Eram quatro da tarde e já a escuridão se espalhava pelas ruas de Nouvelle Paris. Sentado à janela do quarto, numa pequena divisão de um antigo quartel de bombeiros, Maurice contemplava o Muro. Aquela gigantesca construção de betão armado, com mais de 180 metros de altura e 50 de espessura, rodeava toda a cidade. No topo, uma cobertura de grades metálicas e arame farpado era suportada por arcos de betão, que atravessavam a cidade de uma ponta à outra.

Uma gaiola gigante, pensou Maurice. Apesar de não gostar de viver enjaulado, o jovem francês sabia que a sua vida, tal como ela era, se devia ao Muro. Aquela monstruosidade começara a ser erguida passados alguns anos após o aparecimento dos demónios. Era a única coisa que impedia aquelas criaturas sanguinárias de exterminarem toda a população. Desde que tinam surgido, estimava-se que a população humana tivesse sido reduzia para menos de um terço. No meio de tanto caos e destruição, Nouvelle Paris tornara-se um farol de esperança para as pessoas. Um paraíso no qual podiam viver sem medo.

Não tardou até que a sombra do Muro se espalhasse por toda a cidade, envolvendo os poucos edifícios recuperados dos escombros no negrume. Maurice abandonou a janela e avançou pelo pequeno quarto que partilhava com mais quatro pessoas. Ele era membro da Guarda da cidade. A sua função era vigiar o Muro e o que houvesse para lá deste. Naquela semana calhara-lhe o turno da noite, normalmente a hora em que os demónios estavam mais activos.

Vestiu o casaco laranja, usado pela Guarda e saiu para as ruas. Avançou pela lama e pela terra batida até alcançar a praça onde se fazia o mercado. Apesar de o dia já estar perto do fim, o local continuava apinhado de gente. Uma situação que começava a ser um sério problema na cidade. Muitos procuravam refúgio em Nouvelle Paris, a sua população tinha quase que duplicado no último ano mas, dentro daquelas muralhas de betão, a cidade não tinha por onde crescer.

Ao verem-no aproximar, as pessoas que estavam na praça afastavam-se, abrindo passagem. Todos reconheciam o mérito aos guardas da cidade. Afinal, eram eles que mantinham aquela colónia gigantesca segura. Sem eles, a maioria das pessoas que ali viviam já estariam mortas.

Passados uns trinta minutos de caminhada, tinha finalmente chegado ao Muro. Apesar de trabalhar ali todos os dias, o gigante de betão nunca perdia a sua imponência. Maurice dirigiu-se para o rudimentar elevador de serviço e iniciou a subida para o topo.

O elevador parou num pequeno bunker situado no topo da estrutura. Tratava-se de um dos postos de vigia.

– Pensei que te tinha acontecido alguma coisa – declarou Philipe, companheiro de quarto de Maurice e também ele guarda da cidade. – Estás atrasado. Nem parece teu!

– Distraí-me com as horas. Novidades?

– Nada de especial, foi um dia calmo, não houve avistamento de hostis.

– Vamos fazer figas para que também não haja durante a noite – comentou Maurice. – Já regressaram os grupos todos?

Dado o tamanho da cidade, e a quantidade de gente que ela agora albergava, havia vários grupos responsáveis pela recolha de mantimentos e de outros bens que pudessem encontrar nas ruínas de Paris.

– Faltam regressar apenas dois. Devem estar aí não tarda, o recolher é daqui a meia hora.

– Esperemos que sim. Não gosto da ideia de ter de fechar os portões com gente lá fora – comentou Maurice.

– Regras são regras. Eles sabem que têm hora de recolher. Se os portões não forem selados a essa hora é quem está na cidade que corre o risco – lembrou Philipe, dando o walkie-talkie a Maurice. – O Gérard e o Olivier estão nos postos mais próximos. Mantem-te em contacto com eles caso os grupos cheguem por uma das outras portas.

– Não te preocupes. Tenho a situação sob controlo.

Dito isto, Philipe afastou-se e entrou no elevador, descendo os mais de 180 metros que separavam o topo do Muro do solo.

Maurice puxou a cadeira e sentou-se, pousando o walkie-talkie na pequena mesa de madeira que tinha à sua frente. Pela escotilha da janela, ficou a ver o pôr-do-sol por detrás das ruínas retorcidas da Torre Eiffel. A parte superior jazia agora no chão, o restante mantinha-se em pé, exibindo o ferro contorcido e derretido, lembrando tempos que Maurice nunca chegara a conhecer.

O Muro 1

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