Maurice caminhava de um lado para o outro no pequeno bunker. Um dos grupos ainda não tinha regressado e faltavam apenas dez minutos para o recolher. Apesar de estarem normalmente fechadas e vigiadas, as entradas da cidade eram abertas sempre que algum grupo queria entrar ou sair, excepto na hora do recolher. Era demasiado arriscado abrir os portões quando o Sol de punha: se os demónios conseguissem entrar, não havia fuga possível.

Enervado, pegou novamente no walkie-talkie.

– Gérard, consegues avistá-los?

– Não, não há sinal deles por estes lados.

– Olivier?

– O mesmo por aqui. Detesto ter que o fazer, mas vamos ter que trancar os portões para o recolher.

– Ainda faltam alguns minutos. Vamos dar-lhes mais algum tempo – respondeu Maurice, pousado o walkie-talkie novamente na mesa.

Mas que raio andavam eles a fazer àquela hora?

Os minutos passavam e o Sol deixou escapar os últimos raios de luz no horizonte. O pequeno alarme em cima da mesa apitou. Estava na hora.

– Maurice – chamou Gérard pelo comunicador. – Temos de trancar as portas.

– Eu sei – respondeu.

Aquelas situações mexiam com ele. Lembrava-se sempre da sua primeira noite como vigia no Muro. Nesse dia, também um grupo tinha ficado retido no exterior. Chegaram aos portões da cidade quase dez minutos atrasados. Na altura, ele era um simples cadete em treino, e o seu superior optara por seguir as regras: o portão não foi aberto. Maurice ainda conseguia ouvir os gritos dos desgraçados quando os demónios se lançaram sobre eles. Duraram apenas alguns minutos, mas pareceram-lhe horas. No dia seguinte, quando abriram o portão, pouco mais restava do que uma massa castanha espalhada pelo chão e paredes, com alguns membros decepados aqui e ali. Nesse dia, jurara para si próprio que não voltaria a presenciar uma situação daquelas enquanto ele estivesse de vigia. E agora ali estava ele, prestes a repetir o mesmo que o seu mentor fizera anos antes.

Contrariado, Maurice dirigiu-se ao sistema de alavanca num dos cantos do bunker. Fez pressão sobre o pesado ferro ferrugento e puxou. Quando a alavanca mudou de posição, ouviu o mecanismo trancar a porta de aço de dois metros de espessura.

Estava feito. Não havia nada mais que pudesse fazer por aqueles desgraçados. Restava esperar que eles tivessem sido inteligentes e procurado refúgio para passar a noite, talvez escondidos no antigo sistema de esgoto de Paris.

Sentou-se na cadeira e ficou a contemplar a lua, que surgia agora por detrás das nuvens.

***

Passavam já duas horas após o início do recolher quando Maurice viu movimento no exterior. Inicialmente pensou que se tratassem de demónios, mas rapidamente colocou essa ideia de lado. As figuras moviam-se em grupo, procurando esconder-se por entre as sombras dos edifícios em ruínas e vegetação.

Pegou nos binóculos e aproximou-se da janela.

Os seus piores receios tomaram forma naquele preciso momento. Os cinco membros do grupo desaparecido corriam em direcção ao portão em que estava de vigia. Mas pior do que isso, só mesmo duas pequenas sombras que corriam entre eles, tentando acompanhar a passada do restante grupo: duas crianças.

O Muro 2

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