Na tribo, o movimento começava ao raiar do sol. O meu, quando possível, começava pelo menos duas horas depois. Mas muito antes desse precioso intervalo de tempo, Hari acordou-me com uma lambidela vigorosa no rosto e um bafo felino que, num ápice, me fez rodar sobre mim, voltando-lhe as costas.

– Mas que raio andaste tu a comer? – rezinguei, por entre os dentes.

– Galinha. Uns rapazitos deram-ma para o pequeno-almoço – disse, depois de uma pausa para a mudança de forma. – É para perceberes como me sinto com o teu hálito a chaminé fabril.

Resmunguei, enquanto me levantava. O meu roufenhar era algo tão recorrente pela manhã, que Hari provavelmente já o considerava um ritual de exorcismo do sono.

Arrastei-me até à beira do rio onde me lavei, sem me despir completamente, e só tirando a luva da mão direita para o fazer. Não só por razões pessoais, mas porque usar as duas mãos dava muito trabalho para aquelas horas da manhã. A pantera, que era suposto guardar-me, andava na água a brincar com os peixes pequenos que lhe passavam por entre as patas. Navegando rio acima, um pequeno barco a vapor passou a alguns metros de nós. Não me dei ao trabalho de levantar a cabeça e olhar, quando ouvi meia dúzia de piropos. Estiquei só um braço, e ergui o dedo do meio na direcção deles, antes de continuar a minha higiene pessoal. Hari lançou-lhes um relance, e acho que foi isso que realmente os calou.

A seguir, junto de algumas nativas, comi meia-dúzia de peças de fruta pequenas e petisquei uns gafanhotos grelhados. Apesar do aspecto, eram bastante saborosos. Depois de bem nutrida, fiz-lhes um aceno de agradecimento, e dirigi-me à cubata de Asha.

– Posso? – perguntei, esperando a um metro respeitoso da abertura que dava passagem para o interior. Quando tivemos autorização, entrei, seguida de Hari.

A habitação era um pouco maior do que aquela onde tínhamos dormido na noite anterior, com mais utensílios, roupas arrumadas sobre um banco, uma lança e um arco apoiados num canto. Asha recostava-se numa almofada larga, com um xaile colorido sobre o colo. O tecido não encobria porém a falta de grande parte dos membros inferiores. A jovem também não escondia de todo a ausência dos antebraços. No lugar onde deveriam estar os cotovelos, tinham sido acoplados pedaços, peças, restos metálicos de uma experiência por finalizar.

Ela sorriu-nos e esticou o pouco braço que tinha para Hari, ao que a pantera se deitou ao seu lado, de cabeça apoiada nas patas dianteiras. Era uns bons anos mais nova do que eu, uma dúzia talvez. Mal passara a fase da adolescência. A sua pele era mais clara do que a da restante tribo, denunciando-a como uma mestiça que, ao chegar à idade adulta, fora vendida pelo próprio padrasto. Diniz levara-a para a mina, onde lhe tinham feito aquilo. Felizmente, o amigo que vivia com ela naquela cubata conseguira resgatá-la. Asha não me contara como, mas algo me dizia que envolvera dinheiro a passar para as mãos de alguns guardas. Também não queria saber donde viera esse dinheiro.

Sentei-me diante dela e retirei do bolso traseiro das calças um papel dobrado em quatro. Estendi-o entre nós, revelando uma planta detalhada da mina e dos complexos adjacentes: dormitórios, salas de laboratório, oficinas e armazéns. Mateus Diniz fora realmente muito útil ao fornecer-me aquilo. Asha confirmou as posições de tudo o que sabia, incluindo um número médio de seguranças e como estavam armados.

– Conseguem mesmo fazer isto? Sozinhas? – perguntou, preocupada. – Se eu pudesse…

– Quando terminarmos esta missão, convido-te a vir comigo a Londres. O meu irmão ajudar-te-á a voltar a ter pernas e braços completos. É um especialista com paixão por ajudar os outros. Enquanto isso não acontece, já me ajudaste muito. – Indiquei a planta com um dedo. – As tuas recordações e o teu testemunho são muito úteis, acredita. Em todo o caso, não contamos fazer isto sozinhas. A Hari já garantiu alguma ajuda interna.

Asha espreitou a pantera que fez um pequeno aceno. Há duas noites, infiltrara-se na mina e conseguira entregar um recado a um dos mineiros. Era esperado que ele tivesse passado a palavra aos restantes prisioneiros, se não tivesse ficado demasiado assustado com um grande felino mensageiro.

A jovem tentou remexer-se ligeiramente. Estendi os braços e ajudei-a a sentar-se numa posição mais confortável. Ajeitei-lhe o xaile.

– Acima de tudo, tratem de voltar. Se for possível, com o objectivo cumprido. Se não for…

– Não existe essa hipótese. Para nós tudo é possível. – No meu sorriso de aventureira havia mais do que confiança. Havia uma certeza difícil de demover.

Pedalei a toda a velocidade na minha bem oleada bicicleta, pela estrada de terra batida. Na verdade até tinha uma motorizada, no entanto deixara-a escondida na sanzala. O motor faria um estardalhaço tão óbvio que era o mesmo que dizer para dispararem sobre mim. Hari corria mais à frente, encoberta pela noite. Por vezes parecia ter um relance dela, mas poderia ser só uma planta traiçoeira.

Quando me encontrava perto do Rio Revuboé, afluente do Zambeze, e a cerca de um quilómetro da mina, desci da bicicleta, dobrei-a em dois e escondi-a entre uns arbustos rasteiros que ladeavam a estrada. A meu pedido, o velocípede fora adaptado pelo meu irmão Philip, mal os primeiros modelos tinham chegado ao mercado, há pouco mais de um ano. Era o único exemplar dobrável e não queria de modo algum perdê-lo.

Avancei com cuidado. Mais à frente, a luz de um posto de vigia alto iluminava o portão e o gradeamento em redor, deixando poucas hipóteses de aproximação frontal. Havia também soldados a executar rondas esporádicas ao perímetro exterior. Não tinham um horário certo, por isso precisaria de estar atenta aos ruídos, e ser rápida, enquanto me infiltrava. Aproximei-me, de costas baixas e joelhos meio dobrados, do gradeamento forrado a arame farpado. Só aquilo dissuadiria algumas pessoas de o trepar. No entanto, eu não estava a pensar fazê-lo.

Passei uma mão pelo chão, onde Hari deixara o ponto de entrada assinalado. Os dedos encontraram uma ponta de tecido, a qual puxei, descobrindo o lenço que havia ficado enterrado. Removi a terra e procurei as extremidades de uma placa de madeira velha que empurrei para o lado, revelando um buraco suficientemente largo para caber nele. Enfiei a mochila lá para dentro, empurrando-a à minha frente, e passei por debaixo do gradeado, rastejando de forma esguia. A outra extremidade da passagem estava abrigada por detrás de uma série de arbustos espinhosos, numa zona pouco iluminada. Fiquei acocorada, espreitando por entre os ramos. Por ora reinava o sossego e não via nenhum guarda nas redondezas.

O laboratório situava-se a poucos metros de mim. Era um edifício em bloco, de paredes pintadas de branco. Algumas das janelas tinham grades, mas não todas. Aguardei mais alguns segundos, contando-os baixinho… até o primeiro tiro romper a noite, seguido de mais um, do outro lado do complexo. Ergui-me um pouco e corri acocorada até ao laboratório, levando numa das mãos, não uma arma de fogo, mas uma de dardos embebidos num tranquilizante muito forte. Sorri com ironia. Daqueles de serpente.

Parei junto a uma das janelas sem grades e espreitei o interior, primeiro cautelosamente, depois com uma lanterna de foco reduzido. Vi uma secretária, estantes, uma máquina de escrever… parecia somente um escritório. Apaguei a lanterna e testei a janela de guilhotina, que se ergueu um pouco sob a pressão dos dedos no vidro. Sorri para mim e abri-a com cuidado, tentando evitar ruídos. Lá à frente, os disparos casuais continuavam. Esperava que a manobra de diversão de Hari fosse cuidadosa.

Trepei pela janela e fechei-a atrás de mim. Fui até à porta, entreabri-a com cuidado e espreitei o corredor. Uma luz mortiça, trémula, espalhava-se ao longo dele, dando-lhe um aspecto doentio e enfatizando o seu vazio. Avancei por ele, de arma preparada a disparar a qualquer movimento. O complexo experimental ficava numa ala paralela àquela.

De súbito, vindo do corredor perpendicular para onde me dirigia, o som de passos descontraídos repercutiu-se, aumentando gradualmente de volume. Parei, encostada à parede, e estiquei o braço, apontando a arma à esquina. O guarda soltava um bocejo, quando passou por mim, de olhos fechados. Voltou na esquina em frente àquela onde eu o esperava, virando-me as costas sem dar conta da presença estranha. Poderia disparar agora, deixá-lo inconsciente num canto qualquer… mas talvez assim fosse melhor. Continuei com passos silenciosos e infiltrei-me rapidamente no corredor donde o guarda surgira.

A ala experimental era mais lúgubre que a anterior. Gemidos abafados chegavam através das portas fechadas, chamando a atenção para o estado dos seus ocupantes. Na planta, a ala era composta somente por duas salas amplas, uma de cada lado do corredor, apesar das várias portas que iam desde ali até ao fundo. Rodei subtilmente uma das maçanetas. Estava trancada. Tirei da bolsa à cintura o modelador-de-chaves que Philip me arranjara. Era um objecto esférico, optimizado para executar cortes, mimetizar chaves… Como era bom ter um engenhocas na família! Inseri uma espécie de estilete fino na fechadura. Escutou-se uma série de estalidos baixos e, quando terminou, rodei a chave no canhão e entreabri a porta, espreitando a semiobscuridade. Um bafo pesado de suor e saturado de respiração doentia escapou-se do interior. As sobrancelhas arquearam-se e não consegui conter uma imprecação silvada por entre os dentes.

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