– Sr. Mateus, por aqui a estas horas?

Falei, mas não parei, escolhendo rapidamente o caminho que fazia uma curva para fora, protegendo-me de novos disparos. Não me espantava, na verdade. Pelo que sabia, sempre que Mateus Diniz ia a Tete, não deixava de passar uma boa vistoria à mina, dia e noite, certificando-se de que os procedimentos eram seguidos. Podia ser outra pessoa a fazê-lo, mas aquilo deveria dar-lhe uma sensação de poder que não quereria dispensar.

– Menina Charlotte Reeve, façamos as coisas a bem. – A voz dele ecoou na rocha. – Revele-se e poupar-lhe-ei a vida!

Ri-me. Mateus era também conhecido por ser um homem de palavra. Uma palavra com distorções bem retorcidas. Provavelmente a morte seria preferível à vida que prometia.

– É demasiado solidário, meu caro! Mas isso é tão pouco interessante…

Ponderei. Não o podia matar, só no mais último dos casos. Feri-lo seria problemático. Não que não tivesse autorização, mas uma bala mal metida ou disparada à queima-roupa poderia acabar numa hemorragia ou na imobilização de uma das pernas. E arrastá-lo pelos cabelos estava fora de questão. Teria de encurralá-lo e obrigá-lo…

– Saia daí. – A voz dele era suave, com uma pontinha de vitória mal disfarçada. Franzi as sobrancelhas. – Caso contrário, este rapaz tem os segundos contados, e eles serão somente dez que, curiosamente, é a idade dele.

Praguejei. Ele lixara-me, o grande filho da mãe cobardolas. Inspirei fundo e, quando a contagem decrescente chegou ao “dois”, revelei-me, com as armas apontadas, não fosse ter alguma hipótese de disparar. Diniz agarrava um rapaz de expressão algo resignada, pela parte de trás da túnica suja, e apontava-lhe o cano do revólver à nuca.

– Pronto, pronto, já me está a ver. E agora, que tal largar o rapaz?

– Primeiro atire-me essas armas, senhorita Reeve – pediu, com um sorriso.

– Oh, mas elas são como filhas para mim! – notei. Atrás dele vi um movimento subtil nas sombras. – Mas ‘tá bem.

Baixei os braços, devagar, e pousei os revólveres no chão. Dei-lhes um ligeiro balanço, atirando-os. Um foi ter directamente aos pés do traficante; o outro, contudo, percorreu uma trajectória diagonal, embatendo na parede, e sendo projectado para além dele. Suspirei e encolhi os ombros, conformada. Não podia fazer muito mais. Diniz não tirou os olhos de cima de mim, nem por um segundo.

– A mochila também – disse ele.

– Ó homem, você é chato! Também não quer que me dispa? – perguntei, tirando a mochila e atirando-a para o chão. Abri os braços e dei uma voltinha sobre mim. – Começo pela camisa ou pelas calças?

– Essa camisa é demasiado larga. Pode ter alguma arma aí escondida…

– Oh, tenho duas! – respondi-lhe, com um sorriso torto. – E sim, é uma camisa larga. Ou acha que, no meu trabalho, um corpete que esmaga pulmões e restringe movimentos tem algum jeito? Vê-se mesmo que é homem.

Desapertei o primeiro botão da camisa, depois o segundo, mostrando a pele clara da zona superior do peito. Depois hesitei, erguendo o olhar para o tecto, como quem medita.

– Ou talvez não lhe queira mostrar o meu belo par de armas.

– O que pensa… – As restantes palavras ficaram-lhe presas na garganta.

O meu sorriso, que nunca desaparecera durante toda a ameaça, alargou-se.

– Nunca se deve dar as costas às sombras. Elas são perigosas – ironizei. – Agora largue lá o rapaz e a arma, se não quiser uma bala nas costelas. Esta minha amiga tem-lhe um ódio de estimação. Por isso não estique a corda.

E aquilo não era, de todo, bluff. O olhar assassino de Hari, que surgira sorrateiramente e apanhara a arma, como só um felino conseguia fazer, quase perfurava a cabeça a Mateus Diniz.

Devagar, o traficante largou o rapaz e deixou cair o revólver. Mal se viu solta, a criança lançou-lhe um olhar de receio, antes de correr para junto de mim, escondendo-se atrás das minhas costas.

– Não me tinham dito que vinha acompanhada – notou Mateus. – Apesar de não me espantar que esteja viva.

– Não só lhe disseram, como já conheceu a minha companhia. É um belo felino negro, a quem chamei Harimau Kumbang. É língua indonésia, sabia? Foi de lá que a trouxe. O único espécime viável de um laboratório que foi pelos ares. Adoro mandar coisas pelos ares – ri-me. De facto, fui realmente eu que dei o nome a Hari. Ela não tinha qualquer memória da sua vida passada, depois de todo o tipo de experiências a que fora submetida. Na verdade, tinha uma: a do homem que desejava matar.

Diniz deve ter percebido o leque de indirectas, eu é que não consegui ter a certeza do que o deixou ainda mais pálido.

– Grande cabra, nem te atrevas…

– Ah, o nível já baixou para a má educação. – Abanei a cabeça e o meu sorriso desapareceu, numa melhor encenação de desilusão.

Atrás de mim, um movimento inesperado, detectado pelo canto do olho, fez-me recuar o braço esquerdo e rodar sobre mim. Escutou-se um entrechocar abafado de metal que me revibrou pelo braço acima. Encarei a criança, de cuja prótese mecânica emergira uma lâmina com cerca de um palmo de comprimento, acoplada provavelmente a um mecanismo de ponta e mola. Nesse momento deixei realmente de sorrir. Aquela apanhara-me desprevenida. O rapaz recuou, o olhar alternando entre o meu rosto e o antebraço.

– Dou-te uma oportunidade para fugires com os outros, rapaz – disse-lhe, desapertando o punho da camisa e arregaçando a manga até ao cotovelo. Tirei também a luva de couro. O rapaz pôde confirmar o porquê de o seu ataque não ter sido efectivo. Não havia carne nem osso sob os tecidos. Só aço, e do bom. Flecti os dedos para que os vissem melhor. – O senhor Diniz não é o único com truques na manga.

O rapaz mostrou-me os dentes e estocou na minha direcção. Desviei-me, as botas derrapando no solo com detritos de escavações. Estava longe de imaginar que teria de lutar com alguém com metade do meu tamanho. Bem, talvez um anão, mas não uma criança. Usei o braço de aço para me defender e desviar de uma nova investida e precipitei-me para ele, esmurrando-o no estômago. O rapaz soltou um arfar e dobrou-se sobre si. Aproveitei o momento para recuar e pegar no meu revólver abandonado. Apontei-o ao rapaz.

– Chega. Posso matar-te agora e deixas de ser um problema. Ou colaboras e deixo-te em liberdade.

O olhar do rapaz dirigiu-se para o traficante, em busca de alguma espécie de apoio ou indicação. No entanto o homem manteve-se em silêncio.

Aquele confronto não passara ao lado dos mineiros mais próximos. Alguns espreitavam, pensando talvez que a confusão os tornava invisíveis ou despercebidos.

– Há por aí um corajoso que se chegue à frente? Preciso de um par de mãos que consiga segurar uma arma e que a saiba usar – disse, alto.

Esperei, escutando mais burburinhos. Por fim, um latagão um palmo mais alto do que eu chegou-se à frente. O corpo era forte, de músculos bem definidos. A pele negra, brilhante do suor, estava marcada pelo chicote, uns golpes mais antigos do que outros. Um dos braços ainda era seu, contrastando com o metal sujo de óleo e fuligem do outro. A sua expressão era séria e resoluta. Indiquei-lhe a arma no chão, que pertencera a Diniz, a qual foi prontamente apanhada e segura com firmeza.

Quando se me dirigiu, deixou-me abismada por um momento.

– Eu trato do rapaz. Faça o que veio fazer. – Falou num inglês correcto, sem sotaque. Ali estava alguém que, com certeza, teria uma história interessante e, talvez, trágica, para me contar.

Respondi-lhe com um aceno e baixei a arma. Dirigi-me rapidamente à mochila de onde tirei uma corda e uma faca. Cortei dois bons bocados e atei os pulsos de ambos atrás das costas. Nenhum deles ofereceu resistência.

– Mantenham-se de olhos neles. Vou certificar-me de que todos os mineiros abandonam este sítio – avisei. Depois de receber duas anuências, afastei-me.

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