Eliminei quatro dos cinco capatazes que encontrei. O quinto rendeu-se antes que o matasse, e alguns mineiros chegaram mesmo a defendê-lo. Em quase todas as profissões havia sempre aquele tipo mais solidário e porreiro que ajudava os outros nas costas do chefe.

Os mineiros saíram mais ou menos ordeiramente, dentro do possível para a situação. Lançavam olhares curiosos a Hari e Diniz quando passavam, o que não podia ser mais natural. Uma mulher completamente nua a apontar uma arma ao homem que os escravizara não seria coisa a esquecer tão cedo.

Fui a última a sair. Junto à entrada, tirei duas esferas da mochila, sopesando-as por um instante. Libertei as protecções que bloqueavam as chaves que ligavam ao mecanismo de corda e dei três voltas numa, e duas e meia noutra. A seguir atirei-as lá para dentro. Escutei o metal a rebolar por segundos, antes de parar, e só depois recuei.

Não demorou mais do que trinta segundos. Uma imensa explosão encheu a noite, estremecendo o chão sob os pés e vomitando detritos de rocha e instrumentos de extracção mineira para o exterior. O sinal de fuga fizera-se ouvir.

– Vocês dirijam-se para os portões principais. Exijam que os guardas os abram, sob ameaça de que o matam. – Olhei Diniz de soslaio.

– E tu? – Hari franziu as sobrancelhas.

– Vou ajudar a tirar os acamados do laboratório. E fazer mais fogo-de-artifício. Não te preocupes. – Sorri-lhe, tentando dispersar a preocupação expressa no olhar dela.

Depois disto, segui rapidamente até ao laboratório. Os guardas que vigiavam a entrada haviam desaparecido. Além disso, no exterior ouvia-se bem a barulheira vinda do lado das janelas que davam para as alas experimentais. Apressei-me para lá, por dentro do edifício. Mal entrei nas salas, deparei-me com prisioneiros de um e do outro lado, passando companheiros. Não faltavam crianças a chorar, assim como pessoas que se tentavam antecipar e arrastar-se pelo chão até às janelas, fazendo outras tropeçarem. Olhei em volta e silvei por entre os dentes, como uma serpente prestes a lançar veneno. Não muito longe, um dos prisioneiros aproveitava-se do facto de uma mulher não ter membros para deitar as mãos a zonas íntimas. Ela chorava e implorava, mas no meio da confusão era como se fosse muda. Avancei com passadas largas. O punho metalizado crispou-se e esmurrei o homem, antes de ele ter sequer tempo de detectar a minha presença.

Ele caiu, desamparado e ergueu o olhar para mim. Mostrou-me os dentes só por um instante, o tempo que levei a apontar-lhe a arma.

– Mais uma merda dessas e espalho-te os miolos pelo chão – silvei-lhe. – Agora desanda-me da frente, antes que mude de ideias, estafermo.

Ele obedeceu, provavelmente sem pensar duas vezes. Mas não tão depressa que não lhe conseguisse fixar o rosto. À frente daquela gente toda, não o iria matar, para não criar conflitos internos. Mas encontrá-lo-ia mais tarde, a sós.

Tomei nos braços a mulher que estivera a ser molestada e avancei na direcção da janela, passando-a com cuidado a um homem forte. Fiquei a vê-los a afastarem-se. O que seria daquela gente? Como iriam viver com a nova liberdade, se o corpo continuava preso? Fitei a minha própria prótese, pensativa. O meu irmão matar-me-ia se levasse tanta gente comigo para a capital Britânica. Ou talvez Philip preferisse passar umas férias em Moçambique. Sair daquela Londres fedorenta só lhe faria bem. E nem sequer seria difícil convencê-lo, coração mole como ele era.

Suspirei e, após a saída do último homem, afastei-me para o interior do edifício. Semeei bombas aqui e acolá, numa contagem decrescente para o espectáculo final. Deixei as três últimas na sala por onde me infiltrara da primeira vez e saltei pela janela.

Os guardas tinham aberto os portões principais e uma boa centena de humanos atravessava-a, com aleijados às costas e nos braços. Seguiriam até à sanzala de Asha, onde o chefe da tribo já dera indicações de acolhimento.

Encontrava-me a pouco mais de um quilómetro da mina quando um som semelhante à fúria de dez trovões ecoou no ar. Olhei para trás, vendo o tom laranja que a explosão e o consequente fogo deixava na noite, e acendi um cigarro.

Vários dias depois…

Dei quatro moedas de 20 réis a um pequeno ardina mulato e guardei o jornal do dia debaixo do braço (duas moedas foram pelo jornal, as outras porque com certeza lhe dariam jeito). O meu dirigível, Éter, aguardava-nos. Uma pantera negra caminhava elegantemente ao meu lado, ignorando os transeuntes que lhe lançavam olhares curiosos e de medo. Atrás de ambas, Christopher levava Asha nos braços. Depois de termos entregue Diniz às autoridades, a minha excelsa pessoa quisera saber de imediato o que um negro inglês fazia nas minas de Moçambique. Na verdade, não estranhei a resposta: fora um homem abastado que arranjara inimigos indesejados. Numa noite de nevoeiro cerrado, quando regressava a casa após assistir a uma peça de teatro, fora atacado. Não houvera chantagem de qualquer espécie. Encaminharam-no logo para a mina, com a mensagem: aqui é que é o lugar dos pretos. Os responsáveis pelo rapto teriam uma grande surpresa, daí a poucos dias.

Por sua vez, Asha aceitara o convite de nos acompanhar até Londres, num acto de coragem que me deixara feliz. Seria também uma forma de Philip saber o que o esperava.

Ao entrarmos no hangar, deparei-me com os meus dois ajudantes de bordo na conversa com duas damas e soltei-lhes um assobio gingão. Eles apressaram-se para a gôndola do dirigível: era hora de partir.

Quando Éter ia já no ar, num voo estável, prendi o leme e fui sentar-me num dos bancos. Dei uma vista de olhos às páginas acinzentadas do jornal, as sobrancelhas erguendo-se um pouco e um sorriso formando-se-me nos lábios ao ver uma notícia, em letra miudinha, sobre Mateus Diniz.

– Parece que o nosso amigo tentou fugir da prisão, mas não conseguiu ir longe. Foi atacado por um animal selvagem, imaginas? Estes sítios são mesmo perigosos… – Lancei uma mirada à pantera de olhos fechados deitada ali perto. A cauda dela abanava esporadicamente.

Fora fácil. Algum dinheiro passara de mão para mão, num embuste disfarçado de plano de fuga. Depois fora só esperar o momento e Hari tivera a sua vingança. No entanto, o menino que servira como guarda-costas do traficante fugira, e a pantera não lhe seguira o rasto. Suspirei e fechei o jornal, atirando-o de seguida para cima da mesa onde tinha um mapa de navegação aberto. Quase deitei um tinteiro ao chão.

Por fim, olhei através dos vidros da gôndola para o azul do céu, puro, pacífico. Fiapos de nuvens cruzavam-se de vez em quando com o Éter. Sentia que havia qualquer coisa que ficara por resolver. Cocei o queixo por um momento, escavando a memória em busca da minha resposta. De súbito arregalei os olhos e bati com a mão na testa.

– Oh, raios me partam! O Philip mata-me!

*

– Ali! Um brilho!

Sob o calor escaldante do meio-dia, dois rapazitos negros avançaram com passos silenciosos pelo carreiro de terra batida, até se aproximarem dos arbustos. Ao senti-los, uma lagartixa estendida ao sol fugiu de imediato.

– Não é bicho – disse o outro, começando a afastar os ramos com cuidado.

Tirou de entre eles um objecto metálico, pesado, com duas formas circulares paralelas. Olharam o seu achado, intrigados. Mexericaram-lhe, tentando perceber do que se tratava e para que servia, até que descobriram que era possível desdobrá-lo. Ficaram a olhar para o peculiar esqueleto metálico, depois de estendido

– Eu sei o que isso é – disse o mais pequeno. – Já vi os brancos usarem-na. É uma cibicleta! Ajuda-me a subir…

Com muita dificuldade, conseguiu chegar com os dedos dos pés descalços aos pedais e, depois de meia dúzia de desequilíbrios e quedas, ajeitou-se em cima da cibicleta, pedalando em direcção à sanzala. A meio caminho, trocou com o amigo, depois de este o atazanar de que era a sua vez.

E Charlotte não voltou a ver a sua bicicleta.

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