão de algoritmos de decisão no cérebro electrónico de SL4V3, um dado importante realçou-se, algo que ele lera no manifesto de carga e a que inicialmente não ligara. Como pudera ser tão ilógico? A solução era óbvia, e amaldiçoou-se por não a ter usado desde o início. De certeza que era a atmosfera local que o estava a fazer funcionar daquela maneira. Acelerou o mais que podia em direcção ao porão de carga e esperou que não fosse tarde demais.

SL4V3 2-3

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