Jack abriu o caixote e começou a montar a armadura. Esta era composta por uma camada interna de couro que ficava justa ao corpo e era recoberta de múltiplas placas metálicas, placas que mais que uma vez lhe salvaram a vida, deflectindo disparos da Polícia. Entre o forro e o revestimento estava o exosqueleto accionado a vapor. Às costas levava a fonte de energia motora – um cilindro para água aquecida por cristais de carvão radiante, aparentemente inesgotáveis, mas que tinham que estar sempre dentro de uma caixa de chumbo, caso contrário, podiam matá-lo através da mesma energia que fervia a água. Usava manoplas com palma em couro, mas com pontas metálicas acopladas nos dedos, que faziam o efeito de garras. O conjunto era completado por uma máscara metálica cujas feições imitavam, embora de forma mais refinada, a máscara tosca que o avô criara e que fazia lembrar o rosto de um demónio. A parte superior da mochila tinha um reservatório isolado de gás que se ligava à máscara por via de um tubo oculto, controlado por uma torneira no ombro esquerdo, e que permitia que da boca irrompessem chamas azuis.

Para não deixar ser tão evidente a natureza do fato, usava uma capa negra com capuz, que também ajudava a que fosse mais difícil vê-lo de noite, altura em que levava a cabo as suas operações.

Jack estava tão entretido e satisfeito com o seu engenho que nem notou um par de olhos verdes a observá-lo através de um buraco num dos vidros do armazém.

No dia seguinte, após passar a maior parte do tempo a confirmar o bom funcionamento do fato, e tendo procedido a algumas afinações, decidiu levá-lo para um “passeio” ao anoitecer. Saiu para o pátio e, com um impulso, acompanhado por um pequeno silvo de vapor a ser libertado, saltou por cima do muro, aterrando no telhado do armazém vizinho.

A partir daí, foi numa sucessão de saltos, galgando telhados, muros e afins, dirigindo-se para o interior da cidade. Evitou a zona da Baixa, ainda não se sentia muito à vontade para uma aparição mais gloriosa, e optou por ir até à Sé.

Calculou que àquela hora estaria a terminar algum serviço religioso e resolveu aguardar no telhado, agachado como se de uma gárgula metálica se tratasse. Não se enganou: passado pouco tempo, começaram a sair grupos de pessoas de dentro do edifício. Desse grupo separaram-se duas mulheres, que, pela maneira de caminhar, seriam de meia-idade, e que enveredaram por uma viela.

Perfeito, vamos começar por estas!

Saltou na direcção delas, a capa esvoaçando como se se tratasse das asas rasgadas de um anjo caído, e, ganhando impulso com dois pulos intermédios, aterrou à frente delas, com um estrondo metálico.

– Então, minhas senhoras? Não deviam andar na rua a esta hora, não se sabe quem podem encontrar! – vociferou, com timbre metálico, enquanto dava um toque no ombro, abrindo o gás e projectando duas pequenas chamas azuis. Ocorreu-lhe que parecia estar a sacudir caspa, o que era um pouco ridículo, e que era melhor pensar numa alternativa para o controle das chamas da boca. As suas vítimas, contudo, não pareceram achar nada risível o gesto, já que estavam pálidas como a cal, uma delas a tremer como varas verdes e a outra nem isso conseguia, já que estava petrificada.

A que tremia lançou um grito que atordoou Jack, mesmo tendo os sons abafados pela máscara. A petrificada desmaiou, e enquanto a amiga a tentava amparar, o monstro metálico lançou-se na direcção delas, arrancando-lhes as bolsas.

– Eu fico com isto, muito obrigado! – disse sarcasticamente, lançando-se para cima num salto; em três pulos pôs-se no telhado de uma casa mais alta. Desligou o gás, já que a máscara estava a ficar muito quente, e removeu-a. Ficou a vasculhar as bolsas enquanto ouvia o crescente burburinho na rua, uma mistura de gritos, choro, perguntas e exclamações, que ecoavam pelas ruas estreitas. As bolsas tinham alguns pertences sem grande valor, como imaginara. Nada que valesse a pena guardar. De qualquer modo, o seu prémio fora mesmo a aparição em público. Resolveu fazer isso render um pouco mais. Recolocou a máscara e deu um salto na direcção do local onde estivera momentos antes. Ganhando impulso, pulou contra as paredes, com um assobio mínimo de vapor, o que chamou a atenção dos populares, que viram uma criatura assustadora a saltar pelas paredes das casas.

– É o Diabo! – gritou alguém, provocando mais alguns chiliques e muitos sinais da cruz.

Jack começou a saltar em direcção aos telhados e desapareceu de vista. O Diabo, é? Isto correu bastante bem!

Nas semanas seguintes Jack continuou a onda de aparições, começando a arriscar assaltos a locais mais proveitosos, nas zonas mais abastadas da cidade, que lhe valeram um pequeno espólio de jóias. Sabendo mover-se pelos meandros do submundo, não lhe foi muito difícil descobrir alguns receptadores. Só tinha de ter o cuidado de não ir sempre ter com o mesmo e de não roubar nenhuma jóia mais famosa que permitisse que descobrissem a sua identidade.

Uma manhã, quando saiu do armazém, dirigiu-se ao centro da cidade, para a pensão onde estava a residir, sem reparar que era seguido à distância pelo miúdo dos olhos verdes. Este tinha uma habilidade inata em não se fazer notar, quando assim o desejava. Continuava ressentido com aquele bruto disfarçado de cavalheiro e havia de lhe mostrar como eram as coisas. E ter descoberto o que o homem tinha guardado no armazém valia ouro, ia-lhe ser útil com certeza!

Entretanto, o “bruto” comprou um jornal, em cuja primeira página se falava do último e audacioso ataque do “Zé Saltador”. Era esse o nome que a imprensa lhe dera. Quase tão mau como o “João Saltitão” que preconizara. Mas pelo menos falavam dele.

E tanto falavam dele que, inevitavelmente, as notícias foram vertidas para a capital do Império Britânico e levadas à atenção do director da Divisão Negra da Scotland Yard, o Detective-Mor Abberline. O modo discreto como lidara com aquele assunto desagradável das vítimas do médico da Família Real em Whitechapel granjeara-lhe o favoritismo da Coroa. Embora, por razões de estado, não pudesse ter revelado a verdade e obtido o reconhecimento do público, a sua carreira levou um impulso quando lhe permitiram criar a Divisão Negra, constituída por alguns dos melhores talentos da Criminologia e da Engenharia, com a finalidade de lidar com ameaças menos… ortodoxas à paz do Reino.

E fora um dos elementos da sua equipa, o Detective Roxburgh, que descobrira as notícias de um assaltante em Portugal que correspondia ao modus operandi, bem como à aparência geral, do fugitivo que procuravam.

– É ele, Roxburgh! Parabéns, encontrou-o!

– Como está tão certo, Detective? Pode ser um imitador. Afinal, continuamos a ter relatos de aparições de Jack um pouco por todo o país…

– Precisamente! O nosso Jack actuava em Londres. Não acredito que o do Porto seja um imitador. Acho que os avistamentos dos relatos recentes é que são – tentou explicar melhor enquanto cofiava o bigode:

– A descrição é perfeita demais. Os outros tratantes actuam de formas variadas. Este, o do Porto, actua exactamente como o de Londres. E de resto, tenho um pressentimento…

Roxburgh não conseguiu evitar um sorriso:

– Ahá. Um dos seus famosos pressentimentos.

Abberline sorriu de volta:

– Não se queixe, meu caro. Os meus pressentimentos puseram fim ao massacre das prostitutas, que aquele lunático culpava da loucura do nosso Príncipe. Infelizmente, não fui rápido que chegasse, se os tivesse valorizado no início a contagem de corpos teria sido menor.

– Ora, confesse, Detective-Mor. O senhor gosta é de perseguir bandidos chamados “Jack”. – Prevendo a instrução do seu director, Roxburgh dirigiu-se ao bengaleiro e pegou no casaco.

– Roxburgh, reúna uma equipa. Vou entrar em contacto com os nossos análogos portugueses e vamos apanhar um dirigível para o Porto. Sinto que estamos perto de deitar as mãos àquele celerado e ao seu fatinho metálico.

– A propósito disso, quer levar as armas novas? Foram entregues ontem.

– Sim, sim, boa ideia. – Abberline dirigiu-se ao telefone enquanto terminava o raciocínio do colega. – Vai ser uma boa oportunidade para fazer um teste de campo aos rifles do Sr. Tesla.

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