O ano era 1895 e o homem conhecido como Spring-Heeled Jack contemplava, com alguma impaciência, a plataforma de atracagem na foz do rio Douro.

Optara por viajar num cargueiro de segunda categoria em vez de se deslocar num cruzador maior, como o Titania, ou mesmo num dirigível. Era certo que um cruzador de quatrocentos e cinquenta metros de comprimento e oito motores a vapor, uma verdadeira cidade flutuante, seria muito mais confortável, tal como uma aeronave. Não lhe faltavam recursos económicos para esse tipo de viagem, mas tinha uma razão mais pragmática para a sua opção. A sua carga valiosa, a armadura de Jack. Não a conseguiria transportar no Titania sem chamar a atenção.

Passara anos a trabalhar nela, a aperfeiçoá-la, sempre a tentar completá-la, mas sem conseguir. Havia sempre algo mais a acrescentar. Mas já conseguira torná-la uma maravilha da mecânica. Equipada com compressores a vapor em miniatura, permitia obter a compressão hidropneumática necessária para saltar vários metros com um mínimo de esforço, assim como erguer cargas que um homem comum não suportaria, ou mesmo esmagar ossos com um murro. Era uma peça completamente diferente do fato usado pelo seu avô, o primeiro Spring-Heeled Jack.

Meu Deus, pensou, o homem usava literalmente molas nas botas para saltar, e uma máscara tão mal feita… E limitava-se a assustar pessoas pela piada. O que pensaria ele se visse o nível a que eu fiz chegar a lenda?

O actual Jack resolvera continuar a tradição de família elevando-a a um novo patamar. Mais concretamente, tornara-se o assaltante mais eficiente de Inglaterra. Claro que continuava a fazer pantominas como as que o avô e o pai haviam realizado, quanto mais não fosse para despistar as autoridades quanto aos seus intentos. Mas, na realidade, andar a assustar pessoas era só uma manobra de distracção.

O seu fato, uma obra-prima de engenharia, poderia ter aplicações militares e industriais fenomenais. Aliás, ele estava certo de que era por isso que nos últimos anos o governo britânico andava tão apostado em capturá-lo. Protecção e paz pública, pois sim! Queriam era desmantelar o fato para usarem a tecnologia para os seus próprios fins.

Eles que tentem, reflectiu. A armadura é minha e eu uso-a para o que eu quiser.

E o que ele queria era praticar roubos mais audazes. Antes de se reformar e viver um resto de vida confortável, algures no Sul da Europa, ou talvez nas colónias ultramarinas.

À medida que o cargueiro se aproximava da plataforma, resolveu descer ao porão e confirmar se estava tudo bem com a carga. Lera recentemente artigos muito interessantes sobre os progressos na miniaturização de aparelhos eléctricos e andava a pensar incluir condensadores nos braços, para poder dar “surpresas chocantes” a quem se aproximasse demais. Seriam, tal como os projectores de chamas na boca da máscara, um toque interessante para aumentar a sua mística de ente demoníaco.

Enquanto confirmava que estava tudo em ordem, deu por si a imaginar como seria recebido pelas massas neste país. Detestava a língua, embora a tivesse aprendido com dedicação nos últimos anos. Iria usar Portugal como uma plataforma de treino, só para não perder a mão, enquanto estudava os passos seguintes. Provavelmente iria tentar alguns roubos mais audazes em França, ou até no Império Germânico… cuja língua ainda detestava mais. Mas seria a cereja no topo do bolo, um grande roubo por lá… Até imaginava o confronto como se de um folhetim de aventuras se tratasse: “Spring-Heeled Jack contra as forças do Kaiser”. Megalómano? Talvez, mas a perspectiva era aliciante.

Entretanto, ia ter de se contentar com este pequeno país à beira mar plantado… Os nativos eram praticamente selvagens, no seu ponto de vista, e mereciam qualquer mal que ele lhes causasse. A maioria nem sabia falar outras línguas! Provavelmente iam chamar-lhe “João Saltitão” ou outra designação néscia semelhante.

Desembarcou e fretou uma carruagem para que o levasse ao armazém que arrendara, por um intermediário, meses antes, e que lhe ia servir de base de operações. Teve de se contentar com uma puxada a cavalo, já que os ignóbeis locais pareciam nunca ter ouvido falar em autolocomotores a vapor. Pelo menos o transporte era quase gratuito, comparado com os preços que se praticavam na sua terra natal.

E assim, lá foi ele, fervendo de impaciência e desprezo, em direcção ao armazém que em tempos fora usado no comércio de Vinho do Porto, mas que estava vazio há um par de anos.

Não o surpreendeu encontrar a entrada pejada de pedintes. Já se apercebera que a zona ribeira era bastante degradada. Enxotou-os energicamente com alguns gestos ameaçadores, mesmo semi-maníacos, com a bengala, e uma série de insultos que proferia com um sotaque característico. Não lhe agradava recorrer a vulgaridades, mas aquela gentinha só percebia quando se descia ao nível deles.

Depois de provocar a debandada dos mendigos, destrancou a porta principal, e, de repente, parou, pressentindo alguém ao seu lado. Era um dos desgraçados, um miúdo esquálido que não teria mais que seis ou sete anos, pelo aspecto. Tinha também ar de que não tomava banho há um número igual de anos. Com que então, este não fugiu? Quase admirou a coragem do petiz, especialmente quando este continuou a pedinchar:

– Uma moedinha p’ra comer qualquer coisa, s’nhor? Vá lá…

– Vai-te embora ou já vais comer, mas não vai ser comida! – ameaçou Jack. – Vá, desanda! – E com isto, tentou atingir o rapaz com a bengala, cuja ponta passou a centímetros dos seus enormes olhos verdes, olhos de uma cor tão viva que contrastavam com a cara enfarruscada, e só não lhe acertou porque o garoto foi mais rápido a desviar-se. O miúdo praguejou qualquer coisa com um sotaque cerrado que Jack não entendeu, virou costas e fugiu. Finalmente!

Entrou no armazém com o caixote e restante bagagem e começou a instalar-se. Mais tarde iria procurar um local mais condigno para residir, quando mandasse vir o resto dos seus bens de Inglaterra, mas para já ia querer manter-se o mais inconspícuo possível. Já iria dar nas vistas que chegasse com a armadura.

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