Do chão erguiam-se altas torres de pedra e metal. Várias janelas deixavam escapar a luz do interior. Por entre os edifícios, as ruas estavam apinhadas de gente e de estranhas caixas de metal que se moviam a grande velocidade. Pelos canais era possível ver várias embarcações que transportavam mais humanos. As criaturas procuravam refúgio da tempestade que se aproximava.

Já se econtrava suficientemente perto do solo. O meu corpo quase que tocava o topo daquelas construções verticais que preenchiam a paisagem. Abri as mandíbulas e soltei um rugido que fez tremer as estruturas.

Os vidros das construções explodiram com o som, lançando uma chuva de estilhaços brilhantes nas ruas.

Concentrei-me na energia que absorvi da tempestade e libertei-a. Relâmpagos voaram do meu corpo em direcção às torres de pedra e às pequenas caixas de metal que circulavam entre elas. Nuvens de fogo erguiam-se das minúsculas caixas metálicas cada vez que atingia uma, desfazendo-as em pedaços, expelindo-as pelo ar. As torres de pedra e metal ruíam à minha passagem, esmagando os humanos em pânico. Doce vingança.

Continuei a espalhar o rasto de destruição à minha passagem, derrubando edifícios, esmagando aquelas latas com rodas, e dilacerando humanos quando lhes conseguia deitar as garras ou alcança-los com as mandíbulas. O caos estava instalado. Era hora de soltar os meus filhos.

Guiada pelo olfacto, mergulhei nas ruas e segui o rasto a um grande grupo de humanos. Não tardou para que desse com a multidão a correr em pânico pela avenida, procurando refúgio. Dei a volta a um dos edifícios, e contornei o grupo, apanhando-os de surpresa pela frente. Antes que pudessem escapar, abri a boca e esguichei o meu veneno sobre eles.

Os humanos caíram diante mim. Os gritos de dor ouviam-se sobre o caos que reinava na cidade. Os seus corpos contorciam-se no chão. Aos poucos, a sua cor de pele foi tomando uma tonalidade acinzentada, ao mesmo tempo que se tornava mais espessa e dura. As roupas que traziam rasgavam-se à medida que os corpos mudavam de forma, tornando-se maiores e mais musculados. Os dedos das mãos e dos pés tornaram-se mais longos, e as unhas deram lugar a longas garras negras. As longas caudas em formato de chicote agitaram-se no ar enquanto os crânios se transformavam, tornando-se mais longos, ao mesmo tempo que davam lugar a grandes olhos negros e penetrantes. Os maxilares descaíram e tornaram-se mais fortes, revelando bocas repletas de aterradores dentes afiados. Qualquer cabelo ou pêlo desapareceu dos corpos, deixando-os apenas cobertos por aquela dura pele que os protegia. As minhas crias tinham acabado de nascer.

Soltei um rugido e os ghouls lançaram-se pelas ruas, atacando quem encontravam pelo caminho, devorando a sua carne ao mesmo tempo que se tornavam mais fortes.

No horizonte, voando na minha direcção, surgiram vários pássaros de metal. Antes que pudesse reagir, aproximaram-se de mim e atacaram. Senti picadas na pele quando disparam e, para meu espanto, consegui detectar a presença humana dentro daqueles estranhos pássaros. O engenho do Homem evoluíra muito desde a última vez que viajara por aquele mundo. Ao que parecia, a sua ambição levara-os a conquistar também o céu.

Soltei um rugido e investi contra os pássaros de metal. Eram rápidos, mas não o suficiente. Pelo canto do olho apercebi-me de um que se aproximava de mim pelo lado direito. Com um movimento brusco, apanhei-o com as mandíbulas, esmagando-o entre os dentes.

Os restantes deram a volta a abriram fogo em mais uma investida. Concentrei a minha energia e preparei-me para o ataque. Os pequenos espigões que disparavam faziam ricochete na pele escamosa. Quando finalmente ficaram ao meu alcance, soltei o poder que acumulara. Uma onda de energia libertou-se de mim, lançando raios em todas as direcções. No solo, vários edifícios desabaram com o impacto. Diante os meus olhos, os estranhos pássaros de metal irromperam chamas, transformando-se em bolas de fogo que iluminavam o céu nocturno. Já não conseguia sentir a presença humana no seu interior.

Soltei um grito de vitória e lancei-me novamente sobre a cidade.

***

Uma hora fora mais do que suficiente para reduzir o local a cinzas e escombros. Já pouco restava da cidade e sem resistência, a tarefa tornara-se aborrecida. Tinha infectado humanos suficientes, agora o meu exército de ghouls iria tratar dos sobreviventes. O trabalho estava feito.

Voltei à forma humana e caminhei por estre os escombros. À minha espera, junto ao que restava de uma das torres construídas pelos humanos, estava Asmodeus. Caminhei na sua direcção.

– Bom trabalho – elogiou. – Os nossos companheiros estão à espera. Com os humanos fora do caminho, está na hora de libertar o nosso Mestre.

Não consegui evitar o sorriso de alegria. Finalmente, após tantos milénios, ia ver novamente Lúcifer, o meu amor.

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