Uma tarde, no armazém, quando Jack fazia a manutenção da armadura e ponderava em fazer alguns acrescentos, ouviu ruídos junto aos postigos. Embora tivesse reforçado as portas e equipado as mesmas com condensadores eléctricos que disparavam uma carga considerável a quem as tentasse abrir sem a chave certa, não lhe ocorrera reforçar os vidros. Provavelmente por estes estarem tão sujos que ficavam quase opacos.

Que estupidez, vou tratar disso ainda hoje, mas primeiro deixa ver quem anda aí.

Uma rápida inspecção fê-lo notar que um dos postigos estava quebrado e faltava um pedaço de vidro por onde entrava a luz do sol.

Uma sombra moveu-se e ocultou a luz. Jack apercebeu-se que alguém estava junto do vidro. Por um momento ia entrando em pânico com a possibilidade de ser descoberto, mas rapidamente recuperou a presença de espírito. Afinal, não era um neurasténico qualquer. Ia descobrir quem era o intruso e lidar com ele.

Começou de imediato a vestir a armadura, sempre fitando a abertura do vidro e a silhueta que o observava. Embora não conseguisse ver o rosto do seu desafiante à contra-luz, tinha a certeza que o outro indivíduo não tirava os olhos de si.

No momento em que ia colocar a máscara, viu uma luz reflectida numa lente, através da abertura do vidro, ouvindo quase de imediato um clique e um estampido acompanhado de um clarão. Maldição! Quem quer que seja, tem uma daquelas câmaras pequenas que usam explosões para iluminar as coisas! E apanhou-me numa fotografia!

Ajustou a máscara, ligando o tubo de gás, e dirigiu-se à saída. Saltou para o telhado do armazém, olhando para baixo à procura do invasor do seu espaço. Viu uma figura pequena a correr na viela ao lado do seu covil. Apenas o reconheceu quando já ia a saltar na sua direcção. Era aquele fedelho que o importunara no dia em que chegara. E agora o malfeitor tinha-o fotografado, com um aparelho que de certeza roubara a alguém.

Considerações à parte, Jack tinha que apanhar a máquina e dar uma lição ao rapaz, de preferência uma daquelas lições em que o aluno não sobrevive para contar como foi bem ensinado.

O miúdo olhou para trás e viu-o, mergulhando de seguida por um buraco no muro. Por momentos, Jack perdeu-o de vista. Teve de saltar em círculos em volta da casa cujo muro a sua presa atravessara, até que o viu a correr numa direcção quase oposta à inicial. A fazeres-te de difícil, não é? Só estás a piorar as coisas para ti, meu fedelho!, pensou, irritado.

O rapaz repetiu a habilidade algumas vezes, mas Jack rapidamente se habituou ao truque e começou a encontrá-lo com maior rapidez.

Ainda assim, o garoto conseguiu progredir até uma praceta na ribeira que estava cheia de gente.

A fugir para o meio do resto da escumalha, é? Não te vai servir de nada, seu sarnento, pensou o criminoso. Com um salto muito bem calculado, aterrou mesmo à frente do rapaz de olhos verdes, cortando-lhe o caminho. Aproveitou-se da surpresa para lhe arrancar das mãos a máquina fotográfica, que de imediato esmagou entre as garras metálicas.

Pronto, problema resolvido! Agora só falta ensinar esta amostra de gente o que acontece a quem se mete comigo…

– É o Zé Saltador! – berrou alguém. – E anda atrás daquele pequeno!

– É o Zé Saltador, sim! – gritou o miúdo à multidão que se acercava. – Mas é só um homem num fato, p’ra assustar a gente!

­– “Só um homem num fato”, meu pirralho? Então tu vais ser só uma mancha no passeio quando eu acabar contigo – ameaçou Jack, agarrando o miúdo e preparando-se para lhe desferir um golpe com a garra metálica. De repente sentiu uma pancada seca. E outra, e outra, e outra. Largando o rapaz, olhou em volta, e não conseguia acreditar. A ralé estava a apedrejá-lo. Alguns dos miúdos na turba, sem dúvida os parceiros do pequeno traste, usavam mesmo fisgas. A audácia! O fato aguentava tiros de pistola sem problema; já fora mesmo alvejado com espingardas e pouco amolgado ficara, portanto isto era ridículo!

Mais pancadas. E mais, e mais; a populaça parecia estar no meio de uma pedreira. Podia ser ridículo, mas estava a tornar-se incómodo. Por entre as pedras apanhou também com fruta e, pelo menos, um ovo. Este acertou em cheio na máscara, sujando-lhe as lentes vermelhas dos olhos e toldando-lhe a visão.

Chega! Está na altura de parar com isto!

Apercebeu-se de que a máscara estava a aquecer e viu que os projectores estavam ligados. Algum daqueles energúmenos tinha acertado na torneira, abrindo-a. Um tiro de sorte, por assim dizer, mas um transtorno. Fechou-a rapidamente, mas começou a consciencializar-se de que, se calhar, não era tão invulnerável como julgava.

A multidão continuava a atirar pedras, paus e tudo o resto que conseguia, e o miúdo de olhos verdes disparava com alegria a sua fisga. Parecia estar a vociferar qualquer coisa, provavelmente ameaças, mas não conseguia distinguir o que ele dizia no meio da confusão.

Os projécteis não cessavam, fazendo sucessivos ruídos de metal a tinir, Clank! Clank! Jack viu uma carroça abandonada junto à entrada de uma travessa e deu um pulo na sua direcção. Ergueu-a acima da cabeça, não se apercebendo de um silvo mais intenso na válvula de um dos pistões do braço esquerdo, que libertava uma nuvenzinha de vapor por uma rachadela provocada por uma pedra maior.

Apontou a carroça ao grupo de pessoas, preparando-se para a arremessar…

…e a válvula no braço estalou e soltou-se, libertando um jacto de vapor, fazendo com que Jack perdesse nesse mesmo momento a pressão no braço que lhe dava a capacidade de erguer aquele peso. A carroça desabou sobre ele, imobilizando-o tempo suficiente para a multidão enfurecida avançar sobre si.

Viu-se submergido numa confusão de corpos, que pontapeavam e batiam com pedras, paus e, basicamente, todos os objectos contundentes que não estavam presos ao chão. Conseguiram danificar os pistões da perna direita, pelo que o monstro metálico não lhes ia fugir. De repente alguém gritou de dor, e o grupo dispersou um pouco, o suficiente para constatarem que Jack desferira um golpe violento com as garras no peito do Quim do Tinto, um taberneiro local, e que este sangrava bastante.

– Para trás! – gritou a voz com timbre metálico. – Afastem-se ou começo a rasgar-vos a todos, seus imbecis! – Mais do que a ameaça ou o insulto, foi algo no tom de voz e na maneira como o homem no fato metálico gesticulava, como se de um animal acossado se tratasse, que fez a populaça começar a afastar-se.

– Vocês vão manter-se à distância e eu vou sair daqui! Acabou a festa! E se algum de vocês, campónios, me tentar seguir, vai dar-se mal. – Carregou na torneira do ombro para abrir um bocado a chama e dar maior efeito dramático. Doía-lhe o corpo todo, só queria afastar-se. Pelo menos o bando de animais afastara-se bem. Precisava de espaço. E ainda tinha de apanhar o miúdo, mas como? Se tentasse alguma coisa neste momento, o mais certo era perderem-lhe novamente o medo e acabarem com ele de vez.

Precisava de pensar. Começou a cambalear dali para fora, em direcção a uma viela, mas sempre encarando a multidão. Nenhum deles esboçou nenhum movimento que indicasse que o iam seguir. Óptimo! Ia tentar voltar ao armazém e planear o próximo passo. Tentou ver se o miúdo sebento estaria ainda a rir-se dele… E enquanto focava a atenção nisso, não avistou várias silhuetas no telhado de uma das casas. E também não viu que três dessas figuras lhe apontavam, cada uma, uma espécie de espingarda que tinha um cano mais comprido que o habitual, cano esse que era maciço e afilado como uma antena e onde se enrolavam bobinas eléctricas. Como tal, não se apercebeu de onde vieram os três relâmpagos que o atingiram em simultâneo. Apenas se apercebeu de dor, dor muito intensa, e quando os cilindros do gás e da água a ferver no seu dorso explodiram, matando-o, já estava inconsciente.

– Maldição – resmungou Abberline, – isto não estava no programa. Era suposto pormos o sujeito inconsciente, e não fazê-lo estourar!

– O que aconteceu? – perguntou o Inspector Marques, da Agência de Assuntos Interditos, que estava a auxiliar o grupo dos ingleses e cujos informadores o haviam alertado rapidamente para a confusão que se instalara com Jack na zona ribeira.

– Não tenho a certeza, mas ele devia usar algum tipo de combustível na armadura. Raios, ficou toda danificada. Isto vai dificultar a vida aos crânios da Divisão – queixou-se o Detective-Mor.

– Para além disso – interveio Roxburgh, – o sujeito parece estar bastante queimado. Vai ser um cabo dos trabalhos para o identificarmos.

– Queimado? – ironizou outro dos ingleses. – Acho que lhe falta a maior parte da cabeça. E vejam, peças por todo o lado. Ei, vejam, os locais já andam de roda daquilo. Marques, faça alguma coisa!

O Inspector português fez sinal a um grupo de guardas para dispersarem a multidão e tentarem evitar que levassem bocados do que sobrara do Spring-Heeled Jack, ou do Zé Saltador, conforme a nacionalidade do observador, como recordação. – E agora, Abberline? Como vai ser?

– E agora, meu caro? Agora vamos recolher os restos do sujeito e do fato e vamos levá-lo para a nossa simpática ilha. Apesar dos danos, tenho a certeza que poderemos aprender alguma coisa com ele. E não se preocupe, faremos como combinado, vocês irão ter acesso aos dados que recolhermos.

– A todos os dados?

– A todos os dados possíveis – respondeu o britânico. – Não depende só de mim, como sabe…

– Sim, sei muito bem. O sujeito vem do vosso país, faz confusão na nossa terra, nós ajudamos a limpar e vocês ficam com a melhor parte.

– Bem, fomos nós que o neutralizámos.

– Oh, sim. “Neutralizaram” tão bem que só ia ficando um buraco queimado no chão no sítio onde ele estava. – Marques relaxou um pouco antes de continuar. – Acho que mais valia ter deixado a populaça terminar o serviço. Provavelmente teria só ficado muito amassado, e com uns dentes a menos.

– Talvez – concedeu Abberline, – da próxima vez, devêssemos deixar o assunto nas mãos dos nossos simpáticos anfitriões. Que lhe parece?

– Parece-me melhor que não haja próxima vez, meu caro. Deixem os vossos bandidos na vossa terra, nós cá vamos tendo os nossos a dar-nos trabalho. Também tivemos um que gostava de telhados…

– Palavra? Talvez queira contar-me a história. Ainda tenho algum tempo, enquanto os técnicos acabam de recolher os restos do nosso amigo.

Os dois investigadores afastaram-se, a conversar descontraidamente. Os restantes elementos da equipa inglesa atarefaram-se a recolher os restos destroçados do fato e do seu ocupante.

Excepto a máscara de Jack. Essa fora projectada para o rio na explosão, e arrastada pela corrente em direcção ao mar, pelo mesmo sítio por onde viera tempos antes, para nunca ser encontrada…

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