Que raio estão a fazer crianças no exterior?! Irritado, Maurice pegou no walkie talkie.

– Gérard, Olivier, estou a ver o grupo – declarou. – Estão a vir em direcção ao meu portão.

– Raios! – protestou Olivier.

– Sabes as regras, Maurice. Não podemos abrir os portões – lembrou Gérard.

– Trazem duas crianças com eles…

– Merda! Mas que raio fazem duas crianças no exterior? – perguntou Olivier com indignação.

– Provavelmente são órfãos de alguma colónia que foi atacada – supôs Gérard. – Devem tê-los encontrado nas ruínas da cidade e trouxeram-nos.

Maurice achou que aquela era provavelmente a explicação mais razoável. Não era a primeira vez que órfãos eram trazidos pelos grupos para Nouvelle Paris, mas nunca depois da hora do recolher.

– O que é que faço? Estamos a falar de duas crianças…

– Ora bolas… – comentou Olivier.

– Regras são regras. Não podemos fazer nada por eles até ao nascer do Sol – declarou Gérard.

– Entendido – respondeu o jovem, pousando de novo o comunicador na mesa.

Aproximou-se do postigo e, com os binóculos, ficou a ver o grupo aproximar-se. Nunca se sentira tão impotente durante toda a sua vida. Porém, se não respeitasse as ordens superiores, iria arranjar problemas e colocar a segurança de toda a cidade em risco. O grupo estava cada vez mais próximo, iriam alcançar os portões dentro de alguns minutos.

Não, aquilo não estava certo. Não podia simplesmente deixar todo o grupo à mercê dos demónios, muito menos com duas crianças pequenas. Não queria o sangue deles nas suas mãos. Ele era o único que os podia salvar.

– Merda! – protestou, enquanto puxava a alavanca.

O mecanismo do portão começou a chiar e a porta a abrir. Estava feito.

– Maurice, o que julgas que estás a fazer? – questionou Gérard pelo comunicador. – Vais matar-nos a todos, seu idiota!

– Vais arranjar problemas. Não há nada que possas fazer. Fecha o portão – pediu Olivier.

Ignorou os colegas e, a correr, dirigiu-se para o elevador. Enquanto a pequena cabine descia a parede de betão, verificou a arma. Estava carregada e pronta a ser usada.

Quando o elevador parou, saltou para o exterior e correu em direcção ao portão. Passou pela porta de aço erguida no ar e avançou para o exterior. Não havia sinais do grupo naquela escuridão. Durante alguns momentos concentrou a sua atenção nos sons. Não se ouviam gritos animalescos de demónios, o que queria dizer que não devia andar nenhum grupo por perto.

Sem pensar duas vezes, retirou um foguete sinalizador do cinto e acendeu-o, indicando a posição do portão.

Não tardou para que o grupo estivesse apenas a alguns metros dele.

– Rápido, para o interior! Corram!

O primeiro membro passou por ele no preciso momento em que um grito animalesco quebrou o silêncio da noite. Naquele momento, sentiu o sangue a gelar. De arma pronta a disparar, fez sinal aos restantes membros para que entrassem, incentivando-os com gritos de urgência.

– Vamos depressa! Mexam-se!

Uma sombra desceu do céu e agarrou um dos homens, fazendo-o desaparecer na escuridão. Os gritos de dor e o som de ossos a estalar fundiram-se numa mistura aterradora.

No pânico, o grupo correu desenfreadamente para o interior do Muro. Foi quando Maurice julgava que tinha conseguido que o viu: o miúdo mais novo tinha caído e ficado para trás.

Lançou-se numa corrida de uns bons vinte metros para lá do portão. Ao alcançar a criança, pegou-lhe ao colo e correu a toda a velocidade em direcção à parede de betão. Estava quase a atingir o portão quando algo o atingiu pelas costas e o fez cair. Rebolou no chão até ficar de frente para o atacante. Instintivamente abriu fogo. Não sabia quantos disparos fizera, mas foram os suficientes para afastar a criatura.

Entretanto, a criança que transportava tinha-se já levantado por ela própria e corrido para o interior do Muro. Faltava apenas ele. Pôs-se de pé e iniciou a derradeira corrida. Estava quase a alcançar o portão quando este começou a descer rapidamente. Alguém, muito provavelmente outro guarda da cidade, fechara o portão.

Sentiu que os pulmões lhe iam sair pela boca e que os músculos das pernas iam explodir com o esforço. Estava já apenas a um metro e o portão estava quase selado. Atrás de si, sentiu os demónios a aproximarem-se em vôo de rapina. Atirou-se ao chão e deslizou na terra batida. Ouviu-se um estrondo e o portão fechou.

A dor que sentiu foi de tal forma intensa que julgou que ia enlouquecer. A última coisa que viu, antes de perder os sentidos foi o portão de aço caído em cima dos joelhos.

***

Quando acordou, sentiu que o quarto girava à sua volta. Fechou os olhos e esperou que as tonturas passassem. Quando por fim conseguiu abrir os olhos, deu por si num quarto branco, despido de qualquer mobiliário a não ser a cama onde se encontrava e uma pequena mesa-de-cabeceira.

– Vejo que já acordou – declarou um homem de barbas, aos pés da cama.

– Onde é que estou?

– No hospital – respondeu o sujeito. – Eu sou o doutor Jacques. Teve muita sorte com tudo o que aconteceu.

– O que é que aconteceu? – perguntou Maurice, ainda confuso.

– É natural que ainda esteja um pouco zonzo da anestesia. Tentámos fazer todos os possíveis para o ajudar, mas era demasiado peso. Não havia nada que pudéssemos fazer…

– Demasiado peso? Do que é que…

Naquele momento, Maurice recordou-se do portão de aço a cair-lhe em cima das pernas.

Num gesto rápido, afastou os lençóis. O que viu encheu-lhe os olhos de lágrimas: no lugar das pernas não havia nada, apenas dois cotos um pouco acima do joelho.

– Lamento, a nossa única opção foi a amputação. As suas pernas estavam desfeitas – explicou o médico.

Dito isto, o homem retirou-se, deixando Maurice sozinho.

Deitado na cama do hospital, deixou que as lágrimas lhe escorressem pelo rosto enquanto amaldiçoava o momento em que subira aquele portão.

O Muro 3

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