Fausto pousou a colher na borda das papas frias e apertou a cruz de oiro dentro de um punho cerrado. A lâmpada sobre a velha divisão, que de momento lhe fazia tanto de cozinha quanto de sala, começou a falhar, antes de se apagar definitivamente, deixando-o na escuridão que aprendera a temer. Com um imediatismo suspeito, ouviu o rastejar na cave. A voz da mulher começou a chamá-lo, a mesma súplica, o mesmo tom de desespero de quando eles a haviam apanhado…

Mas Fausto nunca lhe ouvira os derradeiros momentos. Encontrava-se fora de casa, longe da vila-dormitório onde viviam, preso numa viagem de negócios que lhe salvara temporariamente a vida.

O rastejar desapareceu, junto com a súplica dela, assim que ele forçou a racionalidade desses pensamentos. O medo levava-o à imaginação. Roubava-lhe poder que era absorvido por eles, a epidemia que atacara Vila-Aves. Levou o crucifixo aos lábios, beijando-o numa prece fervorosa. Nunca fora particularmente católico. Os pais haviam-no baptizado, mas Fausto não sentira grande fé na religião que lhe tinham ensinado – até ao momento. De tudo o que sabia, era aquilo o que o poderia salvar.

Passou o fio sobre o pescoço e pendurou-o ao peito. Uma aguilhoada de dor lembrou-lhe que era frequente Cândida usá-lo assim. Não tinha sido isso a impedir que eles a levassem.

Os olhos começaram a habituar-se à escuridão. Os móveis tomaram formas, indistintas o suficiente para que ele temesse a possibilidade de alguma das criaturas se encontrar ali. A porta, ainda fechada como ele a deixara, permitiu-lhe um alívio desconfiado. Levantando-se, dirigiu-se à gaveta dos talheres, abrindo-a e retirando a lanterna que ele e Cândida ali tinham deixado para as emergências. O feixe de luz percorreu o aposento, encontrando-o deserto. Com as pulsações a latejar-lhe nos tímpanos, retornou ao pobre jantar que se obrigava a ingerir.

O som das unhas raspando o vidro agoniou-o. O corpo tornou-se hirto no meio da cozinha, esquecido de como se movia.

Fausto…

O rosto dela salientava-se na janela atrás de si, branco como o cadáver que era. Os olhos completamente negros ardiam em brasas infernais. As unhas compridas e afiadas acariciavam o vidro como se desejasse sulcar nele a sua passagem.

Deixa-me entrar, Fausto. Não me queres? Não me amas?

As pernas pesavam-lhe. Num esforço desmedido, conseguiu virar-se, encontrando a imagem que esperava. Os caninos evidenciavam-se sobre os lábios invulgarmente vermelhos. A língua passou rápida por eles, saboreando o líquido que ainda ali haveria. Um sorriso tornou-se num esgar.

Tenho fome, Fausto. Tanta fome.

Ela sibilou quando ele lhe ergueu a cruz.

– Desaparece – rosnou, a voz tremendo com o medo que o traía. – Não há aqui nada para ti. Não podes entrar. Não podes entrar!

A criatura silvou, afastando-se da janela como se esta a tivesse repudiado. Fausto sentiu-a a rodear a casa durante quase uma hora, antes de a fome que a corroía a obrigar a afastar-se, procurando por vítimas mais fáceis de caçar. Deixou-se cair na cadeira, afastando as papas e pousando os cotovelos sobre a mesa. Escondeu a cara entre as mãos, permanecendo mudo por uns momentos, antes de a torrente de soluços lhe abanar o corpo.

Por mais uma noite, sobreviveria.

***

As ruas amanheceram desertas. Há quase uma semana que era assim que a vila se encontrava. Desde que ele viera e começara a espalhar a epidemia. No início, nada de extraordinário se passara. Um novo inquilino instalara-se, a vila pouco se importara. Não era um local que tivesse vida própria e os vizinhos não se conheciam em pormenor. A maioria mantinha ali as moradias pela proveitosa relação de espaço-preço que se conseguia. Os acessos permitiam que chegassem rapidamente à cidade onde trabalhavam, se divertiam e conduziam a sua vida em geral. Vila-Aves pouco mais era do que o local onde descansavam e dormiam. O movimento nunca fora muito. Pouca gente sabia de pouca gente.

E por isso ninguém notara. As portas permaneciam fechadas e as janelas encerradas. Ninguém estranhara até que o número de casas assim se tornara estranhamente grande. A desconfiança começou a dominar os vila-avenses. Um medo palpável e ilógico pesava nas expressões de cada um. Foi apenas necessário que alguém experimentasse um comentário para que os demais se lhe reunissem de imediato, qual faísca lançada sobre um molhe de fueiros secos.

Ninguém ousara aventar o que realmente se passava. Inicialmente limitavam-se a comentar a estranheza dos desaparecimentos. Pouco depois, alguém se lembrou da vaga de reportagens sobre idosos que eram encontrados sem vida nas próprias casas, meses depois de a morte ter ocorrido, por não haver ninguém que os visitasse com regularidade. A desculpa permitiu-lhes arrombar algumas das habitações de consciência tranquila, encontrando-as na sua maioria desertas.

– Mãe, está um vampiro no quarto.

A mãe não acreditara, nem nenhum dos presentes que então as acompanhavam. Subiram ao andar superior com a única crença de que provavelmente encontrariam o anfitrião em alguma doença já avançada.

Não falharam por muito. O homem de meia-idade encontrava-se hirto sobre os lençóis da cama, mal parecendo respirar e caracterizado por uma palidez mórbida. Alguém colocou-lhe a mão na testa, franzindo as sobrancelhas ante a sua frieza. Tomou-lhe o pulso, confirmando as suspeitas.

– Está morto – declarou, no momento em que a mãe da criança descerrava as pesadas cortinas que mantinham a escuridão do quarto. A luz jorrou com um grito de agonia do morto, cujos olhos se abriram em poços negros. A pele borbulhava-lhe, derretendo-se-lhe nos ossos até a criatura se abrigar nas sombras por baixo da cama. Um ligeiro odor a queimado permaneceu no ar, dominado pelo cheiro mais intenso a urina.

– Mamã?

O apelo arrancou-a do choque. Pegando na criança, a mãe desapareceu escadas abaixo, seguida pelo restante grupo numa pressa apreensiva. A casa tornara-se-lhes pesada, perigosa. O covil de um predador.

A luz do dia provocou-lhes um sentimento de ridículo. A dúvida instalou-se sobre o que tinham presenciado e a desconfiança nos próprios sentidos tentou-os a repensar as conclusões.

Não é natural para a mente humana aceitar o desconhecido. Não lhe é esperado que acredite no fantasioso ou no inverosímil. O receio e o medo levaram-nos à rejeição, à hesitação e à imobilidade. Outra noite passou e outras casas se entaiparam.

Inevitavelmente tiveram de acreditar.

imagem cândida

Imagem: Ricardo Lobo
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