Passou-se esta história que vos vou contar há muito, muito tempo, quando os pássaros não tinham ainda aprendido a cantar nem o vento sabia como soprar por entre montanhas. Nesse tempo não havia Sol nem Lua, e as estrelas, pequeninas luzinhas nocturnas, não sonhavam ainda em nascer. Era um tempo de negrume e escuridão, em que dia e noite não eram possíveis de se distinguir de tão abraçados se encontravam um no outro. Nesse tempo, as pessoas que já então habitavam a Terra não choravam ou se lamentavam, não porque não o quisessem ou não tivessem razões para tal, mas porque não tinham tempo de o fazer, tão ocupadas se encontravam em sobreviver – assim o tentavam – naquele negrume que era o mundo conhecido.

Mas o tempo não pára, somente avança, e as pessoas habituaram-se ao negrume, podendo nele perdurar sem ter já de dedicar a tal todos os seus esforços e atenções. Viram então os povos a escuridão em que viviam e começaram os lamentos, primeiro baixos, melodiosos, quais murmúrios de uma canção, depois aumentando, mais e mais e mais, até se tornarem numa sinfonia de sons angelicais, amargurados. E quis o vento, maravilhado com tão bela sinfonia, transportá-la por toda a terra.

“Mas como?” perguntou-se o vento. “Como o farei?”

“Sopra, sopra”, sussurraram-lhe as vozes. “Sopra para nós.”

E o vento soprou, bufou e bafejou. Soprou sempre, sempre! Soprou por entre montanhas e rasou o mar, soprou pelos filtros das florestas e por entre as casas das aldeias. E soprou mais ainda, e mais, e mais, pois já aprendera a soprar.

“Leva, leva”, troaram as vozes. “Leva o nosso lamento.”

Soprou o vento por todos os cantos e recantos, levando consigo nada mais que a sentida sinfonia entoada pelas vozes. Correu terra, correu mar, correu muito, muito, muito e chegou à mulher, àquela mulher que nada mais seria do que uma mãe entre tantas outras.

“Ouçam”, sussurrou a mulher, não querendo com a sua voz rouca sabotar a sinfonia. “Ouçam, minhas filhas, o lamento, este lamento que nos traz o vento.”

“Sim, mãe, ouvimos”, disseram as filhas em resposta. E ouviram, maravilhadas, durante dias e dias a fio as vozes entoadas que lhes trazia o vento no seu sopro. Cantaram mais e mais, as vozes, enquanto o vento as soprava, mais e mais, e mãe e filhas as ouviam mais e mais.

“Mãe, cantam agonia.”

“Pois cantam, minha filha.”

“O meu coração chora de as ouvir assim. Dar-lhes-ei alegria.”

Assustou-se a mãe com tais palavras e logo lhe disse que não, que não a deixasse, a ela e à irmã, sozinhas na terra. Que poderia ela fazer pelas vozes que choravam cantando? Mas a filha insistiu, ajudá-los-ia, alegrá-los-ia, e elevou-se aos céus, ainda negros, os olhos azuis guardando as lágrimas que lutavam por querer cair e os cabelos longos, prateados, envolvendo-a num abraço terno.

“Olha, mãe”, disse-lhe a filha mais nova. “Nasceu a Lua.”

Disse a mãe que sim num aceno parco, não conseguindo falar, não conseguindo lamentar. Pensou ela que agora, talvez, se calassem as vozes, ou ainda, quem sabe, entoassem hinos de alegria. Não lhes tinha dado a filha a sua luz para os satisfazer? Mas as vozes continuaram, cantando e entoando a sua sinfonia de agonia, dias e dias a fio, e mais, mais, cada vez mais.

“Mãe, cantam agonia”, disse a filha mais nova.

“Pois cantam, minha filha.”

E sentiu a mãe o coração fechar-se-lhe num aperto, sabendo já o que se seguiria e não o querendo.

“O meu coração chora de as ouvir assim. Dar-lhes-ei alegria.”

“Não, filha, não vás”, rogou-lhe a mãe. “Não me deixes sozinha na terra.”

Mas a filha insistiu que sim, que iria, que teria de ir, que a olharia lá de cima, lá do céu, que cuidaria e velaria por ela, que nunca, jamais, a abandonaria… E soube a mulher que não o poderia evitar, que sim, que teria de a deixar, que assim teria de ser. Viu então a mãe a filha a erguer-se aos céus, os cabelos vermelhos, tão vermelhos que chegavam a queimar, a ondularem num rasto de luz e as lágrimas que lhe escorriam dos olhos, azuis, também, como os da irmã, a acariciarem-lhe a face.

“Olha, vento”, disse a mãe para o único que a poderia ouvir. “Nasceu o Sol.”

E calaram as vozes o seu cântico porque acabara o negrume. Cantaram hinos vivos de alegria durante o dia porque o Sol nascera para elas e sinfonias delicadas de doçura durante a noite porque a Lua nascera para elas. E cantaram, mais e mais e mais, até que se abateu sobre elas o esquecimento, tornando-se o Sol e a Lua algo seguro que sempre lá estivera.

E assim foi durante anos e anos, esquecendo as pessoas cada vez mais do que havia sido o seu começo e o seu início. Não se podiam lembrar do negrume ou da escuridão. Não se podiam lembrar de que o vento não sabia soprar nem os pássaros voar, que as estrelas não haviam existido sempre e que o Sol e a Lua tinham sido o seu sacrifício, o sacrifício da mulher, da mãe, o sacrifício das filhas, cujo coração chorara ao ouvir agonia.

“Filho, meu rapaz”, chamou uma velha, muito velha e velhinha. “Não olhes para o Sol, meu filho, não olhes, não sabes que te queima?”

Ficou o rapaz, criança jovem desse mundo, incerto, indeciso de lhe responder. Mas falou e falou bem, baixinho e sussurrando, como quem conta um segredo.

“É que sabe avó, avozinha, o Sol tem rosto de mulher.”

“E a Lua?”

“Também.”

E riu a velha, velhinha, muito e muito e muito.

“Avó, avozinha!” censurou, aborrecido, o rapaz.

“Filho, filho, são minhas filhas”, respondeu-lhe a avozinha. E chorou, chorou muito, de alegria pela criança que havia percebido o valor das suas filhas.

Rosto de mulher

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