Havia corpos amarrados a camas, corpos deitados em enxergas e agrilhoados às paredes, e corpos que não valia sequer a pena agrilhoar porque, mutilados como estavam, não iriam a lugar nenhum. Havia adultos, adolescentes e até crianças. Eram certamente mais de trinta, bem mais do que Asha referira, só naquela sala. Como é que poderia garantir a segurança daquela gente toda durante uma fuga? Inspirei fundo, entrei e fechei a porta atrás de mim. Examinei as hipóteses que tinha. Ao fundo, separada por um vidro que ia do chão ao tecto, ficava a sala de cirurgia, impecavelmente vazia. Ao lado de algumas camas erguiam-se janelas de grades fixas. Brinquei com o modelador, rodando-o na mão. Podiam deixar de estar fixas, mas isso implicaria um certo investimento de tempo não planeado. Que se lixasse.

Passei entre as camas, observando os estados de reconstrução de membros. Muitos possuíam próteses ainda incompletas. Contudo havia outros nos quais os braços tinham já sido substituídos por mecanismos intrincados de escavação, ou mãos metálicas muito mais fortes que as humanas. E nem todos dormiam. Havia olhos a observar a minha passagem, desconfiados ou simplesmente resignados.

– Oiçam-me com atenção – disse, num tom baixo. – Primeiro de tudo, por favor, não façam ruído. Estou aqui para vos libertar.

Mal o disse, as vozes ergueram-se, cépticas, esperançosas, inquisidoras. Ergui os braços, pedindo calma.

– Só será possível se colaborarem e, acima de tudo, fizerem silêncio! – roguei, olhando em volta. Voltei a baixar as mãos. – A mina está fortemente guardada, e alguns de vocês não são capazes de andar. Os restantes mineiros virão ajudar-vos, mal sejam libertados. – Ou assim eu esperava. – Quais de vós estão aptos para andar e mexer as mãos? Precisarei da vossa ajuda.

Libertei os mais aptos, incumbindo-os de ajudar os restantes aquando a fuga. De seguida abri as grilhetas de todos, com o modelador-de-chaves. Frisei bem que, se tentassem fugir antes de ser dado o sinal, morreriam ou seriam recapturados. Para tantas pessoas só havia uma forma de fuga, a qual continuava fechada a cadeados – os portões principais.

Analisei os parafusos das grades das janelas, deixando-lhes duas chaves de fendas que guardava na mochila, para irem adiantando trabalho. Depois, acorri à sala paralela àquela, do outro lado do corredor, onde procedi de igual forma e dei as mesmas indicações.

Segundo Asha, a entrada para a ala prisional, na cave, era guardada por dois homens robustos. Preparei a arma de dardos e segurei a de fogo com a mão esquerda, enquanto descia as escadas em passos de lã. Preferia usar a primeira, por ser muito mais silenciosa, no entanto, por cautela, a segunda estaria sempre à mão. Pelo ruído que chegava até mim, deduzi que os guardas se distraíam de momento com um jogo qualquer, provavelmente envolvendo cartas. Espreitei-os com cuidado. Estavam demasiado abstraídos para me verem, debruçados sobre uma mesa baixa. Saí do esconderijo e disparei um primeiro dardo certeiro, apanhando-os desprevenidos. O segundo dardo não tardou, acertando no peito do outro homem quando este se voltou para mim e se começava a erguer de um banco de três pernas. Recuei e voltei a refugiar-me atrás da parede. Ambos tinham coldres munidos de um revólver. Ouvi praguejares, passos rápidos na minha direcção e, por fim, um estardalhaço de alguém a cair. Voltei a olhar. Estavam ambos estendidos no chão, demasiado atordoados pelo veneno. Sorri para mim e encaminhei-me rapidamente para as celas.

Por detrás das barras de ferro, os compartimentos eram pequenos. Homens e mulheres eram mantidos separados, com entre cinco a dez pessoas por divisão, ora estendidas no chão de pedra, ora encostadas às paredes frias. Não havia camas, zona para procederem à sua higiene, nada, e o fedor nauseabundo no ar reflectia-o.

– Se não é uma jeitosa branca que nos veio visitar! – Um dos homens chegou-se às grades, apoiando nelas os braços escoriados. Provavelmente dera alguma luta antes de ser preso. – Perdeste-te por estes lados?

– Pelo contrário. – Lancei-lhe um sorriso. – Damas e cavalheiros, vim aqui para vos libertar! – A ala acabava numa parede sólida, sem saída, não havia risco de me ouvirem para além dali. – No andar acima deste estão algumas das pessoas capturadas, às quais fizeram o que iriam também fazer-vos. É vosso dever ajudá-las a sair daqui. Abrir-vos-ei as portas das celas, no entanto saiam só desta ala aquando do sinal, se se quiserem safar.

Abri uma das celas, para infundir alguma confiança nos olhares desconfiados que me lançavam.

– E qual é o sinal? – perguntou um adolescente magro, que começava a sair da primeira cela e me observava com atenção.

– Ouvirão uma explosão. Será esse o sinal. – Destranquei o compartimento seguinte. Não me foi indiferente o olhar de ódio que alguns dos prisioneiros lançaram aos homens caídos. – Não sujem as mãos neles. Terão o que merecem, mais cedo ou mais tarde.

Deixei-os, rezando aos santinhos todos, em quem, por sinal, não acreditava, para que os mantivessem quietos e silenciosos. O próximo passo passava pelos dormitórios dos mineiros e, por fim, a própria mina. O trabalho era contínuo, não havia um cessar na actividade de extracção. Quando um mineiro estava esgotado, era substituído por outro. Quando um homem se esgotara tanto que provavelmente não conseguiria trabalhar no dia seguinte, nem no depois desse, era sumariamente executado e as próteses extraídas. Estas últimas tinham duas hipóteses de sobrevivência: ou passavam por um processo de reciclagem de peças, caso estivessem deterioradas, ou eram directamente instaladas num novo corpo.

Saí do edifício laboratorial pela mesma janela por onde entrara. Os tiros tinham cessado. A diversão acabara, de momento.

O dormitório dos mineiros possuía duas entradas: a principal e uma porta lateral, e cada uma encontrava-se fortemente guardada por quatro guardas. As janelas em torno do edifício eram coisas minúsculas, que pouco mais deixavam do que espreitar o interior. Tinham de servir.

Corri até um dos lados não guardados do edifício. Em princípio, os mineiros estariam atentos, à espera. Bati duas vezes, depois três, e a seguir uma vez num dos vidros, aguardando. A janela correu para o lado e dois olhos negros espreitaram. Por um momento ficaram algo desiludidos por me verem. Talvez estivessem à espera de alguém com mais caparro.

– O plano é este – disse logo, mostrando-lhe o modelador-de-chaves. – Isto é um instrumento capaz de se adaptar a qualquer tipo de fechadura. Basta inserir esta peça e carregar neste botão. Quando saírem daqui, vão directamente para o edifício experimental. Eles precisam de ajuda a sair, julgo que todos compreendem. Retirem-nos pelas janelas. As grades estão a ser removidas neste momento – acrescentei, ao ver que um deles ia argumentar. Passei-lhe o instrumento. – Usem só uma das portas, e saiam só alguns segundos após o meu sinal. Irei distrair os guardas com explosões na mina.

Anuíram. Não podia fazer mais nada senão confiar que seguiriam as minhas indicações à risca. Recuei dois passos, afastando-me da janela. Sem aviso, as minhas pernas embateram num entrave que não estava lá antes e, por um instante, quase caí para trás. Voltei-me de súbito, encarando uma pantera negra. Suspirei em silêncio e baixei-me, afagando-lhe o pêlo. Não parecia estar ferida e isso deixava-me mais do que aliviada.

– Distrai-me aqueles guardas – murmurei, coçando-a atrás das orelhas. – Tenho de passar para a mina.

O grande felino acenou e roçou-me o focinho no rosto. A seguir saltitou até à esquina do edifício, e após estudar os adversários, das sombras, saltou para diante e rosnou-lhes em desafio.

Dei a volta ao edifício, certificando-me de que os guardas da porta lateral tinham também ido ver o que se passava, antes de me esgueirar na direcção da mina. Levava um revólver em cada mão, ambos completamente carregados. Provavelmente já não precisaria de dardos silenciosos.

A mina descia de forma gradual, penetrando nas entranhas da terra. A sua extensão abarcava ainda bons metros de galerias sob o solo. Os carris para transporte de pequenos vagões carregados seguiam pelos túneis mais largos. Uma pequena locomotiva dava-lhes vida suficiente para que, com lentidão, subissem e descessem aos recônditos. O fumo que deixava para trás é que era sobejamente desagradável. Se Hari ali estivesse, relembrar-me-ia que isso não me afectava, já que os meus pulmões estariam mais fumados do que um salmão. Até era bom sinal, já que a pantera adorava salmão fumado.

Mais à frente, repercutiu-se um estalar cortante, acompanhado por um rosnar de dor contida. Ergui a arma e, quando passei uma esquina da galeria, disparei sobre o primeiro capataz que vi de chicote em punho, pronto a atingir novamente o homem prostrado a seus pés. A bala entrou-lhe têmpora a dentro, não lhe dando sequer hipótese de gritar. Os mineiros que estavam a ser supervisionados ficaram muito quietos, alguns fitando ainda a parede rochosa. Os outros capatazes nem suspeitariam. Era normal alvejarem trabalhadores, deixando-os a esvaírem-se em sangue. Os corpos eram depois carregados num vagão, junto com o carvão extraído.

– Descontraiam, estou só de passagem – disse, piscando-lhes o olho e continuando em diante.

Abatera mais dois homens e estava quase a alcançar uma bifurcação, quando um outro estouro ecoou nas paredes e uma bala passou rente à minha cabeça, cravando-se mais à frente na rocha. Olhei por cima do ombro e sorri.

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