Cá fora, estava tudo mais escuro e silencioso que o esperado, como eu disse. Ouvia-se principalmente gritos, mas também rugidos, aqui e ali motores de carros, pessoas a tentar fugir.

Curiosamente, havia luz forte da lua. Só que estava vermelha, o que causava um efeito adicional de estar numa câmara escura, sim, uma daquelas que se usava antigamente para revelar fotografias…

O quê?

Hahahaha… ai, desculpa, rapaz, são os nervos.

Pois, não sabes o que é “revelar” uma fotografia, devias estar tão habituado a máquinas digitais…

Bem, voltando atrás, a pouca luz ficava avermelhada, mas era complementada pela luz dos incêndios que começavam a alastrar. O suficiente para ver silhuetas com grandes asas a mergulharem e a apanharem pessoas, para depois as retalharem ou largarem de alturas elevadas, e também para ver alguns gigantes a esmagarem pessoas com tudo o que tinham à mão, carros incluídos.

Caramba, cheguei a ver uma família correr para o carro e depois de entrarem, estarem aflitos a tentar sair novamente, mas o carro parecia não deixar. Sim, as portas não abriram, e não consegui ver bem o que se passou, mas instantes depois o carro estava cheio de sangue, a transbordar.

Tudo isto só serviu para eu me apressar. Decidi avançar por entre os escombros que se iam juntando. Ia bem agarrado ao que tinha trazido e que passava por armas, tendo decidido que se calhar seriam mais úteis se precisasse de me defender de um humano do que de um demónio.

Vá, não olhem para mim dessa forma, vão dizer que desde essa noite em que o Inferno subiu à Terra nunca fizeram coisas de que não se orgulham?

Seja como for, não cheguei a usá-las, pelo menos nesse dia, e muito menos em pessoas.

Avancei o melhor que pude através da confusão, tentando rastejar por entre carros virados, entulho a arder, e todas as outras coisas que agora são o cenário habitual nas nossas cidades.

Não foi fácil, e sei que muitas vezes estive perto de chamar atenções indesejadas. Mas a verdade é que havia sempre gente mais barulhenta ou que dava nas vistas de uma maneira ou de outra, e que acabaram trucidados na minha vez.

Meu Deus, fecho os olhos e ainda vejo tudo…

Demónios voadores a baterem as asas coriáceas, a pairarem nos céus negros como aves de rapina; restos despedaçados de pessoas…

Não usei nem a faca nem o taco nessa noite, mas houve uma altura em que estive perto de o fazer.

Tropecei num sujeito que estava caído, fundido com a sua mota, e…

Sim, foi isso que eu disse, fundido – o corpo dele estava entrelaçado com o metal do veículo. Sem dúvida, olhando para trás, diria que foi obra de algum diabrete. Eles gostam de pregar partidas, e aparentemente, usar os seus poderes para transformar aquele sujeito daquela maneira – o motor a sair da barriga, espelhos retrovisores nas têmporas, pés e mãos a servir de suportes de eixos para as rodas – seria o conceito de diversão para aquelas criaturas.

Estive perto de espetar a faca nele para acabar com a sua miséria, mas nem isso foi preciso, ele morreu antes de eu ter tempo de reagir.

Após horas de fuga, finalmente cheguei ao meu prédio. Meti a chave na fechadura, só para ouvir um ruído que parecia alguém a mastigar metal. Olhei para baixo e vi a fechadura a mastigar a chave. Depois cuspiu-a e disse um palavrão. Não sei como, mas a porta acabou por abrir e eu lá entrei.

Vi sangue nas paredes do corredor, e na escada para o primeiro andar vi os corpos mutilados de um casal de vizinhos.

O meu coração parou, ou pelo menos pareceu-me que sim.

Os demónios já tinham entrado no meu prédio!

Subi as escadas dois degraus de cada vez até ao terceiro andar, esperançoso que o ataque ao edifício fosse aleatório e houvesse pessoas poupadas… e quando digo “pessoas”, digo a minha família. Confesso, mais ninguém me importava. Talvez eu ainda os encontrasse, assustados, claro, mas vivos e de boa saúde.

Podia então cumprir o meu dever de pai e marido e tentar defendê-los com as minhas patéticas armas.

Esperança inútil. Dirigi-me ao apartamento e a porta estava escancarada. Chamei por eles – nessa altura tinha mandado os cuidados às urtigas – mas ninguém respondeu. Sentia-me gelado por dentro. Peguei no meu telemóvel para usar a lanterna e procurei ignorar as ameaças de morte obscenas que apareciam no ecrã sempre que carregava lá.

Apenas confirmei o meu pior receio. Nem quero entrar em detalhes, basta dizer que nunca pensei que crianças de seis e quatro anos pudessem ter tanto sangue dentro delas… e que não percebi como era possível dobrar as articulações do corpo de uma mulher adulta daquela maneira sem a desmembrar…

Não sei quanto tempo estive aninhado no chão da sala a gritar e a chorar. Quanto mais o fazia mais a minha dor aumentava, parecia que com cada berro tentava deitar a minha alma cá para fora, só para parar de sofrer. O resto do mundo parecia ter desaparecido, só existia eu e o meu desespero.

Dito isto, não sei quanto tempo os demónios à porta do meu apartamento estiveram a olhar para mim, sem dúvida a divertirem-se e a alimentarem-se do meu sofrimento. Só me apercebi deles quando dois me agarraram e me arrastaram para o corredor. E uma vez lá, e vejam só se acreditam, estava o próprio Belfegor no comando daquele grupo. Percebi que ia ser o meu fim.

Já percebi pelos vossos cochichos que estão a apostar como é que eu consegui efectuar uma fuga mirabolante, estando no estado em que estava, destroçado emocionalmente.

Mas quem vos diz que fugi?

Vá, não olhem para mim assim. É inevitável, como foi a minha captura e conversão. Por favor, entendam, não é nada pessoal, nada contra vocês. Mas os demónios precisavam de gente, de humanos, que pudessem detectar e sinalizar os grupos de resistentes que se começavam a formar. Nada mais fácil do que pegar em alguém como eu… retirar o resto da alma e encher com algo negro. Fazer de mim um demónio em corpo de gente, com as memórias de alguém que fui, mas já não sou…

Juro, não tenho nada contra vocês, pelo contrário, foram o grupo mais interessante que encontrei nos últimos meses.

Mas agora os meus amos vêm buscar-vos. Se pararem de me insultar e de chorar, e tudo o resto que estão a fazer, talvez consigam ouvi-los a chegar…

NNEQOISAT - 3-3

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