“O Nando tinha razão” cedeu, notando a fuga precipitada de duas mulheres para a berma da estrada assim que se aperceberam da aproximação do automóvel. Não desviaram os olhares de si enquanto passava por elas, o medo corroendo-lhes as faces. Humanas. Não chegariam à povoação mais próxima a tempo. “Não sobreviverão esta noite.”

Tal como não lhe pediriam por auxílio. O receio tolhia-lhes as relações, levava-os a fecharem-se no seu próprio círculo de conhecidos, temendo uma traição ou uma contaminação que lhes tivesse passado despercebida. Vila-Aves não era o único local do país a sofrer dificuldades – o povo ressentia-se pela praga que os dizimava pouco a pouco.

Estavam acabados. Reduzidos a um punhado de sobreviventes.

Também não chegarás a nenhuma casa que te acolha.

– Dormirei no carro. – A voz dela perseguia-o, por mais afastado que se encontrasse. Provocadora, melíflua. Um fruto atroz da sua imaginação. – Já o fiz noutras alturas.

As piores das noites. Sentia-os em redor do automóvel, cheirando, chamando… O veículo tremia ante as tentativas de o alcançar, frustradas pela impossibilidade de entrar naquilo que se tornara a sua casa. A raiva tornava-os aterradores.

“Mas nunca mais que Cândida”, recordava-se, quando o medo o tomava em vagas. “Nunca tanto quanto a Cândida.”

Sobreviveu a noite. E outras depois dessa. Comia o que encontrava no caminho, despejando quintas, pomares, mercados e grandes superfícies, sem distinção. Ao início dormia em casas quando chegava a povoações, algumas habitadas que o recebiam, outras já vazias que ele explorava como garantia de que não se enfiava em qualquer ninho. Mas chegou o dia em que deixou de o fazer – o carro tornara-se na sua morada, na sua fuga eterna.

Não podes continuar nisso muito mais tempo, provocava Cândida. Por muito que fugisse, ela insistia. Perseguia-o na sua loucura. Mas tinha razão. Os postos de gasolina abandonados em breve deixariam de ter combustível com que se pudesse abastecer.

E tu, humanidade que te mantenha.

Quase a ouvia rir. Os dedos crisparam-se em torno do volante. O riso não era o que se lembrava, mas uma adulteração que o enjoava e amedrontava.

“Pára!” ordenou a si próprio. Nunca a tinha ouvido rir depois da contaminação. “Pára de imaginar o que não sabes.”

Um estoiro assustou-o, seguido pelo descontrolo do carro. Perdera um pneu. Com os nervos à flor da pele, incerto sobre como conseguira a proeza, estabilizou o veículo, imobilizando-o. Deixou-se ficar no banco, os braços ainda esticados à sua frente, agarrando o volante de tal modo que os nós dos dedos se encontravam brancos. Esperou que a respiração normalizasse antes de sair, levando as mãos à cara assim que se viu no exterior. Não chorava, já não sabia como.

Ainda podes voltar para mim. Amar-me, alimentar-me… Tornares-te igual a mim. Vem comigo, Fausto…

Baixou novamente as mãos, surpreendido. Não por ela, a cujas tentações já se habituara, mas pela sonoridade marinha que o recebera. Tomou consciência do cheiro a maresia assim que se apercebeu da escarpa e da proximidade do mar.

“São as ondas”, pensou. “São as ondas a embater na rocha.” Se se concentrasse o suficiente, quase que deixava de ouvir Cândida, afogada pela força da água salgada.

Aproximou-se, espreitando num misto de tentação e curiosidade. Uma queda de cerca de dez metros terminava num aglomerado de rochas cravejadas de lapas. Um destino tão bom como qualquer outro. Indefinidamente melhor que deixar-se cair vítima de Cândida. Sabia que a Cândida, a sua Cândida, a verdadeira, nunca lhe perdoaria tal. Preferiria vê-lo suicida que morto por sua culpa.

Ou talvez fossem desculpas que ele procurasse. Justificações. Que haveria naquele mundo para ele? Nando tivera razão. A praga estava espalhada, devastadora, implacável. Um a um, acabariam por perecer. Jamais poderiam sobreviver a tamanho inimigo. A espécie humana encontrava-se extinta.

Por que não poderia ele escolher, pelo menos, o modo da sua morte?

Fausto.

Ela estava atrás de si. Não a real, sabia que nunca fora a real; essa ficara em Vila-Aves, ou morta ou demónio. No entanto, estava ali. Um fantasma das suas memórias, vívida, exigente e temerosa.

Não, Fausto, não me deixes. Volta, volta para mim, sabes que te espero, que te quero.

– Eu também te espero – respondeu, a voz áspera pela falta de uso. – Eu também te quero.

E, apenas por isso, saltou e apagou-se.

imagem cândida

Imagem: Ricardo Lobo
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