Tic-toc-tic-toc.

Onde estava?

Tic-toc-tic-toc.

Os sons chegavam-lhe audíveis, mas ainda sem a capacidade de se ligarem a um reconhecimento. O cheiro a lavanda invadia-lhe as narinas, trazendo-lhe reconforto. Sob si, sentia uma macieza confortável.

Tic-toc-tic-toc.

Helena abriu os olhos, piscando várias vezes antes de compreender que não reconhecia o espaço em redor. Estava num quarto desconhecido. Um puxão repentino no peito fê-la arquejar.

– Calma.

Aquela voz… Felismina. As memórias regressaram-lhe em catadupa, acalmando-a. Estava viva. Esticou a cabeça, afastando as cobertas e procurando ver o peito. Uma cicatriz grossa e vermelha marcava o local onde Felismina tivera de a abrir. A medo, pousou-lhe as mãos, sentido um ligeiro movimento por baixo.

– É impressão tua. – Felismina voltou a falar, pousando o tricot que estivera a fazer. Vigiara-lhe a recuperação de uma cadeira de balanço ao lado da cama, tanto para garantir a saúde da sua cliente, como para esperar o melhor momento para a confrontar. – Não há maneira de conseguires sentir o relógio na pele.

– Vai dar problemas?

– Esperemos que não, mas aconselho a que não haja grandes esforços nos próximos meses.

Helena não escondeu um esgar. Não havia maneira de não fazer esforços quando estavam num momento tão delicado da sua batalha.

– Onde estou?

– Em minha casa. O teu caso é o primeiro do género com que lido, preciso de manter um olho na recuperação.

A bruxa torceu o nariz, afastando ainda mais as cobertas e fazendo tenções de se levantar.

– Compreendo e agradeço, mas não posso. Tenho coisas a tratar.

Mina pousou-lhe uma mão firme no ombro, empurrando-a para trás. Os olhos avelã da outra arredondaram-se, surpreendidos pela força inesperada. Perante a sua incredulidade, a relojeira abriu a gaveta superior da cómoda ao seu lado esquerdo, retirando um molho de papéis. O sangue fugiu do rosto de Helena. Aqueles papéis deviam estar já na posse do Visconde d’Arreios, escondidos no relógio de cuco que ele deixara previamente da relojoaria para concerto. Fora por isso que Helena correra o risco de procurar refúgio tão perto do local da explosão.

– Escondi-te. Corri um risco no qual nem quero pensar, e foi com isto que me retribuíste?

Era óbvio que o conteúdo dos papéis não eram uma incógnita para Felismina. Com certeza aproveitara o tempo em que os tivera em sua posse para colocar a leitura em dia.

– A causa…

– E o Visconde é o mesmo ingrato – continuou a relojeira, abanando os papéis em frente a Helena, não dando mostras de se ter apercebido da tentativa de fala da outra. – Anos de serviço fiel para isto! Aceitei todos aqueles que ele me mandou. Até a ti, ainda agora, mesmo depois de saber disto! Porque sou uma idiota que não sabe dizer não… Vocês sabem quantas rusgas me fizeram ao estabelecimento? Sabem o que me teria acontecido se tivessem descoberto isto na minha posse?

Helena endireitou-se o melhor possível, o nariz empertigando-se na justiça que sabia existir na sua causa. Tomavam as acções que lhe eram necessárias.

– Não descobririam, o feitiço de ilusão…

– O feitiço de ilusão era fraco e mal executado – cortou Mina, olhando-a como a uma criança travessa. – Facilmente detectado pelos amuletos que agora usam.

– É exactamente para acabar com esses amuletos que precisámos de usar o relógio! – explodiu Helena, as mãos cerrando-se nos lençóis.

– De me usar a mim, queres dizer – corrigiu a relojeira. – Acharam que eu não me aperceberia que me tinham mexido no relógio? Ou dos resquícios dum feitiço que não era meu?

Helena abriu a boca, fechando-a novamente, antes de desviar o olhar para as mãos. Não tinha como responder. No seu ímpeto em querer garantir que conseguiam retirar as informações que o Governo – e a Lopes & Cia – detinha sobre o funcionamento da magia e dos amuletos, substituí-las por indicações falsas, e escapar incólume, tinha menosprezado a relojeira.

Sentiu-se inundar por uma zanga repentina para com o Visconde. Fora dele a ideia de usarem a relojeira como esconderijo e mula de carga. Fora ele quem decidira não avisar Felismina e quem partira do princípio que ela poderia ser enganada.

E fora ele quem considerara seguro o suficiente reenviar Helena a Felismina para um assunto que em nada tinha a ver com aquela papelada.

– Suponho que ele deveria aparecer aqui, assim que notasse que o relógio não tem nada mais a esconder que um cuco.

– Felismina…

– Mina.

Zangada ou não, continua a não morrer de amores pelo nome civil.

– Mina, foi um erro da nossa parte – admitiu Helena, decidindo que recuar e reconhecer a falha era a melhor estratégia. – Mas o que está em causa é maior do que isto, do que nós. Aqueles amuletos podem tornar-se a nossa desgraça. Podiam, aliás. Qualquer coven, qualquer submersa, ficaria em risco de ser descoberto. Seria uma caça às bruxas como nunca foi vista, e pior, uma que realmente nos apanharia, não a mulheres humanas de quem as vizinhas não gostam!

Mina fixou-a em silêncio, o lábio inferior desaparecendo-lhe dentro da boca, tal a força com que o mordia. A tensão parecia materializar-se no ambiente do quarto. A indignação por se saber usada – que mantivera sob controlo desde que Helena lhe voltara a entrar na loja por puro sentido de dever – começava a esmorecer perante os argumentos da outra. Os pensamentos fugiam-lhe para os feitiços de ocultação que mantinha pela loja. Quanto tempo demorariam, de facto, a avançar daqueles amuletos fracos até algo que conseguisse detectar os resquícios dos encantamentos que praticava na sua arte de cura? Quanto demorariam a compreender que os braços mecânicos, os olhos de roldanas, os dedos de cordas, tinham um pouco mais do que tecnologia no seu cerne?

Deixou-se cair na cadeira de balanço, os papéis pousados no seu colo. Não estava disposta a abdicar de tudo o que conseguira. O orgulho profissional sobrepunha-se à zanga de ter sido usada sem o seu consentimento.

– Isto – disse, abanando ligeiramente os papéis – precisa de ser destruído.

Helena anuiu.

– O Visconde tratará disso.

Mina estreitou os olhos, desconfiada.

– Muito trabalho para fazer chegar papelada ao Visconde, quando qualquer um os pode destruir.

A covinha acompanhou o sorriso zombeteiro. Helena largara o lençol, acomodando-se mais confortavelmente na cama.

– Ele gosta de tratar das coisas ele mesmo. É a sua garantia de que ficam resolvidas.

Mina não se considerava particularmente conhecedora da personalidade do Visconde. Aprendera, todavia, o suficiente sobre a sua figura para aceitar a explicação de Helena. Levantou-se, enrolando os papéis na mão.

– Vou fazer chá – declarou. – Procura descansar. A operação não foi fácil para o teu organismo, e o teu corpo ainda está sensível. Precisa de se habituar ao novo componente.

Helena assentiu, deitando-se contra as almofadas. Depois do confronto, o seu estado de saúde parecia-lhe um tema consideravelmente mais seguro e reconfortante do que antes.

Mina saiu, fechando a porta atrás de si. Não havia necessidade de a trancar, Helena não iria a lado nenhum nos próximos dias. Duvidava, na verdade, que tivesse sequer para onde ir, se, como a relojeira acreditava, ela tivesse estado sob a asa do Visconde. Entrou na cozinha num passo rápido, pousando os papéis sobre o balcão. Não demorou a pegar na chaleira, forrando-lhe o fundo com hortelã e enchendo-a de água, antes de a pousar sobre o forno a lenha. Fixou os olhos no jornal que saíra naquela manhã. Helena não parecia ter ainda a noção do tempo. A operação prolongara-se e a mistura que lhe dera cumpria os seus desígnios, fazendo-a dormir durante toda a noite, e parte desse dia. A jovem revolucionária não sabia ainda do revés que a esperava.

Não é problema meu, considerou Mina. Tudo o que tinha a fazer era vigiar a sua recuperação, e colocá-la fora de sua casa quando estivesse certa da adaptação do organismo ao relógio. E contudo… Não seria capaz de o fazer. O instinto instigava-a à protecção das suas. Os olhos avelã instigavam-lhe desejos que há tempos não reconhecia.

Pegou nos papéis, abrindo a porta pequena no forno de lenha, e atirou-os para as chamas, acomodando alguns para que não caíssem. Fechou a portinhola negra sem delongas, tentando fugir do calor excessivo que lhe abordara o rosto. Estava feito. Em poucos segundos não seriam mais do que cinzas.

Helena parecia confiar na eficiência do Visconde, pelo menos o suficiente para aceder a entregar-lhe a papelada, em vez de ser ela própria a tratar da sua destruição. Fora Helena quem os roubara, afinal de contas, seria apenas lógico que tentasse desfazê-los o mais rápido possível.

Em vez disso… Mina voltou a relancear os olhos pelo jornal. A imagem de capa, mostrando o Visconde, ocupava metade do espaço disponível. Sobre ela, o título estendia-se em letras garrafais: “VISCONDESSA D’ARREIOS LEVADA EM INTERROGATÓRIO POR ATENTADO CONTRA SUA MAJESTADE A RAINHA GRACIELA”. O corpo de notícia deleitava-se tanto no escândalo do suposto atentado quanto na vida pessoal do Visconde – que há nove se afirmara como homem e passara a fazer os possíveis para que fosse tratado como tal.

Os seus desejos haviam durado exactamente o mesmo tempo que o seu poder e influência. Mina estalou a língua, voltando a pousar o jornal. O Visconde cometera alguma falha que levara à sua descoberta. Teria de o esconder de Helena: o choque de saber a notícia através de palavreado daquele poderia ser problemático para o novo sistema cardíaco.

E, ainda com surpresa, Mina apercebeu-se que se importava. Não apenas com o Visconde e com a causa, mas também com Helena. Com um baque, apercebeu-se que a vida pacata ao som dos ponteiros em perfeita sintonia de dezenas de relógios iria sofrer uma reviravolta.

– Homessa!

poster

Anúncios