Onde estava eu na noite em que o Inferno subiu à Terra? Ora, ao contrário do resto dos presentes, estava a trabalhar. Eu era segurança, sabem? Estava a fazer o turno da noite. Pois é. Quando os portais se abriram, espalhados por todo o mundo, eu estava a fazer uma ronda às lojas num shopping.

Qual? Ora, acho que agora já não importa, pois não?

O facto é que nessa noite… sim, sim, eu sei, noutras partes do mundo era de dia. Mas cá era noite, e creio que é esta parte que nos interessa, ou não? Deixem-se lá de picuinhices ou não conto a minha história!

Como eu ia dizendo, enquanto o portal mais próximo se abria em frente à Câmara Municipal, eu estava a fazer uma ronda. Quando os primeiros demónios começaram a saltar cá para fora, ou a rastejar, ou a voar, ou o que quer que cada um deles fazia, eu andava de lanterna em riste, a confirmar preguiçosamente que ninguém se introduzia no centro comercial.

O quê? Ah, sim, concordo, chega a ter piada, a ironia…

Enquanto a horda de demónios se espalhava pelo nosso mundo como uma nódoa de vinho numa toalha, eu circulava por corredores vazios… Estava um silêncio que só era quebrado pelo zumbido ocasional de uma luz de emergência. Nem imaginava que ia ser a última vez que tinha sossego. Enquanto eu me aborrecia de morte, outros estavam mesmo a morrer, rasgados, cortados, dilacerados, devorados.

Quando as tropas de Bael estavam a encher as ruas da nossa cidade, consumindo a população como se fossem aperitivos, enquanto ocupavam as nossas ruas, avenidas e vielas, eu comia, sossegado, um lanche nocturno. Ainda o estou a ver: uma sandes de presunto e queijo, especialidade da minha mulher.

A minha mulher… Mal sabia eu que nunca mais iria saborear nenhuma refeição feita por ela, nem uma triste sandes.

Eu…

Não, desculpe, isto já passa, fico sempre com os olhos marejados de lágrimas quando penso nela.

Só quando voltei para a sala de vigilância e resolvi matar o tempo a ver um pouco de televisão é que comecei a tomar conhecimento da realidade. Os noticiários interromperam toda a programação… antes de as comunicações irem abaixo por completo.

A primeira notícia que apanhei mostrou como os bandos de demónios alados comandados por Astaroth estavam a rasgar ao meio esquadrilhas de aviões americanos.

Acho que eram F-22, mas sei lá.

Era suposto serem o topo de gama, e mesmo assim pareciam aviões de papel nas garras dos bichos. A mesma coisa com os tanques de guerra, os colossos das legiões de Abraxas pisavam-nos e esmagavam-nos como um miúdo calca e parte carrinhos de brincar de plástico.

E por todo o lado, meu Deus, os demónios mais pequenos a caçar os soldados que fugiam.

Que disse?

Ah, de facto, mas não foi só o senhor a achar isso. Muitas outras pessoas diziam que nessa noite Deus nos abandonou. Certamente esses soldados de que falava deviam estar incluídos nesse grupo. Não era fácil percebê-los nas notícias em directo, com o som horrível, e ainda por cima com o meu inglês enferrujado – só aprendi na escola, e nunca com notas brilhantes –, mas os gritos não enganavam ninguém.

O mais engraçado é que nos primeiros momentos pensei que estavam a dar um filme de terror, daqueles que passam – não, desculpem, passavam – na televisão a más horas. Mas depressa percebi que estavam a passar o mesmo em todos os canais…

Fiquei em pânico, e acho que só não me mijei porque tinha ido à casa de banho antes de ligar a TV.

Não sabia mesmo o que fazer. Por um lado, encontrava-me na falsa segurança do centro comercial. Escuro, pacato, fazia crer que nada errado se passava no exterior. Por outro lado, rapidamente me apercebi de que se o que estava a ver era mesmo verdade, nenhum edifício era mais seguro que o resto. Talvez me pudesse esconder, pelo menos durante algum tempo, pensei eu. Afinal, o local estava vazio, talvez passasse despercebido. Ou talvez não. E tinha um grande incentivo para sair dali.

Qual era? Ora, o mesmo que motivou tanta gente ao longo da história da raça humana a arriscar a pele: a minha família.

A minha mulher e os meus dois filhos, que deviam estar naquele momento a viver um terror como nunca tinham imaginado.

O meu lugar era com eles, e não escondido num buraco escuro.

NNEQOISAT - 1-3

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