No planeta que ainda não recebera nome, o sol carmesim incidia sobre o casco da nave exploradora Vasco da Gama, que reflectia fracamente a luz avermelhada.

No interior da nave, tudo estava silencioso, tirando o ruído ténue dos motores do robot de manutenção polivalente, um Schumann-Langström da série 4, versão 3, normalmente denominado SL4V3 pela tripulação para abreviar.

SL4V3 tinha circuitos de inteligência artificial categoria 5, completos com um módulo de personalidade de 3ª geração, o suficiente para passar facilmente por humano numa conversa com um interlocutor mais distraído. Ou, pelo menos, um que não olhasse para a sua cabeça plástica.

SL4 tinha uma missão: cuidar da nave até ao retorno dos seus mestres humanos, missão que encarava com toda a seriedade inerente à sua condição de robot.

E a missão não estava a correr muito bem.

Embora mantivesse a nave fechada na ausência dos seus mestres para evitar contaminações externas, os nativos do planeta pareciam não querer colaborar consigo.

Mais concretamente, umas criaturas muito desagradáveis, de aspecto geral reminiscente dos mamíferos felinos da Terra, mas com seis pernas, pêlo verde, o tamanho de um urso com hiperpituitarismo e agressividade a condizer. Estas coisas teimavam em atacar o veículo todas as noites.

Nos primeiros dias em que SL4V3 se encontrara sozinho, a nave autodefendera-se electrificando o casco, solução que o robot achara impecável. Era lógico que o fizesse, tratando-se de uma nave desenhada para ir a locais desconhecidos onde ameaças poderiam vir de todos os lados, mas o engenho dos seus criadores humanos não cessava de o deliciar. Tanto mais que esse engenho lhe dera origem, bem como aos seus refinados irmãos de série. Aliás, SL4 considerava-se um robot superior aos restantes existentes na nave, um autêntico mordomo entre criados comuns.

Mas agora as desagradáveis bestas pareciam estar a tornar-se resistentes aos choques, ou, pelo menos, a tolerá-los mais. Ou talvez houvesse algum problema com as baterias da nave.

SL4V3 resolveu investigar. Fez o computador principal correr alguns programas de diagnóstico. Aparentemente, os sistemas estavam todos em condições. O que sugeria, então, que eram os monstros que estavam a ficar mais audazes. Na véspera um deles chegara mesmo a conseguir arranhar o casco, antes de fugir e deixar aquilo que os analisadores químicos do robot zelador identificaram como “cheiro a pêlo queimado”. Se ele fosse orgânico, certamente iria ficar desagradado com tal odor.

O robot quedou-se a analisar a situação. A auto-defesa da nave estava a perder eficácia, independentemente da razão para tal acontecer. De acordo com essa evolução, seria uma questão de tempo até as criaturas começarem a provocar danos sérios na nave. Pior ainda, reflectiu electronicamente SL4V3, a sujar tudo! E ele que fazia tanta questão de manter a nave num brinco! Que iriam dizer os mestres, se ele falhasse na sua sacrossanta missão de manter a nave impecável? Os seus circuitos lógicos apresentaram várias opções, mas os seus metacircuitos afectivos não quiseram aceitar nenhuma delas.

Como durante o dia os monstros desordeiros não costumavam rondar o local, SL4V3 decidiu explorar um pouco o perímetro para recolher dados sobre o terreno que pudessem ser úteis, aproveitando para verificar o exterior com os seus próprios sensores, já que ultimamente andava a ter problemas com os da nave. Dirigiu-se à escotilha de saída e fez descer a rampa de acesso. Conseguira desbloqueá-la alguns ciclos rotacionais antes com a ajuda do dróide de reparação, e agora funcionava impecavelmente.

Abriu a escotilha e saiu, fechando-a logo de seguida. Não queria que entrasse mais poeira que o estritamente necessário. Deslizou pela rampa em direcção ao solo pedregoso, no qual se deslocava com um pouco menos de rapidez, embora a irregularidade do terreno não fosse nada que as suas lagartas não conseguissem superar.

Contornou a nave. Não aparentava ter mais estragos que da última vez que a inspeccionara, o que era bom. Subiu os bordos da cratera onde a nave se encontrava, os seus sensores detectando as areias que se metiam nas lagartas. O robot detestava essa sujidade toda e pretendia voltar para a nave o mais rápido possível, mas precisava de apurar algo antes.

Uma inspecção sumária ao terreno permitiu-lhe determinar a origem provável das feras. Havia três desfiladeiros que terminavam nas imediações da cratera; a presença de rastos semi-apagados e, mais importante ainda, de pavorosos dejectos ao longo do desfiladeiro mais a Norte, indicava que os monstros viriam muito provavelmente daí. Aliás, a dada altura os seus sensores ópticos detectaram movimento de uma silhueta que aparentava ser um dos pseudo-felinos verdes, mas a mesma desapareceu antes que pudesse confirmar.

SL4V3 regressou rapidamente à nave, desejando poder limpar rapidamente as lagartas. Uma vez lá, dirigiu-se à secção do porão de carga que continha armas e equipamento defensivo. De acordo com o manifesto de carga da nave, tudo o que necessitava estava lá.

Elaborara um plano que, se tudo corresse bem, não só iria afugentar os predadores que o atormentavam como talvez até os mantivesse afastados por uns tempos. Isto assumindo que os seus cérebros primitivos lhes permitissem aprender alguma coisa. Criaturas orgânicas! Sem pretender insultar os mestres, SL4V3 achava honestamente que o universo seria um lugar muito melhor se todas as formas de vida fossem tão perfeitas e asseadas como ele.

Bem, agora só restava verificar se conseguia pôr o equipamento necessário a funcionar.

SL4V3 1-3

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