Deveria ter havido um baque. Provavelmente houvera, mas ele não o notara e aparentemente nem se apercebera da anormalidade da situação. Sentira a ânsia de saltar para o interior da piscina de um modo que noutras circunstâncias não faria, e perseguira essa vontade. Por uns momentos, sentira o que julgara serem vergas de ar a envolvê-lo, chicoteando-lhe o corpo e a cara numa carícia quase que de amante – depois viera o frio. Não o frio gélido que arrepiava em desconforto, mas o beijo de frescura que levava a um agradável estado de conformidade. Nessa altura, soube que se encontrava dentro de água.

Juntou os braços, afastando-os em seguida, e bateu com os pés, misturando desajeitadamente os únicos dois métodos de natação que havia aprendido. Era agradável sentir as roupas a flutuarem à sua volta, tornando-se mais pesadas à medida que absorviam cada vez mais daquela água carregada de cloro. Nadou até à margem da piscina, apoiando-se na borda com um dos cotovelos, e ergueu o braço livre para os colegas, que o observavam da varanda do quarto andar, acenando-lhes com o máximo de vigor que o seu estado de torpor lhe permitia. Qualquer um repararia que alguma coisa não estava bem. Qualquer um notaria que os gritos agora ouvidos não eram idênticos aos berros de incentivo e euforia que antes se faziam ouvir. Qualquer um estranharia a agitação nervosa que se havia instalado entre os grupos de adolescentes ali em volta. Mas ele não. Ele não se pudera aperceber de nada, embrenhado demais no seu mundo calmo e fechado de quem perdera grande parte dos sentidos.

Voltou a baixar o braço, pressionando as pernas de encontro à parede e usando-as como um incentivo para se atirar de novo para o meio da piscina. Foi quando se apercebeu de que não estava mais sozinho. Ou talvez nunca o tivesse estado, não poderia dizer com certeza – tal assunto nunca lhe passara pela cabeça naquela noite.

– Olá – trauteou para a rapariga que o observava calada. Balançava ligeiramente os braços à volta do corpo para se manter à tona e os longos cabelos negros espalhavam-se em finos fios que flutuavam à sua volta. Se envergava alguma vestimenta, ele não reparara, mas ela poder-lhe-ia assegurar que aquele vestido fora o seu orgulho naquele Verão: simples, discreto e o melhor que se poderia levar para uma praia. – Saltei daquela varanda – informou, apontando erroneamente para uma das varandas do hotel. – Foi… wow… qualquer coisa de outro mundo!

Ela fixou-o, com os seus olhos vermelho-sangue. Podiam as pessoas ter olhos daquela cor? Eram tão bonitos.

– Eu sei – respondeu. Não sorria, mas ele não pareceu notar esse facto. – E gostaria tanto que não o tivesses feito.

Ele olhou-a, estupefacto. Pelo menos achou que era isso que estava a fazer.

– Que não o tivesse feito!? Mas foi altamente!

A rapariga soltou um longo suspiro, transmitindo um cansaço que não seria próprio à sua idade. Ficou a vê-lo aproximar-se de si, nadando daquela forma desajeitada que lhe vira segundos antes.

– Altamente perigoso – sussurrou ela, quando a face dele se encontrava imediatamente em frente à sua. – Não podes realmente acreditar que alguém consegue saltar daquela altura e sobreviver, podes?

– Eu consegui – retorquiu o rapaz, aproximando-se o suficiente para que os narizes se tocassem. Fechou os olhos, não se apercebendo do afastamento subtil da rapariga. – Eu saltei.

– André. – O nome tremeu no ar, realçando o tom de pena e doçura com que fora pronunciado. – Por que achas que conseguiste?

Voltou a abrir os olhos, mergulhando no vermelho que o fascinara. Queria agarrá-la, obrigá-la a parar de persistir naqueles espinhos aguçados que insistia em lhe atirar ao peito. Que raio queria ela? Não estavam ali para o mesmo? Não era aquela uma das muitas intenções daquela viagem?

Afastou-se com um movimento brusco, vendo sem notar a dor que se espelhara pelo encarnado dos olhos dela.

– Não estou aqui? – perguntou, cuspindo as palavras e a saliva na brusquidão do seu receio. – Que merda de conversa é esta? Foda-se, estás mais bêbada que eu!

– Eu não fico ébria, André – respondeu a rapariga, parecendo, pela primeira vez, aborrecida. Mas também isso não foi notado pelo rapaz, cego demais para a vida que o envolvia. – Eu não sou vocês.

André riu alto, não resistindo às gargalhadas que se haviam aglomerado como uma bola dentro da sua garganta.

– Claro que não, minha tolinha. Nem eu sou tu.

– Oriana.

– O quê?

– O meu nome é Oriana, não “tolinha”.

Ele não se lembraria do nome dela no dia seguinte. Ainda que um nevoeiro vago tivesse tomado conta da sua cabeça, tinha consciência disso. Não deveria a rapariga ter igual conhecimento?

– Oriana – repetiu, enrolando a sonoridade da palavra por entre os lábios. Não que o fizesse propositadamente ou que sequer se apercebesse disso. – Começo a ver-te como uma figura sólida, o que quer dizer que estou a caminhar outra vez para o sóbrio – declarou, nadando de costas até à margem. Para quem não o fazia bem de frente, tornava-se num nadador relativamente bom naquela versão. – Queres que te traga algo?

– Agradeço, mas não – recusou a rapariga. – Eu gosto de café, e aqui não encontras café. – Endireitou-se, ficando com a água a bater-lhe pelo pescoço. André não se apercebera de ela ter recuado o suficiente para chegar à parte em que teria pé, mas eram imensas as coisas em que naquelas últimas horas ele não reparara. – São teus amigos? – perguntou Oriana, indicando com o queixo um grupo de adolescentes que se aproximava meio aos trambolhões da borda da piscina.

– Sim, são eles – confirmou André, franzindo o sobrolho. Havia alguma coisa de errado, alguma coisa que desta vez até ele conseguia perceber. Não via sorrisos, nem a felicidade estúpida de quem é realizado apenas por existir. Não ouvia palermices, nem o desprendimento característico de quem não tem nada na cabeça para o preocupar. Em vez disso, via choros, lamúrias e imensa incredulidade. Observou-os a aproximarem-se da borda da piscina e chamou-os, acenando novamente com o braço.

– Não te ouvem – sussurrou Oriana, próxima ao seu ouvido direito. Ignorou-a, mergulhando nas águas negras e nadando com uma rapidez que desconhecia até ao local onde os amigos se aglomeravam, debruçados sobre a água, discutindo alguma coisa, apontando para um nada no interior da piscina…

– Ei! – gritou. – EI!

Sentiu-se idiota. Via-os à sua frente, eles estavam à sua frente. Snoopy, o melhor amigo, encontrava-se de joelhos, debruçando-se tanto que apenas por um milagre se mantinha a desafiar as leis do equilíbrio.

– Ei, Snoopy – chamou, tendo apenas como resposta um girar de cabeça na direcção oposta. Era como se o amigo estivesse demasiado ocupado à procura de alguma coisa para se dignar a dar-lhe importância. – Vá lá! Estou a milímetros da tua tromba! Se me aproximo mais fico capaz de te pregar um beijo nos cornos.

– Não te ouve – repetiu Oriana, surgindo novamente ao seu lado. – Nenhum deles te ouve. Não conseguem.

– Tretas – resmungou André. Começava a não apreciar particularmente a companhia da rapariga. Impotente, viu Snoopy levantar-se, abanando a cabeça em negação para os colegas que haviam formado um semicírculo em torno dele. O efeito foi imediato, gerando uma variedade de reacções nervosas que se resumiam aos mais medrosos sentimentos humanos. Alguns recusaram o que quer que fosse que Snoopy lhes havia dito e ajoelharam-se na beirada da piscina, imitando a pose de busca que o amigo havia assumido segundos antes.

– Queres tocar-lhes? – perguntou Oriana. – Podes fazê-lo, sabes? Se quiseres.

– E por que raio lhes haveria de tocar? – exclamou André. De todas as raparigas com as quais valeria a pena encontrar-se dentro daquela piscina, tinha de lhe ter calhado a sorte de uma que já havia perdido uma boa dose de parafusos?

– Por que “raio” ainda não te lembraste de sair da piscina?

– Porque… – Parou. Não conseguia encontrar uma resposta. Ou sabia? Sim, sabia. – Não os ouço… – murmurou. – Vejo-os, mas não os ouço…

– É claro que ouves – interrompeu Oriana, estalando a língua de encontro ao céu-da-boca. Parecia irritada com alguma coisa, como se estivesse com pressa em fazer algo e ele apenas a estivesse a empatar. Se era isso, não tinha dúvidas de que a rapariga se aproximava do limite da sua impaciência. – Por que não haverias de os ouvir? Já vi muitos como tu. Recusam-se a aceitar, prendem-se à ideia de que tudo está bem e que continuarão com a sua vida como o fizeram até aquele momento. E durante alguns segundos agarram-se com tanta força a essa convicção que ela se torna mais realidade aos seus olhos do que a veracidade da sua existência.

– Não percebo…

– Nunca resulta, André – declarou a rapariga, fixando-o com os olhos carregados de fúria e pena. – Nunca resulta.

Foi como se uma válvula tivesse estado à espera daquele instante para ser aberta. Até ao momento não se apercebera da quietude silenciosa em que havia estado a flutuar – um silêncio que perecera assim que aquelas palavras haviam sido ditas, dando lugar ao deslizamento brutal de fragmentos de sons que se trilhavam na corrida para se sobreporem uns aos outros.

– Foda-se, não pode! Não está a acontecer…

– Mas já alguém o viu? Onde está? Ainda ninguém…

– Merda, ai que merda!

– Deixem passar! Sou segurança do Hotel, deixem passar!

– Mas que porra andou ele a tomar? Do quarto andar!?

– Quem era? Alguém sabe quem era?

– André! André, caralho, onde estás!?

– Ai meu deus, ai meu deus…

– PÁRA! – André levou as palmas das mãos de encontro aos ouvidos, pressionando-as com toda a força que chamou a si. – Fá-los parar!

Sentia uma dor atroz a lançar-se dos ouvidos em direcção à cabeça e daí para o resto do corpo, espalhando-se qual praga indesejada. Era demasiado barulho, demasiada confusão… Gritos, berros, choros… Tudo se misturava numa amalgama em que as palavras perdiam a sua forma e os sons o seu significando, tornando-se nada mais do que um negrume que o engolia, magoando-o com o peso da sua existência.

Não aguentava mais. Como poderia algum ser humano conseguir aguentar tamanho sofrimento? Mergulhou, refugiando-se no único local onde poderia encontrar paz. Ali não existiam pessoas que o pudessem magoar com todo o seu inútil ruído. Relaxou, sentindo a carícia das águas a envolvê-lo. Poderia ficar ali para sempre; gostaria de o fazer…

Abriu os olhos ao sentir o pé a roçar em alguma coisa sólida. Não deveria estar ali mais ninguém para além de Oriana – que se mantivera na superfície – e dele próprio. Curvou-se sobre si mesmo, rodando num semicírculo de modo a encarar de frente a coisa em que tocara e por uns segundos permaneceu em branco. Nem sentimentos, nem pensamentos – nada. Nenhuma reacção que lhe pudesse ser atribuída. Em seguida, chorou. Uma lágrima perdida que se misturou em sintonia com o ambiente em seu redor. De facto, não estava ali mais ninguém.

Espetou o queixo antes de nadar novamente em direcção à superfície. O barulho permanecia na sua odiosa existência, mas de alguma forma acabara por se tornar suportável. Não demorou a encontrar o que procurava: Oriana permanecia a meio da piscina, no mesmo local e na mesma posição em que a vira pela primeira vez. Resignado, nadou até ela.

– Estou ali em baixo – declarou, desejando não estar a deixar transparecer os sentimentos de dor e receio que o dominavam. Já que morrera, queria que pelo menos o pouco que restava da sua esfrangalhada dignidade se mantivesse intacta. No fundo, sabia que não seria bem-sucedido: ela mesma o dissera, já vira muitos como ele. – Tinhas razão.

– Às vezes gostava de não a ter – retorquiu Oriana. Por mais estranho que parecesse, soava sincera. Isso, mais do que qualquer outra coisa que ela pudesse ter-lhe dito, fê-lo relaxar. – Valeu a pena?

– Fui estúpido – resmungou André. – Um idiota inconsequente. Mas acho que foi um preço alto demais a pagar.

A rapariga limitou-se a manter os orbes rúbeos sobre ele, mantendo-se silenciosa enquanto o deixava falar.

– Tão cedo por uma brincadeira destas… – murmurou, mais para si que para a única interlocutora capaz de o ouvir. Permaneceu alguns minutos emudecido, antes de endurecer as feições e se dirigir novamente a ela. – Acho que estou pronto para ir – declarou. Atrás de si, o reboliço aumentara com a chegada das entidades competentes. Em breve também o corpo seria removido daquele local. – És tu, certo? – perguntou, subitamente receoso. E se se havia engano no que respeitava à identidade de Oriana?

– Sim, André – sorriu a rapariga, agarrando-lhe com suavidade nas mãos e levando-o consigo para longe da piscina e de tudo o resto que ela agora significava. – Eu sou a Morte.

mergulho

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