O jornal da manhã seguinte cobrira a notícia da explosão da Câmara, ainda sem nada que indiciasse ter sido outro o objectivo do atentado. Por altura da edição vespertina, no entanto, a fuga de informação já havia dado os seus frutos, e os ardinas berravam sobre o frágil estado de Sua Majestade a Rainha Graciela.

– Os idiotas continuam a achar que chegaram ao fim da boneca russa, da matrioshka – constatou Helena, recusando a oferta de açúcar na sua chávena de chá. Túlio, o colega responsável pela explosão, franziu-lhe o sobrolho, enquanto o Visconde d’Arreios dispensava a criadagem. Acomodavam-se os três no varandim do Visconde, em cadeiras de ferro branco amaciadas por almofadas da mesma cor, em torno de uma mesa provida de chá, pequenas sanduíches triangulares e pratinhos de biscoitos caseiros. O pôr-do-Sol atribuía uma tonalidade dourada ao relvado que se estendia em torno do palacete.

– Idiotice é falar demais – resmungou Túlio. O mau humor e as feições sulcadas conferiam-lhe todo o mau aspecto com que os jornais o descreviam. – Os serviçais têm ouvidos.

Helena acatou a crítica com um sorriso provocador, antes de continuar.

– Não podemos deixar passar muito mais tempo. Eles vão acabar por descobrir, se queremos manter a vantagem da surpresa…

– Minha querida – interrompeu o Visconde, estendendo-lhe um dos pratos de biscoitos. – A partir de agora é comigo. A menina já fez com a sua parte, sabe que agora corre o risco de ser reconhecida. Duvido que se ignore uma tentativa de regicídio, quer venham a descobrir ter sido falsa, quer não.

– Usava uma ilusão…

– Ainda assim. Não se esqueça do seu coração.

Helena crispou os lábios. Túlio descobriu um súbito interesse no horizonte.

– O meu coração não é para aqui chamado – sibilou a mulher. – Não interferiu em nada com o meu desempenho, não me tornou inútil.

O Visconde não se deixou demover, enfrentando a ira da companheira.

– Não há inutilidade em ter um problema de saúde e tê-lo em conta nas nossas acções – declarou, pegando no relógio de bolso e relanceando um olhar aos ponteiros. – E a verdade é que a partir de agora não há muito que possa fazer para andar com o que planeamos. Já pensou no que lhe sugeri?

A pergunta de preocupação, quando esperava pelo prolongamento de uma disputa que já tinham repetido vezes sem conta, desarmou-a.

– Não – admitiu. – Não tem havido muito tempo.

Túlio soltou um suspiro, prontamente ignorado pelos outros dois.

– Pois então pense – retrucou o Visconde, chamando de volta o serviçal, enquanto se levantava da mesa. – Vai passar a ter tempo. Agora se me desculpam, tenho um compromisso.

Nenhum respondeu à despedida, Helena disfarçando a agitação com um gole do chá frio, Túlio esperando que estivessem a sós para vozear a sua concordância.

– Ele tem razão, Helena. Já houve pequenos sustos. Se essa mulher te pode ajudar…

– Substituir um coração não é o mesmo que substituir um braço ou uma perna – cortou Helena, pousando repentinamente a chávena. Então é isso, tem medo, compreendeu Túlio. O cenho eternamente franzido suavizou-se.

– Não sou tua irmã, Helena, mas juntamo-nos numa causa e habituei-me a ti. Esta mulher é reputada, tem boa fama.

– Só o Visconde é que falou dela.

– Só precisas da palavra do Visconde para saber das suas credenciais. Um negócio destes não é para o conhecimento de qualquer um, nos dias que correm. Ter-te dado esta informação só demonstra o seu amor por ti.

Amor de irmã, considerou Helena. O Visconde poderia não pertencer mais ao seu coven, mas não esquecera a ligação que unia os seus membros. Talvez não devesse permitir que o seu receio atropelasse o reconhecimento desse amor. O Visconde não o fizera.

Recostou-se na cadeira, terminando a bebida enquanto observava a sucessão de cores que precedia a escuridão. Mal ouviu quando Túlio se ergueu, deixando-a sozinha nas suas deliberações. Não fez qualquer tenção de se mover quando a noite a procurou tragar, impedida apenas pela luz artificial que iluminava tenuemente o varandim, saída na porta envidraçada por trás de si. A decisão estava tomada, mas o peso da incerteza não a abandonara.

A campainha a chamar para a ceia sobressaltou-a. Deixara-se ficar ali aquele tempo todo?

– Não admira que esteja enregelada – murmurou entre dentes. Os serviçais deviam estar impacientes para poder arrumar tudo aquilo, apesar de não haver um único esgar que o demonstrasse. – Informe Sua Graça que não atenderei à refeição por motivos de indisposição, por favor – pediu, dirigindo-se ao servente mais próximo, enquanto se erguia com brusquidão. O caminho até aos aposentos que o Visconde lhe cedera foi feito em passadas largas e apressadas. Trancou a porta atrás de si, um hábito que impedia que fosse surpreendida por entradas inesperadas, e vasculhou o guarda-jóias onde guardara previamente o papel que o Visconde lhe fornecera.

Não demorou a encontrá-lo. Leu a morada quatro vezes, três para a decorar, uma por precaução, antes de atirar com o papel para as chamas da lareira. Não poderia permitir que a sua vida pessoal a levasse a esquecer o plano maior em que se encontrava. Se fossem descobertos – por muita confiança que tivesse que não seriam – não podia deixar que quaisquer descuidos denunciassem a morada de uma irmã.

Ainda para mais uma que reconhecera.

Não pode haver descuidos, repetiu, abrindo a carteira que usara no dia anterior. Retirou o cartão-de-visita da relojeira, observando-o com um misto de interesse e aprovação, antes de o atirar também para as labaredas. Os cantos enrolaram-se antes de cederem completamente às chamas, o papel azulando e, finalmente, reduzindo-se a cinzas. Se aquele era o risco que Felismina corria, não admirava que lhe desagradasse ser vista como uma submersa.

***

Mina ergueu o olhar do livro de contas para os relógios que a rodeavam. Faltavam cinco para as seis e o cliente do dia ainda não dava mostras de estar para chegar. Voltou a concentrar-se nas colunas de lucros e gastos. Em boa verdade, só aceitara aquela operação por lhe ter sido pedida pelo Visconde d’Arreios, conhecido de longa data, que nunca até então lhe falhara nos negócios ou na discrição. A explosão da Câmara, já há uma semana, tinha-a obrigado a suspender o negócio dos fundos: as rusgas não tinham sido inesperadas, tendo apenas começado a desaparecer dois dias antes. O foco agora parecia estar na restrição do acesso público à Câmara e aos edifícios do Palácio. O atentado a Sua Majestade havia-os deixado loucos em busca de um bode expiatório, e qualquer um que sobressaísse corria sérios riscos.

A sineta tocou no preciso momento em que os relógios bateram as seis. Mina ergueu novamente os olhos, os punhos cerrando-se.

– Pedi para não voltares aqui.

– Tenho uma marcação – respondeu prontamente Helena, a covinha formando-se com o sorriso. – Pelo Visconde d’Arreios. Devo trancar a porta?

Mina avaliou-a por uns segundos, o cenho franzido. Acenou afirmativamente, enquanto fechava o livro de contas e o arrumava.

– Vira também a tabuleta – avisou, desaparecendo pela cortina amarela. Helena obedeceu, seguindo-a a tempo de a ver erguer um alçapão oculto no quarto dos fundos.

Um feitiço de ilusão, compreendeu. Não admirava que não se tivesse apercebido de nada de anormal na última vez que ali estivera. Seguiu as indicações de Mina, descendo pelas escadas que o alçapão ocultava. Ouviu o som abafado da tampa a ser fechada atrás de si, e sentiu a presença da outra nos passos que a seguiram. Candeias iluminavam o caminho, que desembocou num compartimento circular, arejado por condutas ocultas nas paredes. Relógios espalhavam-se pelos cantos, tantos e tão variados quanto os expostos na frente da loja, com a única diferença de nem todos se encontrarem inteiros e em funções. Uma mesa de ferro provida de almofadas destacava-se no centro do local. Helena sentiu o suor humedecer-lhe o pescoço ao observá-la.

– Despe-te da cintura para cima e deita-te.

As indicações vieram firmes, mas com uma suavidade que Mina ainda não lhe tinha demonstrado. Helena voltou a obedecer, procurando disfarçar o tremor das mãos. Deitou-se, fechando os olhos e entrelaçando as mãos sobre a barriga.

– Tenta ficar assim – corrigiu Mina, os dedos frios afastando os de Helena e colocando-lhe os braços a ladear o torso. O receio evidente da outra actuara como um amenizar das suas próprias preocupações, despertando em si os instintos de protecção que nutria por cada um que se deitava na sua mesa, confiando-lhe as suas maleitas. Vinham a ela entregando-lhe a sua saúde, buscando por um último reduto ou, quiçá, o único que tinham disponível. Enquanto estavam naquela sala, eram para ela como crianças à sua guarda, e Helena não era excepção.

Pousou-lhe os dedos sobre a pele, procurando sentir o coração. Murmurava os encantamentos que lhe permitiam ver o que estava de errado, sentindo o conhecimento fluir do corpo de Helena para si. Estava mal. Demasiado mal. Não conseguiria salvar aquele coração. Suspirou, afastando-se em direcção a um dos baús.

– Toma – disse, estendendo um frasco azulado à bruxa deitada na sua maca. – Preciso que estejas inconsciente para isto.

Helena empalideceu, sentindo a garganta fechar-se-lhe à recepção de ar.

– Estou…?

– Não há peças suficientes que possa adicionar para salvar esse coração – explicou Mina. – Da maneira como está, pode parar de bater a qualquer momento. Não lhe dou mais que alguns dias. Tiveste muita sorte até agora. Vou ter de o substituir completamente.

Helena relanceou o olhar sobre os relógios. Não era uma troca inédita, nem eram poucos os estudos que comprovavam os bons resultados da operação. No entanto… No entanto, não deixava de ser um risco.

– Vou ter de ter cuidados?

– Toda a gente tem de ter cuidados – retorquiu Mina. – Mas se preferes…

– Não – cortou Helena, com uma inspiração profunda. – Não posso falhar agora.

Num trago abrupto, engoliu o líquido azulado.

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