Escuridão, silêncio. O vazio era tudo o que me rodeava. Não sabia dizer há quanto tempo ali estava, fechada, presa naquela cela onde o tempo não existia, longe do mundo e de todos. Naquela vastidão de nada, esperava pacientemente. Um dia teria a minha vingança. Um dia, o meu mestre iria conseguir quebrar aquela prisão, estava certa disso.

De súbito, senti uma estranha vibração de energia espalhar-se pela cela. Teria eu imaginado? Seria a minha ânsia de liberdade tão forte que já me fazia imaginar coisas? Nisto, seguiu-se uma segunda onda. Não, não estava a imaginar coisas. O dia tinha finalmente chegado. Alguém quebrava os selos que me prendiam naquele nada, naquele limbo ao qual fora confinada.

Uma terceira onda de energia, muito mais forte que as anteriores, inundou a cela. Senti os selos a quebrarem-se. Uma luz branca invadiu o espaço e fui sugada para fora daquele espaço medonho. Por fim livre!

O meu corpo recuperou a sua forma original. Conseguia mover-me de novo! Olhei em redor. Diante de mim estava um pequeno grupo de humanos ansiosos. Seguravam o livro sagrado. Atrás deles, escondidos na sombra estavam dois dos meus companheiros: Mammon e Asmodeus.

– Dormiste bem, Leviatã? – perguntou Mammon no seu típico tom trocista. Avançou por entre os humanos, revelando o seu corpo esguio coberto de penas negras. O bico cor de ébano reflectia a luz das velas que iluminavam o local.

Não pude deixar de sentir algum desapontamento. Estava à espera do meu mestre, não deles.

– Porque demoraram tanto tempo? – perguntei.

– Estas coisas levam o seu tempo. Os nossos fiéis seguidores tiveram de preparar o caminho – explicou Asmodeus, apontando para o grupo de humanos. Após todo aquele tempo, quase me esquecia de como a sua figura era imponente: corpo largo e musculado, envergando a sua armadura de guerra, e a cabeça com três rostos disformes, o central humano, o esquerdo de touro, e o direito de carneiro.

– Onde está o mestre? – perguntei, impaciente. Queria tanto voltar a vê-lo.

– Tudo a seu tempo. – respondeu Asmodeus. – O selos que prendem Lúcifer são mais fortes que os das nossas prisões. Só seremos capazes de libertá-lo quando estivermos todos juntos. Eu e o Mammon vamos libertar os nossos companheiros, mas precisamos que tu distraias os humanos. Não pode haver interferências.

Não fui capaz de deixar escapar um sorriso. Vingança, doce vingança.

– Considera-o feito – respondi.

Segui Mammon e Asmodeus por uma série de apertados corredores. Fungos e vegetação cresciam por entre as pedras das paredes e chão. O ar era abafado e húmido e o local tresandava, como se tivessem deixado ali algo a apodrecer. Os humanos tinham-me escondido no que parecia ser uma espécie de antiga catacumba. Ao chegar ao exterior, deparei-me com o piso e com as paredes, repletas de runas, tingidas de vermelho. Espalhado pelo chão, era possível ver o pouco que sobrava dos humanos que guardavam aquele local. Passei com o indicador na parede para apanhar um pingo que escorria, levando-o de seguida aos lábios. Tão doce…

– Onde estamos? Não reconheço este lugar… – comentei, enquanto puxava o meu longo cabelo para trás da orelha. Aquela estranha luz no cimo de uma coluna fazia realçar os seus tons de roxo.

– Longe de casa – respondeu Mammon.

– Estivemos adormecidos por mais de três mil anos – explicou Asmodeus. – O mundo mudou bastante.

– O mundo pode ter mudado, mas o som dos crânios a rachar sob os meus pés continua o mesmo. Aquilo é a cidade dos humanos? – perguntei ao ver as milhares de luzes no horizonte que afastavam a escuridão da noite.

– Sim. Os humanos tornaram-se engenhosos – declarou Mammon.

– Isso não lhes vai servir de muito… Está na hora de apagar as luzes.

Afastei-me e deixei que a força primitiva que habitava o meu corpo se libertasse. Cerrei os dentes e esperei pelas dores. Os meus ossos começaram a estalar e a mover-se, juntamente com os músculos. Na minha pele brotaram escamas e comecei a ganhar uma tonalidade esverdeada. Aos poucos, as minhas formas femininas alteravam-se, o corpo alongava-se e aumentava de tamanho. O meu maxilar emitiu um sonoro “crack” quando se separou. O crânio aumentou e formou-se um longo e afunilado focinho. Outro “crack” e o maxilar estava de novo em posição. Conseguia sentir os órgãos internos a mudar de posição, ajustando-se à minha nova forma. A dor parecia não ter fim. Nisto, parou.

Olhei para baixo, os meus companheiros eram agora minúsculos. Pequenas formigas quando comparados com o tamanho da minha verdadeira forma. Virei-me para a cidade no horizonte e soltei um rugido de fazer tremer as almas.

Nuvens negras, carregadas de trovoada, começaram-se a formar. Abri as asas e levantei voo na sua direcção. O vento forte que se fazia sentir roçava-me as escamas, contornando-me o corpo e a sua forma de serpente.

Os raios começaram a cair e a atingir-me, atraídos pelos espinhos no dorso, que iam da cabeça até à ponta da cauda. Saboreei aquela energia em estado puro e absorvi-a. O meu corpo dava espasmos de prazer cada vez que um raio me atingia.

Uma onda de electricidade estática começou a formar-se em meu redor. Estava pronta, tinha absorvido toda a energia que era capaz de suportar. Soltei um rugido que se fez ouvir acima do som dos trovões e, em voo de rapina, avancei em direcção à cidade.

livre

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