Arrastei o corpo do meio do passeio até uma rua mais escura e reservada. Pelo caminho, escutei outro grito, vindo da casa. Parecia haver, pelo menos, um segundo homem.

Dei-lhe um toque com a biqueira da bota, antes de me debruçar e pousar-lhe os dedos sobre o pescoço, procurando-lhe actividade cardíaca. Porém, nada senti. Apressei-me a revistar-lhe os bolsos. Num deles encontrei um dispositivo a corda, impregnado de um característico cheiro a pólvora – um engenho explosivo que me poderia dar jeito. Estariam a pensar explodir com a casa depois de me matarem? Provavelmente. Assim disfarçariam o assassinato com algum acidente; até as autoridades achariam preferível. Apoderei-me também de uma carta, porém a luz era demasiado fraca para a conseguir ler no momento. Na manga, o homem escondera uma faca de ponta e mola. Guardei tudo e abandonei o cadáver, antes que alguém viesse averiguar a origem do estampido que rompera a noite.

Apressei-me até à porta de casa, somente para a fechar. Uma porta escancarada era o chamariz ideal para o povo e para as autoridades. Lá dentro não havia nada de que necessitasse. Os meus pertences tinham sido deixados num local bastante mais seguro. Recuei dois passos e olhei para a janela aberta. Nada mais se ouvia vindo do interior. Esperava que Hari não se armasse em glutona. A última coisa de que precisava era encontrarem um cadáver meio comido numa casa que arrendara.

Afastei-me de mãos nas algibeiras e desci um lanço de escadas entre dois edifícios. Era suficientemente estreito para deixar passar somente uma pessoa de cada vez. Abri e consultei o relógio de bolso. Ainda faltavam alguns minutos para o barco atingir a margem; o melhor seria aguardar ali, um local suficientemente escuro para ninguém dar por mim. Sentei-me e tirei da cigarreira um cigarro cuja ponta comecei a mastigar ligeiramente. Inspirei fundo e tamborilei com os dedos num degrau. Onde se metera Hari? Tardava demasiado para o meu gosto. Risquei um fósforo e acendi, por fim, o cigarro. Mal o fiz, como por reflexo, um tremendo estouro abalou toda a rua atrás de mim.

Ergui-me de um salto, dando meia volta, pronta a trepar por ali acima, e quase tropecei na pantera sentada dois degraus acima.

– Filha da mãe do diabo… – praguejei, mirando os dois orbes amarelos que me fitavam, serenos. A pantera segurava na boca uma pequena mala de couro. – Podias ter-me avisado que já aí estavas.

Hari pousou a mala junto às patas dianteiras, com cuidado suficiente para que as molas não retinissem na pedra. A seguir começou a mudar de forma, o corpo alongando-se com elegância, o pêlo recolhendo-se sob a pele, as formas tornando-se mais humanas. Ergueu-se por fim e sorriu-me, com os bigodes ainda a desaparecerem-lhe do rosto.

– Estavas preocupada comigo, por causa da explosão? – perguntou, apanhando a mala e pendurando-a no ombro. – Até me sinto lisonjeada… Ou terá sido por não me teres ouvido a chegar?

– Vamos, gata do demónio. – Voltei-lhe as costas, com uma pontada de irritação devido àquela brincadeira desnecessária. Hari acertara à primeira. Desde que a libertara do laboratório, na missão na Indonésia, há três anos, que me afeiçoara demasiado à sua companhia, às suas intimidades, à sua presença inteligente e felina. Em todos os anos que dedicara a ser uma agente da Coroa, nunca admitira um parceiro, trabalhara sempre sozinha, até a conhecer.

– Tive que acabar o serviço, chaminé ambulante – notou Hari, descendo as escadas, enquanto tentava espreitar-me a fumar furiosamente o cigarro que por pouco não me caíra da boca. – Eles tinham deixado um bocadinho pequenino de pólvora em nossa casa. Agora vão encontrar um cadáver churrascado, que vão pensar que és tu. Pelo menos durante um bocado. Diz lá, não foi boa ideia?

Funguei, sem lhe dar resposta. Fora boa ideia, de facto. Mas não gostava de me preocupar.

As águas do rio Zambeze rumorejavam, amenas e negras. Parei à beira do passadiço de terra batida, antes de descer a rampa que levava à margem pejada de detritos metálicos enferrujados. O sinal era visível na escuridão: uma pinta incandescente da ponta de um cigarro, que respondia à minha. A canoa aproximava-se em silêncio, sob o luar entrecortado pelas nuvens. Avancei para a água (água fria a entrar-me pelas botas, que bom…), seguida de Hari já na sua forma felina, e sorri ao recém-chegado. Camuflagem daquela é que me dava jeito. Nem sequer conseguia distinguir-lhe as feições na escuridão.

– Pontual, Tendaji. Muito obrigada – disse, subindo a bordo com cuidado. Hari saltou lá para dentro e deitou-se no fundo, ficando quieta para não destabilizar a embarcação.

– ‘Bora lá sair daqui – murmurou o homem, depois de me ter apertado a mão num cumprimento.

Os remos empurraram o barco em direcção à outra margem. Ao afastarmo-nos, ainda podíamos escutar as sirenes que anunciavam as chamas que deixávamos para trás. Línguas de fogo lambiam as janelas partidas que davam para aquele lado do rio.

– Belo espectáculo. Devem ter conseguido tirar da cama ‘ma boa parte de Tete – comentou Tendaji, por cima do ruído do rio, enquanto observava. – C’um catano.

Fiz um leve aceno. A ideia da pantera até fora bem aproveitada. Ganharíamos tempo precioso com aquele “fogo-de-artifício”. Diniz não agiria contra nós nas próximas horas.

Ajudei Tendaji a puxar a canoa para terra firme, ao atingirmos a outra margem, deixando-a lado a lado com mais meia-dúzia delas, usadas pelos nativos não só para atravessar o rio, como para a pesca. Ali a escuridão era mais densa, mais pura. As estrelas pareciam vivas, tremeluzindo sobre o veludo negro. A sanzala jazia adormecida, quando entrámos através da zona principal, demarcada por uma cerca de canas e dois guerreiros que passavam tremendamente despercebidos, enquanto quietos, tal como as lanças que empunhavam. Permitiram-nos a passagem com um aceno sério, sem perguntas.

Antes de fazer qualquer avanço em relação ao traficante Mateus Diniz, integrara-me o melhor possível naquela tribo. O truque fora ser eu própria e tratá-los com todo o respeito que mereciam, como seres humanos que eram. Nem todos por aquelas paragens tinham essa consideração. Oferecera-lhes algumas coisas, como medicamentos e comida, era verdade, mas estava certa de que me teriam ajudado mesmo sem isso. Em todo o caso, eu não era mal-agradecida.

Tendaji deixou-nos à porta de uma cubata pequena e desapareceu, indo ter com a família. Lá dentro acendi uma candeia a óleo, descalcei as botas e as meias molhadas que encostei à palha das paredes, e sentei-me numa enxerga a revistar o que vinha na mala que Hari trouxera consigo. Encontrei mais três explosivos de corda. Guardei-os na mochila arrumada a um canto, junto com o primeiro que encontrara, e com mais vinte que funcionavam de modo similar, mas cujo interior estava recheado de outra matéria. A carta que confiscara ao homem morto pareceu-me, a mim que era estrangeira, um atentado ao bom português, mas nada mais do que isso.

Por fim deitei-me de barriga para cima, mirando o tecto onde um louva-a-deus passeava, talvez em busca de uma presa para devorar. Ponderei no passo seguinte. No meu, não no do louva-a-deus. A mina ficava a alguns quilómetros dali. Uma infiltração diurna estaria fora de questão. Era um sítio bem vigiado, para evitar fugas ou intrusos que pudessem ver o que não deviam.

– Hey, chega para lá! – Hari interrompeu-me os pensamentos e empurrou-me para o lado, deitando-se também na enxerga, e aninhando-se contra mim, com um breve ronronar. – Qual é o plano?

– Primeiro, podes tentar comer alguns mosquitos que andam por aqui – disse-lhe, vendo um a passar rente ao meu nariz, zumbindo. – Depois, amanhã de manhã, voltamos a falar com aquela pobre rapariga, a Asha. – Passei-lhe um braço por cima do corpo, aconchegando-a melhor. – Para confirmar as informações. Ao anoitecer, partimos para a mina de carvão. E aí começará a diversão.

Sorri para mim. O próximo fogo-de-artifício seria… dinamite.

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