Estava decidido, então. Na noite em que o Inferno subiu à Terra, eu ia aventurar-me pelos matadouros em que as ruas da cidade se tinham transformado para tentar encontrar a minha família.

Ilógico, diz-me a senhora? Mas com certeza! Suicida, mesmo.

Mas a verdade era uma e uma só – a partir do momento em que a primeira garra emergiu de um portal, a sobrevivência de cada um de nós deixou de ser um dado adquirido. Assim sendo, ia morrer, e se ia morrer, ao menos que escolhesse com quem.

Então, está a ver? No fundo isto até tinha uma lógica um bocado retorcida, ou não?

Bem, tomada a decisão, tentei preparar-me o melhor possível para a viagem. Precisava de uma arma, mesmo sabendo que o mais certo era ser inútil contra aquelas criaturas. Pois, era o efeito psicológico da coisa. Mas como a empresa para que trabalhava não nos permitia usar nenhuma, mesmo que fosse não letal, estava a imaginar que iria ter problemas.

E assim, passei de vigilante a ladrão, o que não deixava de ser engraçado – horas antes teria de deter alguém que tentasse fazer o mesmo que eu: arrombar e rapinar lojas.

Numa loja de artigos para casa encontrei facas. Peguei na maior que encontrei, uma faca de chef que me parecia capaz de cortar a cabeça a uma vaca. Não havendo nenhuma loja que vendesse armas de fogo ou algo que passasse por isso, servi-me, numa loja desportiva, de um conjunto de dardos e… não, não se riam.

Sim, dardos!

Que foi?

Pronto, está bem, olhando para trás parece um bocado ridículo, mas achava que talvez desse para furar um ou dois olhos aos nossos invasores. Mas deixem-me continuar. Peguei em vários dardos e num taco de basebol. Suponho que sendo de madeira, não ia durar muito, mas sentia-me ligeiramente mais seguro. Ainda pensei em pegar num capacete e num colete de motociclista, daqueles de motocross, que talvez servissem de armadura. Mas depois lembrei-me que tinha visto alguns daqueles estupores a rasgar metal só com as garras, por isso mais valia não estar a carregar-me muito. Se fosse atacado, ia ter de me tentar desviar e rezar. E nessa altura nem sabia se rezar adiantava.

E assim, todo equipado, lá me aventurei no exterior.

A primeira coisa de que me apercebi é que estava tudo demasiado silencioso. E escuro, também.

Até fazia sentido. O centro comercial ficava perto de uma zona de entretenimento nocturno, e habitualmente havia movimento toda a noite, mas as pessoas tendem a não ir para discotecas e bares dançar e tomar um copo quando a população está a ser dizimada, certo? Ok, está bem, alguns até vão, é verdade, há doidos para tudo.

Quanto à escuridão, acho que era efeito da presença demoníaca. Na altura ainda havia electricidade, mas parecia que as luzes ficavam mais fracas.

O quê?

Sim, a presença demoníaca! A mesma que faz objectos inanimados ficarem distorcidos, sangrarem, gritarem e mesmo atacarem-nos quando calha. Vi cada uma! Caras nas paredes a gemer, postes de iluminação a contorcerem-se como tentáculos e a enrolarem-se à volta das pessoas… Não consigo esquecer os gritos deles, o som dos ossos a quebrar… O mundo a ficar louco e… conspurcado apenas com a presença dos monstros que os portais cuspiram.

Não, não vale a pena discutirmos isso, minha senhora. Se não acredita, mesmo olhando à sua volta e vendo como o mundo ficou, está no seu pleno direito.

Sim, já ouvi essa teoria e todas as outras. Num grupo a que me juntei há uns tempos atrás tínhamos um universitário… um físico, creio eu, que defendia que os monstros não eram verdadeiros demónios, mas alguma forma de invasores doutra dimensão e que os “efeitos demoníacos” eram alucinações induzidas pelo terror, ou por projecção telepática, ou extra-sensacional… não, qual era o termo, caramba?

Diga?

Ah, sim, acho que era isso, extra-sensorial.

Pessoalmente, sempre achei isso pouco importante. Para mim não faz diferença se são mesmo os descendentes de Satanás ou se são uma espécie de extra-terrestres. Quando olho para nós, um grupo de tristes à volta de uma fogueira, a contar as nossas histórias miseráveis e a rezar para não sermos encontrados…

Na verdade, acho que só não nos encontram porque já nem se esforçam a procurar-nos…

Mas lá estou eu a tagarelar e a fugir ao assunto. A propósito de histórias miseráveis, não cheguei a dizer como foi o meu regresso a casa.

NNEQOISAT - 2-3

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