Quando Fausto regressou, os grupos de desinfestação estavam montados. Cada um dos seus constituintes tinha encarado de uma forma ou de outra uma prova irrefutável das criaturas com que partilhavam as noites. Haviam-se informado. Testado teorias. Desfeito os últimos pedaços de descrença a que se pudessem agarrar.

Vila-Aves estava a tornar-se um ninho de vampiros. O sentimento de propriedade e a fúria humana de se verem despojados do que é seu levou os habitantes a fincarem pé e ali permanecerem, os empregos adiados por “doença” para que os dias permanecessem livres para as caçadas. Visitavam-nos, procuravam-nos e encontravam-nos. Separavam-lhes as cabeças dos corpos, incendiavam-nos com os seus esconderijos e perfuravam-lhes os corações supérfluos com estacas. Tornaram-se caçadores da luz do dia para que se aguentassem como presas quando a noite caía com os seus horrores. Não eram todos os que resistiam, vez após vez, aos apelos da família e dos amigos que lhes estendiam as presas.

– Fique em casa. Não abra a porta por nada nem por ninguém.

O aviso caíra num silêncio estupefacto. Fausto julgara a mulher que o abordara como louca, afastando-se com rapidez. Tinha acabado de chegar a casa, encontrando-a vazia. Deduzira que Cândida ainda se encontrava no emprego, sofrendo um horário extra, e decidira passar pelo café.

A noite caíra sem que Cândida regressasse. Não atendia o telemóvel e na empresa onde ela trabalhava responderam-lhe, de forma seca, que há uma semana que a esposa não aparecia.

– O senhor espere por mim, que vou já para aí. Buzinarei quando chegar. Não abra a porta a mais ninguém, não convide ninguém para entrar. Nem mesmo a sua esposa.

Fausto duvidou da sua decisão em ter telefonado para a esquadra de Vila-Aves. Acorreu, no entanto, a abrir a porta quando ouviu a buzina. O agente, um homem nos seus quarenta anos com uma barba escura e uma barriga ligeiramente proeminente, entrou a correr na casa, como que perseguido.

– Safa! Arrepiei-me para vir aqui – declarou, adiantando-se a Fausto e fechando a porta atrás de si. – Foi uma sorte não ter encontrado nenhum deles. Mas ora viva, não o podia deixar sozinho na sua primeira noite, o mais provável era cair numa grande asneira.

Fausto tinha agora certeza de que não deveria ter recorrido à esquadra local.

– A minha mulher… – começou, ainda esperançado na diligência e sanidade do oficial. Disfarçava a preocupação por Cândida esforçando-se por manter um pensamento frio e racional. Perdera, contudo, as unhas, roídas até ao sabugo e, por isso, em dor constante.

As feições do agente ensombraram-se.

– Infelizmente suspeito de que a verá hoje. É comum que eles procurem aqueles que conheceram em vida, compreende?

– Não. – Fausto começava a irritar-se. – O que compreendo é que a minha mulher está desaparecida e que o senhor se está nas tintas!

– Ouça…

– Isto não é uma brincadeira ou uma estúpida série de televisão! – O tom de voz fora aumentando até começar a gritar. – É a minha mulher! Desaparecida! E o senhor, que deveria estar neste momento a procurá-la, faz piadas na minha cara…

Fausto.

O chamamento suave cortou-lhe a torrente de palavras iradas. Inerte, surpreso pela interrupção, Fausto viu o rosto do agente enregelar-se num pavor mudo.

Fausto! Meu querido, meu amor!

Aproximou-se da janela, curvando-se em direcção ao vidro, encostando a testa na superfície fria. A escuridão rodeava-lhe a casa, sem que ninguém lhe aparecesse ao olhar. A luz fraca do candeeiro de rua pouco mais iluminava que o espaço logo abaixo.

E então ela apareceu.

Um pé atrás do outro, o cabelo negro caindo pela camisa de lã verde que usava para dormir. A luz artificial do candeeiro emprestava-lhe um tom amarelado à pele. Viu-a aproximar-se, estendendo o braço na sua direcção.

Fausto, deixa-me entrar.

Abriu a janela. O ar frio esbofeteou-lhe a face sem que ele o sentisse, perdido na hipnose dela. Estendeu a mão, querendo puxá-la para dentro, para o abraço do seu alívio.

– Cândida! – chamou, cego às incongruências do cenário. A mulher sorriu, o primeiro dos sorrisos de lábios arreganhados que lhe vira, e o temor tomou-o ante a visão dos caninos aguçados, anormalmente longos.

Diz que posso, meu amor. Diz que me deixas entrar.

– Ve…

A mão agarrou-o com força pelo pescoço, matando-lhe as palavras e puxando-o para trás. A janela foi fechada com violência e o silvo furioso de Cândida ecoou através do vidro, ferindo-lhe os tímpanos.

– Desaparece, criatura! – vociferou o agente, apesar do suor que lhe perlava a testa. – Não és aqui bem-vinda!

Ela atirou-se contra a parede, guinchando como o próprio Amaldiçoado. O agente recuou alguns passos, abeirando-se de Fausto.

– Desculpe a violência – declarou. – Mas não podia deixar que a convidasse a entrar. Estaríamos os dois perdidos. – Estremeceu ante as investidas da criatura contra a casa. – Cá entre nós, já me borro o suficiente com ela lá fora.

Estivesse fora de choque, e Fausto ver-se-ia obrigado a concordar. A preocupação e o ultraje haviam-se evaporado, desfeitos pelo terror que cada sentido lhe transmitia. Cândida, a sua Cândida, não sorria assim. Não tinha aquela beleza aterradora nem aquela doçura enjoativa. Não lhe causava aquele terror íntimo nem uma atracção enfeitiçada.

– O que é aquilo? – perguntou. – Onde está a minha mulher?

O agente não lhe escondeu a sua pena.

– Aquele corpo é o que resta da sua mulher.

As batidas ficaram suspensas, lançando o local numa quietude desconfortável. O agente soube o que viria ainda antes de Fausto ter feito o primeiro movimento. Recebeu o ímpeto violento do outro com a facilidade de quem passara anos do seu trabalho no activo, não precisando de muito para o dominar. Fausto acabou de cara no chão, o braço puxado para cima e um dos joelhos do agente sobre as costas.

– Infelizmente tenho muito de mau para lhe contar, e você muito de mau para me ouvir.

Uma semana passara-se desde então. Fausto acompanhara um dos grupos de exterminação, aniquilando de vez qualquer dúvida que pudesse esperançar. Leu os livros. Aprendeu o mito. Confirmou os clássicos – rosas bravas, dentes de alho, luz do Sol e o Sagrado. Uma cruz ou uma hóstia, nada de maior poder mantinha longe as criaturas. Sabia que teria de as usar contra eles.

Contra ela.

Todavia, tentou recuperá-la. Com cuidados, sem que os demais o descobrissem e incendiassem, como o faziam a qualquer um que demonstrasse tendências solidárias para com os contaminados. Não a convidou, receava demasiado o que daí adviria; saiu com as mãos a tremer, os pés pesados e a água benta condensada no que fora uma garrafa de água mineral. Sentira-se um amador, um sonhador, um desesperado, sabendo ser tudo aquilo e ainda assim avançando. Esperou que ela se aproximasse, os seus sussurros tentando-lhe as lágrimas, Fausto, Fausto, ama-me, Fausto, ama-me. Esperara a sua aproximação. Desejara a respiração sobre a sua pele, sem que esta nunca viesse.

Ela não respirava. Não agora.

Num ímpeto, atirou-lhe com a água santificada sobre a cara.

O grito ainda lhe rasgava os pesadelos. Via em sonhos diurnos o fumegar que se elevara dos seus olhos, a pele marmórea derretendo feita cera. O exorcismo falhara. E ele, covarde, correra, afastara-se, refugiando-se na salvaguarda da casa onde ela deixara de ser bem-vinda.

– Vou sair daqui – anunciou entre duas cervejas a Fernando, o agente que naquela primeira noite se arriscara para o manter longe da praga. – Não aguento mais. Não sou capaz de lhe dar descanso, nem ela de me dar descanso a mim. Sou fraco, Nando. Uma miséria de ser humano.

Nem tentaria fingir o que não era. Encararia a covardia, pegaria no que determinara seu e abalaria de Vila-Aves.

Fernando recostou-se na cadeira, tomando um gole de cerveja antes de lhe responder.

– E se fora daqui for igual? – Fausto franziu o nariz em dúvida. – Há semanas que não saímos daqui. Uma povoação inteira. Ninguém veio questionar o que se passava, nenhuma alma se tornou curiosa, nenhum funcionário do Governo suspeitou de qualquer marosca que valesse a pena investigar. As televisões, os rádios, os computadores… Nada funciona. Não sabemos do exterior e o exterior não sabe de nós, Fausto. Isso não é o tipo de coisa que acontece numa sociedade que corre com regularidade. Não, vai por mim. Passa-se alguma coisa lá fora.

Fausto não se demoveu.

– O que quer que se passe lá fora, e nós não sabemos se se passa, não pode ser pior que isto – argumentou. – E a Cândida não estará lá…

– Aquilo não é a Cândida, Fausto.

A garrafa de vidro estilhaçou-se contra o chão, espalhando o que restava do líquido amarelado.

– Eu sei! Eu sei!

Como poderia não o saber? Com todas as evidências, com todo o pavor que passava noite após noite? Cândida estava morta, a sua cabeça sabia-o. Como convencer do mesmo o espírito que não detinha a mesma parcela de racionalidade?

Nessa manhã partiu, a mala apetrechada e o automóvel uma silhueta na alvorada. Ignorou os olhares ocos daqueles por quem passou, o pé forçando o acelerador na saída da vila.

E para onde vais?

A doçura quebrada da voz de Cândida.

– Qualquer lado.

Qualquer lado não é suficiente.

Ele não respondeu. Ela calou-se.

imagem cândida

Imagem: Ricardo Lobo
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