Muito concentrada, esborrachei a ponta do cigarro no cinzeiro posicionado ao centro da mesa, entre dois cálices de vinho do Porto, certificando-me de que a zona incandescente desaparecia. Só depois levantei o olhar e encarei o homem diante de mim.

– Não, senhorita Reeve? – perguntou-me. Dentro de um fato impecavelmente engomado, negro como a noite, ele mirou-me, primeiro estupefacto, depois ultrajado. A sobrancelha esquerda tremia-lhe num tique nervoso engraçado.

– Não, no, tidak, nein, para o caso de não entender o meu português. O sotaque inglês por vezes baralha as pessoas – comentei, um dos cantos dos lábios erguendo-se num sorriso sarcástico. – Pode ficar com os seus contos de réis, não faço esse tipo de trabalho.

Tirei a minha caixa de cigarros do bolso do casaco pendurado no espaldar da cadeira. Escolhi um, acendi-o e deixei-o pendurado num dos cantos dos lábios. Soltei uma baforada de fumo que se ergueu no ar quente do restaurante, misturando-se com o cheiro a comida típica de Moçambique. A luz era algo mortiça, talvez para disfarçar o calor que nem as ventoinhas do tecto conseguiam afastar. Troféus de caça ornamentavam as paredes, desde cabeças decapitadas de leões e búfalos, de olhos vazios, a peles de zebra e leopardo, e ainda um enorme chifre de rinoceronte. Uma colecção de restos mortais africanos. Combinavam perfeitamente com a geringonça guinchante, acomodada num dos cantos, que produzia o que deveria ser música, mas não era. Por vezes os ruídos das engrenagens internas sobrepunham-se aos dos desafinados acordes do violino tocado por dois braços mecânicos, enquanto uma lufada de fumo negro saía por entre as frestas das peças exteriores. Provavelmente fora ali posto para liquefazer o cérebro dos clientes, de modo a não processarem bem os preços dos pratos. Felizmente, não seria eu a pagar, mas sim o meu acompanhante, a cujo cérebro eu claramente dera uma mãozinha na liquefacção.

– Não pode fazer-me isto, Charlotte. Forneci-lhe todos os documentos e dados necessários, sob a sua garantia de se tornar…

– De forma a analisá-los e tomar a minha decisão, senhor Diniz – corrigi, deixando uma mão enluvada pender da cadeira, pousando-a na cabeça do felino negro sentado ao meu lado, no chão. Uma tigela jazia vazia junto às suas patas, onde ainda se notavam restos de sangue fresco. De momento, a pantera negra tinha o olhar fixo no homem.

Ele inspirou fundo. A careca suava e o rosto tornara-se ligeiramente mais rubro. Oh, naquele momento estaria com uma tremenda vontade de me matar. Se estivéssemos noutro local, que não um restaurante caro de Tete, ele tentá-lo-ia, com toda a certeza. Cada passo de Mateus Diniz era seguido de uma pegada invisível de sangue. No submundo, era um traficante afamado pela falta de escrúpulos, estando por de trás de variadíssimos crimes sórdidos, dos quais não havia provas. Eu lera relatos de uma boa parte deles, cedidos pelo gabinete de investigação criminal do Império Português, aquando o seu pedido de auxílio à Coroa Britânica. E havia mais do que tráfico.

– É essa a sua última palavra? Pondere bem, não encontrará um negócio tão bom quanto este, recheado de lucros e prazeres – acrescentou, apoiando os cotovelos na mesa e chegando-se mais para a frente. – Falamos de muitos zeros, em troca de tratar de meia-dúzia de máquinas intratáveis.

– Não são máquinas, nem meia dúzia. E se são intratáveis, não vou tratar delas. – Abanei a cabeça, fazendo os caracóis loiros oscilarem no rabo-de-cavalo. – Este calor deixa-me enjoada, senhor Diniz. E o Sol quase que me derrete a pele. Trabalho de campo não é comigo. – De forma talvez demasiado teatral, passei uma mão pelo rosto que há muitos anos até fora bastante branquinho, mas agora se apresentava mais moreno. Confesso que quando era mais nova, a minha pele tinha terríveis tendências para escaldões dolorosos, mas agora habituara-se.

– Irá perder mais do que dinheiro.

Uma mudança abrupta tomou conta da voz de Diniz. O aliciar fora trocado pela ameaça.

Soltei uma risada leve e baixei o olhar para a pantera negra, que rosnou baixinho. Ambos pudemos ver um pouco das presas que se escondiam por detrás dos lábios.

– O que achas, Hari? – perguntei, fazendo festas por detrás das orelhas do grande felino. – Acho que ela concorda comigo, senhor Diniz. Não perco nada, e o senhor terá de ir procurar outro alguém mais másculo para a tarefa de… amansar mineiros hiperactivos. E com isto, bom resto de noite.

Ergui-me e peguei no casaco, lançando-o sobre o ombro. Pisquei o olho ao rosto ameaçador dele e voltei-lhe as costas. A pantera seguiu ao meu lado, depois de um último olhar amarelado ao homem.

Mal descera o primeiro degrau da entrada do restaurante, escutei o arrastar de uma cadeira. Não olhei para trás – a pantera fê-lo por mim. Continuei a caminhar, até desaparecer do campo de visão do restaurante. Desci a rua, descontraída, e entrei numa viela, parando aí, mesmo ao lado de um contentor fedorento. Vesti o casaco e do bolso tirei uma boina, a qual enfiei na cabeça, escondendo os caracóis loiros e sombreando os olhos azuis com a pala.

Do lado de fora da ruela, uma sombra aproximou-se, crescendo e deformando-se sob a luz dos candeeiros parcos. Esperei-a, de braços cruzados sobre o peito. Uma mulher, ligeiramente mais baixa do que eu (não havia muitas que, sem saltos, me superassem o metro e oitenta), voltou a esquina, encarando-me. A sua pele era escura, o cabelo fora penteado numa série de rastas presas por uma fita negra atrás da nuca. Os olhos amarelos, de expressão felina, fitaram-me, um pouco amuados. Ah, e estava completamente nua.

– Podias deixar-me comê-lo, Charlotte – notou. – Ficava o assunto arrumado.

Abanei a cabeça, levando uma mão ao rosto dela.

– Gata amuadiça… Não podes. Se o comeres, é fácil um outro assassino tomar o lugar dele. Não resolveríamos o assunto da mina nem da rede de tráfico – expliquei, pela enésima vez. Compreendia mais do que perfeitamente aquela vontade de Hari de matar Diniz. As cicatrizes, tanto interiores como exteriores, que a pantera transportava tinham sido, primariamente, causadas por ele.

Ela bufou por entre os dentes, revirando os olhos.

– Mal saíste, ele foi telefonar. Aquele violino do diabo não me deixou ouvir tudo, mas ele disse a nossa morada a alguém – afirmou.

– Claro que disse. – Sorri. – Hoje vamos ter festa em casa, não é? Linda menina.

Depositei-lhe um beijo sobre os lábios, antes de baixar a mão do seu rosto. A seguir aproximei-me do caixote do lixo e abri a tampa, fazendo uma nuvem de moscas esvoaçar lá de dentro. Com uma careta, tirei um saco sujo do interior e voltei a tapá-lo. Removi o revólver que escondera ali por precaução, livrando-me do invólucro, e fui espreitar a rua.

– Segues-me a uma distância segura? – murmurei, prendendo o coldre no cinto das calças e fechando o casaco.

No entanto, antes que obtivesse resposta, uma pantera negra escapuliu-se dali, afastando-se para as zonas mais sombrias, onde passava despercebida. Aquilo fora um típico e teimoso “não”, reconheci, enquanto a via desaparecer pela rua abaixo. Suspirei e segui num passo descontraído.

Poucos eram os transeuntes, àquela hora. Ainda menos eram os de etnia negra, porque quase nenhum vivia por ali, no centro da cidade. Essa zona estava destinada aos brancos, aos ricos, e a quem tivesse dinheiro suficiente para sustentar uma casa pequena ou um apartamento. A maioria dos nativos, que não servos internos, eram remetidos para as cubatas, na periferia, numa espécie de zona de exclusão. Para muitos, as condições eram consideradas degradantes naqueles cogumelos feitos de canas e palha (na minha opinião, não eram tão más assim, era tudo uma questão de hábito). No entanto, quem me metia nojo era a gente daquela cidade, de nariz empinado. Às mulheres nativas nem sequer lhes era permitido passar de um certo perímetro. As donzelas citadinas ficariam com certeza ofendidas por verem seios expostos a passear pela cidade.

Um carro passou por mim, com o estertor do motor a carvão a parecer querer acordar o próprio silêncio, enquanto oscilava nas pedras incertas da estrada. Maquinetas terríveis e mal cheirosas. A luz dos faróis afastou-se, iluminando o resto do trajecto que eu mesma iria seguir. A casa que arrendara situava-se junto à zona periférica. Apesar de meia caquética e dada a chiar a cada passo das minhas botas, durante o dia a parte de trás da residência deixava ver, ao longe, uma série de cubatas, assim como, bastante mais perto, o rio Zambeze. O esqueleto de aço que formava a ponte sobre as águas ficava estrategicamente a poucas dezenas de metros, tal como uma praia repleta de escombros e cadáveres de máquinas enferrujadas.

Parei na rua, em frente à casa, abrigando-me junto à ombreira de uma porta. Observei o local. Não detectava luzes através das janelas, porém uma delas encontrava-se aberta. A aragem balouçava indolentemente as cortinas. Sorri para mim, ao ver uma sombra trepar o tronco da trepadeira antiga que protegia a fachada e infiltrar-se pela janela. Fora para isso que Hari quisera deixar a janela aberta.

Um grito masculino encheu a noite, o ruído de algo a quebrar, um rosnar… A porta da frente escancarou-se e um vulto saiu a correr do interior, a respiração ofegante denunciando-o. Encoberta pelas sombras, deixei-o passar por mim, antes de erguer a arma. Não tinha grande problema em disparar nas costas de alguém que me esperava, às escuras, dentro da minha pequena residência, sem sequer ter sido convidado. Premi o gatilho.

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