Os relógios dominavam a loja. Não havia pedaço de parede que se encontrasse à vista, com excepção da cortina amarela por trás do balcão. Alguns pendiam do tecto; uma meia dúzia estava simplesmente pousada no chão. Os ponteiros moviam-se em uníssono, os segundos avançando em perfeita sintonia. Não havia um aparelho que mostrasse uma hora diferente da de outro, e a luminosidade do local deixava-o em evidência.

Tic-toc-tic-toc.

Não eram muitos os clientes que por ali passavam. Por vezes atendia uma senhora em busca de um presente para um cavalheiro, ou recebia um desesperado por um relógio de bolso que substituísse o que fora perdido – para não dizer roubado – nessa mesma manhã. A maioria dos clientes eventuais preferia os negócios por encomenda.

Todavia, não era a clientela da porta da frente quem lhe sustinha o negócio.

Mina estava a ter um dia calmo. Passara a manhã a trabalhar no concerto de um relógio de cuco, almoçara uma sandes nos jardins públicos a dez minutos da relojoaria, e regressara a tempo de discutir com o serviço de entregas a melhor maneira de transportar o relógio de corda que o Visconde d’Arreios encomendara. Franzia o cenho à bainha da saia, que acabara de descobrir descosida, quando o estrondo se fez ouvir. Ergueu os olhos surpreendida, ouvindo o chilrear alarmado que se seguiu, assim como os gritos e as solas em fuga. Não demorou para que o alarme se sobrepusesse a tudo o mais.

Não pode ter sido muito longe, ponderou. A curiosidade dirigia-a para a entrada da loja quando a porta se abriu num rompante, fazendo tocar a campainha. Uma mulher alta, envergando um fato de calça e casaco bege, e de caracóis negros apanhados num coque, irrompeu pelo local. Os olhos avelã fitaram-na em súplica, parecendo deslocados do rosto de feições duras. Respirava com dificuldades.

− A-atrás de mim… E-eles vêm… por favor…

Mina afastou-se, apontando para a cortina amarela. A mulher não hesitou, saltando por cima do balcão e escondendo-se nas traseiras da loja, onde os relógios em reparação eram mantidos. A relojoeira retornou ao seu posto, retirando a caixa duma das prateleiras que constituíam as traseiras do balcão, e sentando-se a refazer a bainha. A necessidade de atenção para que os pontos fossem precisos dispersava-lhe a irritação.

Tic-toc-tic-toc.

A campainha voltou a tocar, desta vez dando entrada a um par de guardas. Mina sentiu uma má-disposição imediata, os olhos vagueando sobre os amuletos anti-bruxaria que lhes pendiam do pescoço. Um complemento à farda azul e branca que havia sido recentemente ajustado com as Armações Bélicas Lopes & Cia, num acordo que os jornais da oposição clamavam ter sido feito mais por interesses pessoais que pelo bem comum.

− Posso ajudá-los? – perguntou, largando bruscamente a saia. Embora a opinião pública começasse a fazer menos alarido em relação a tornozelos à mostra, ainda não era algo que fosse encarado com total naturalidade. E nos seus esforços costurais, Mina tinha puxado a sua veste bem acima do joelho.

− As nossas desculpas, minha senhora. – A visão das suas pernas cobertas apenas pelo conjunto interior havia deixado os cavalheiros claramente embaraçados. – Procuramos por um bandido, responsável pela… Ouviu a explosão de há pouco?

Mina torceu o nariz.

− Teria sido impossível não a ouvir, causou um distúrbio insuportável nos meus relógios. Perdi tempo a ajeitá-los a todos novamente, e quando acabei apercebi-me que não estava em condições de sair à rua – explicou, apontando para a caixa de costura, aberta sobre o balcão. – Ainda não tive oportunidade de ir ver o que se passou – confessou, num suspiro lamuriento.

Não tardou a que o embaraço dos oficiais fosse substituído por um misto de condescendência e aborrecimento por assuntos que não lhes interessavam.

− Sim, uma coisa menor – cortou rapidamente o mais velho dos dois. – Procuramos o responsável. Um homem atarracado, de mau aspecto…

− Não vi ninguém que se assemelhasse.

− Julguei que assim fosse. Mas, por protocolo, teremos de revistar o local. Compreende, estamos a fazê-lo com todos os edifícios das redondezas.

A relojeira falseou os queixumes preocupados, contendo aqueles que verdadeiramente desejava expressar ao ver as mãos inábeis mexerem-lhe nos relógios. Que esperavam ao levantar os engenhos que se prendiam à parede? Uma passagem escondida? Que o próprio procurado lhes saltasse por entre roldanas?

O oficial mais novo – e mais desleixado – aproximou-se da cortina amarela.

− Espe…!

Viu-o afastar-se, as bochechas tingindo-se de rubro. O aviso de Mina não chegara a tempo, não o impedindo de ver fosse o que fosse que a mulher que albergara teatralizara para o afastar.

− Nada – conseguiu tossicar para o companheiro. – Tudo limpo.

− As nossas desculpas pelo incómodo – formalizaram, antes de abandonarem a relojoaria ao som do sino.

− Homessa – murmurou Mina, trancando a porta atrás deles e virando a tabuleta de “Fechado”. Não demorou a disparar em direcção aos fundos, compreendendo, assim que afastou a cortina, o que tinha atarantado o oficial.

A mulher encontrava-se de costas para si, o coque agora solto, libertando-lhe os cabelos costas abaixo. Olhava-a por cima do ombro, uma covinha acompanhando-lhe o sorriso. Estava escandalosamente nua.

Não admira que o homem tenha ficado maduro, considerou Mina.

− Não te posso manter aqui – alertou, enquanto a outra recuperava as roupas e as ia enfiando pelo corpo. – Nem quero.

A mulher assentiu.

− Obrigada, irmã. Já fizeste muito.

Mina enregelou ante o vocativo.

− Não sou tua irmã.

A gargalhada veio contida. Novamente de costas para ela, a mulher refazia o coque como podia.

− Uma submersa? Não perdes o cheiro. – Desistiu do cabelo, deixando algumas ripas fora do penteado. Os olhos avelã encararam-na, curiosos. – Não foi por isso que me ajudaste?

O aroma a lavanda intensificou-se. O cheiro de uma bruxa sentido por uma bruxa. A presunção da outra não fora correcta. Não era uma submersa, não rejeitara os seus poderes nem procurava ignorar aquilo que era. Mas para continuar a fazer o que desejava precisava de cortar com tudo o que a poderia denunciar. Viver entre os seus, numa sociedade que as ilegalizava e perseguia, era colocar-se na linha de fogo. Prescindir de um coven fora um dos sacrifícios com que tivera de arcar. Não iria reabrir aquela ferida.

Todavia, não pudera rejeitar ajuda a uma das suas.

− Foi – admitiu. – Mas não posso fazer mais que isso. Por favor, não voltes.

− A descrição que te deram não foi de mim, não tens a mínima curiosidade em…?

− Não.

A resposta saíra-lhe mais cortante do que pretendia. Mordeu o lábio inferior, recuando um passo. Tinha uma marcação para dali a uns minutos. Precisava que a outra se fosse embora antes que o cliente chegasse. Precisava que ela desaparecesse antes que os oficiais decidissem regressar. Precisava… Precisava de controlar o medo.

− Helena Barros – tentou novamente a outra, estendendo a mão na sua direcção. Mina abanou a cabeça, em negação.

− Por favor. Não posso fazer mais por ti.

O sorriso de Helena fraquejou-lhe por uns instantes. Passou a mão rejeitada pelo cabelo, empurrando alguns dos caracóis rebeldes para trás da orelha.

− Ah, bom. Obrigada – repetiu, fazendo a vontade da relojoeira. Ignorou a cortina amarela, optando pela porta dos fundos, ainda destrancada. O suspiro de alívio da sua salvadora foi audível ainda antes de o trinco ser fechado atrás de si.

A animação de Helena pelo que haviam conseguido fazer naquela tarde esmoreceu ligeiramente. Lutava tanto por si mesma como por bruxas como aquela. Sabia que as circunstâncias, o medo em especial, eram as principais responsáveis por aquela escolha em viver rejeitando a própria natureza. Contudo, não deixava de se sentir frustrada. Se fosse possível que todas elas se unissem…

Ergueu o braço, chamando um dos coches a vapor de aluguer que calcorreavam a cidade em busca de clientes. Havia-os de várias modelos, alguns com cavalos também a vapor, outros sem o que consideravam ser um ornamento desnecessário, e um até chegara a ser puxado por uma avestruz mecânica. A legislação a que estavam submetidos, no entanto, era ainda escassa, e as variações de perigo e segurança eram tantas quanto as variações de modelos.

Informou o condutor da morada pretendida, antes de se fechar no interior da carruagem. O cartão-de-visita que rapinara com discrição girava entre os seus dedos. Fora uma tentação a que cedera. Já antes encontrara submersas, optando por as deixar ficar na pacatez da sua decisão. E, contudo, em relação àquela… Talvez o seu interesse estivesse na rapidez com que a outra se predispusera a ajudá-la. Talvez fosse a expressão desagradada quando se lhe dirigira como “submersa”. Qualquer que fosse a razão, Helena não se atrevia a negar o seu interesse pela relojoeira. Todavia, raramente negava o seu interesse fosse pelo que fosse.

Virando o cartão, leu em voz baixa o nome que a outra se recusara a dar-lhe:

Felismina Andrade – Relojoeira

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