“Todo aquele que vem a mim e ouve as minhas palavras e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante.”

Lucas 6,  47

Ainda era noite cerrada quando Amir despertou. Doía-lhe o corpo, em especial as costas. Não era o modo mais confortável de dormir. Desceu com cuidado. As articulações estalavam a cada movimento. Tinha uma ligeira dor de cabeça. Era uma boa hora para ir procurar alimento. O luar abundante ajudava-o na tarefa.

Na clareira que encontrou à frente, consumiu as pétalas retraídas das flores de Verão. Algumas folhas eram comestíveis, mas o estômago pedia mais. A sua vista podia já não ser o que era, mas conseguiu distinguir uma árvore na orla. Os seus frutos arredondados, eram raros mas nutritivos. Aprendera isto ao longo da vida. Aproximou-se, constatando que nem precisava de subir para os conseguir colher. Comeu quantos quis.

Todavia, o homem não fora feito para morar na floresta. O seu habitat era a cidade. Como fora antes do cataclismo. Ultimamente já ninguém falava nele, só nas histórias que a maioria considerava mito. Haviam passado cento e dois anos e Amir não tinha esquecido. Às vezes encontrava restos das cidades antigas, cobertas de vegetação. Em algumas não sobrava muito, fruto da arma que a Humanidade jamais deverá construir de novo. Havia, no computador, planos para o fazer. Não os compreendera e, no fim, decidira apagá-los de vez. Acontecera no dia depois da morte de Vera.

Cada vez que a recordava era como se lhe arrancassem um pedaço do coração. Ela dera-lhe oito filhos, dos quais cinco ainda se contavam entre os vivos, só para um vómito terrível a levar. O único consolo que tinha é que ficara com ela até ao fim. Nestes momentos, recordar a cidade ajudava-o a desviar a mente do pior. Não era tão grande como as de outrora. Talvez os antigos não lhe chamassem sequer cidade. As casas eram de pedra, com telhados sólidos, e lá viviam quase trezentas pessoas. Todos os anos nasciam duas ou três dezenas de crianças. Os campos em redor eram férteis e a muralha já os protegera da ameaça três vezes. Um monte de pedras e um portão de madeira era tudo o que havia entre eles e a morte. Era o preço que haviam pago por se tornarem sedentários. Era o preço a pagar pela civilização.

O céu começou a clarear. Era hora de voltar a falar com eles. Desceu a encosta, aproximando-se da aldeia como se lá morasse. Sentiu as palmas das mãos suarem. Sabia que não era a vida dele que estava em jogo mas isso não o deixava relaxar. Chegou antes do nascer do Sol, enquanto despertavam. As mães dormiam com os filhos em seu redor. As crianças estava magras, mas pareciam saudáveis. Nestas condições, só os mais fortes sobrevivem.

— Filhos da floresta, ouçam a minha mensagem — clamou, com todo o seu ser. — O momento está perto. Ouçam a minha mensagem e viverão. Ignorem-na e serão tragados pela terra, vós e os vosso filhos. Um inimigo que não podeis vencer está a aproximar-se. Ouçam-me, o momento está perto. Partam comigo, deixem tudo para trás se querem viver.

As faces fitavam-no com surpresa, mas a excitação do dia anterior já não existia. Não era um bom sinal. Não percebia por que resultara tantas vezes e depois ficara mais e mais difícil. Preocupava-o saber que o mundo estava a mudar de maneiras que não compreendia.

— Quem é ele? — ouviu uma das mulher perguntar.

Até a ouvir, tivera dúvidas de que falassem a mesma língua. Não era comum, mas já lhe acontecera. Teria de insistir. Teria de os fazer ver.

— Se querem que os vossos filhos e filhas vivam, terão de vir comigo. O inimigo poderá chegar aqui a qualquer altura. Quem ficar irá morrer.

Os olhares ficaram desconfiados. Amir achou que era melhor deixá-los por agora. Devagar, voltou ao seu refúgio, parando sempre que encontrava algo comestível. Sentia-se cansado. Não podia ficar mais do que um ou dois dias. Se eles não viessem, teria de os abandonar ao seu destino certo e sangrento. Estremeceu ao pensar nisso. Apesar de tudo, eles não mereciam isso. Ninguém merecia isso. Não tinha palavras para descrever os horrores que havia presenciado. As poças de sangue. Humanos desmembrados, esventrados. Ossos. Carne.

Vagueou, até encontrar um curso de água onde matou a sede. Voltou ao seu posto e ficou a mirá-los. Havia um par de peles maiores a secar ao Sol. Era impressionante terem conseguido matar um animal tão grande com as suas armas primitivas. Talvez o tivessem encontrado morto. Os dois homens, os prováveis pais daquela prole, saíram com as suas lanças pouco depois. Será que sabiam que havia cada vez menos animais? O cataclismo também os havia dizimado. Havia alguns que já não via há mais de dez anos. Nem sequer sabia se já teriam morto o último. Por isso é que a agricultura era a única forma de subsistência. Tudo o resto estava condenado ao fracasso.

Olhou-os com ternura no olhar. Lembravam-lhe os seus filhos. De certo modo, se o seguissem, seriam seus filhos. Iriam renascer para uma vida melhor.

O calor aumentava, de modo que procurou a sombra de uma árvore. Mesmo ali, as gotículas de água formavam-se na sua testa. Sentia-se indolente. Acabou por adormecer.

O sonho levou-o à cidade. As muralhas tinham desaparecido. Eles vinham aí. Ordenou que se trancassem nas suas casas. As portas e as paredes eram maciças. Estavam assustados. Tentou confortá-los, para descobrir que nem sequer o ouviam. As crianças choravam e os adultos abraçavam-nas. Então, algo começou a embater contra a porta. O barulho era ensurdecedor. Não se conseguia mexer. Tentou dar ordens, descobrindo que ficara sem voz. Ninguém procurava a sua ajuda sequer, como haviam feito nos últimos vinte e tal anos. As pancadas aumentavam de intensidade. A madeira começou a rachar, como se de simples galhos se tratasse. A porta desabou num estrondo e eles entraram.

Acordou, sobressaltado. Estava banhado em suor. Apercebeu-se que tremia. Na sua cabeça sabia que era um sonho, mas parecia-lhe tão real. Tanto pelo que sabia, podia estar a ocorrer nesse exacto momento.

Fraco, mas determinado, levantou-se. Estava na hora de dizer à tribo aquilo que vira. Se isso não os convencesse, não saberia o que o poderia fazer.

parte2

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