Amy acordou sobressaltada a meio da noite. Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Só então se lembrou de onde se encontrava. Continuava com os pulsos presos atrás das costas, amarrada à coluna de madeira. O corpo doía-lhe de estar tantas horas na mesma posição. Não tardou para que percebesse o que a fizera despertar: Shakesh estava atrás de si e desapertava as cordas que a prendiam.

– O que se passa?

– Vejo que já acordaste – comentou Finn. O caçador encontrava-se junto à porta. – Acho que vais ficar contente por saber que o teu antigo patrão chegou.

– O Roul?

– Esse mesmo. Quando soube que te tinha capturado, ele pediu para te levar. Não faço ideia do que quer contigo. Talvez queira fazer de ti o seu novo brinquedo…

Atrás de si, Shakesh removeu as últimas cordas e fê-la levantar-se.

– Vamos, nunca é boa ideia fazer um Roul esperar.

Finn foi na frente. O homem-lagarto seguiu-o, empurrando Amy pelas costas, obrigando-a a andar.

Ao chegar ao exterior, Amy percebeu que era noite cerrada. Apenas a luz que provinha do fogo de algumas tochas quebrava a escuridão da montanha. No centro da aldeia, em torno de uma grande fogueira, estava toda a tribo reunida: homens, mulheres e crianças.

Um pouco mais afastado da fogueira, estava um jacto negro. À sua frente encontrava-se o Roul, coberto pelo seu manto negro. Porém, o que chamou a atenção de Amy foi a sua escolta. Havia um total de seis homens que envergavam armaduras biónicas prateadas e capacetes com visor dourado: eram Soldados da Luz.

Amy conhecia os rumores, mas sempre pensara que se tratava de um mito urbano. A Ordem Roul e a Igreja eram inimigas de longa data, o conflito durava há séculos. Porém, um Roul escoltado por soldados da Igreja só podia querer dizer uma coisa: havia Rouls a trabalhar para a Igreja.

Mentalmente amaldiçoou o momento em que aceitara aquele trabalho. Rouls e Igreja metidos no assunto era um péssimo sinal.

Finn avançou em direcção ao Roul, parando a uns dois metros de distância.

– O artefacto – exigiu o Roul.

Finn abriu uma pequena caixa metálica e revelou o pequeno cubo.

Agora que o via ao vivo e a cores, Amy não tinha a menor dúvida, aquele cubo era um pedaço de tecnologia Inai.

– E o pagamento, como acordado? – questionou Finn.

– Não te preocupes com o teu pagamento, caçador de prémios. Irás recebê-lo – disto isto, fez sinal a um dos homens da sua escolta para receber a caixa com o artefacto. – Onde está a caçadora que contratei?

– Ali – respondeu Finn.

– Óptimo! – declarou, começado a encaminhar-se na direcção de Amy.

– Só um pormenor – interrompeu Finn. – Esta tribo Sakuki tem tido algumas dificuldades para transportar a caça. Em troca do cubo, eu prometi-lhes um pequeno veículo de transporte. De certeza que é um pequeno preço a pagar por algo que te é tão valioso…

O Roul interrompeu o caminho e virou-se para trás, enfrentado Finn cara-a-cara.

– Não devias prometer o que não está acordado.

– Foi a forma que encontrei de evitar um banho de sangue com os nativos. Esse cubo tem estado na sua tribo há várias gerações.

– Um banho de sangue… – murmurou o Roul, fazendo sinal ao soldado para que levasse o cubo para o interior da aeronave.

Sem aviso prévio, o Roul desviou a capa e revelou um pequeno bastão. Pegou-lhe e clicou num diminuto botão na lateral. O bastão alongou-se quase para o triplo do tamanho e revelou uma lâmina de cristal de cor roxa, formando uma alabarda. Com um movimento circular, o Roul girou a arma e perfurou o crânio do caçador de prémios com um único golpe. O corpo de Finn caiu ao chão, sem vida.

– Matem-nos a todos. Não quero sobreviventes – ordenou o Roul.

Num abrir e fechar de olhos, os Soldados da Luz abriram fogo contra os nativos. Todos eram um alvo a abater. Os homens-lagarto caiam sem vida ao chão enquanto o ar era preenchido com o cheiro da carne queimada pelos lasers.

Amy atirou-se ao chão para escapar aos disparos. Tinha de se abrigar e reaver as suas armas se queria sair dali com vida. De barriga virada para o chão, rastejou até à cabana mais próxima. Estava prestes a entrar quando alguém a agarrou, puxando-a para cima e para dentro, afastando-a da porta. Debateu-se até conseguir livrar-se do seu captor. Quando este finalmente a largou, viu que era Shakesh.

– Se queres sair daqui com vida, preciso das minhas armas.

O homem-lagarto soltou um rosnar e fez-lhe sinal para que o seguisse.

Avançaram a passo de corrida por um pequeno corredor que levava até uma cabana em anexo. No interior, estavam guardadas as armas que a tribo usava para caça e combate. Shakesh pegou numa lança e indicou um caixote de madeira a Amy.

Ao retirar a tampa, a jovem encontrou todo o seu equipamento: as duas pistolas, as duas braçadeiras mecânicas e a sua mochila jet-pack. Colocou a mochila às costas e as braçadeiras nos antebraços. Preparava-se para guardar as pistolas laser nos coldres quando olhou para o nativo armado com uma lança.

– Toma – disse, estendo-lhe uma das pistolas. – Vais precisar mais dela do que eu.

Shakesh aceitou a arma.

– Sabes usá-la, certo? Apontas com esse lado e disparas.

O Sakuki abanou a cabeça afirmativamente.

– Mantém-te perto. Temos de ser rápidos se queremos sair daqui com vida.

Amy avançou pela porta e saiu para o exterior. Tirando partido do efeito surpresa, abriu fogo contra um dos Soldados da Luz e atingiu-o em cheio no visor. O corpo do homem caiu inerte no chão.

– Mexe-te! – berrou para Shakesh.

Os restantes Soldados da Luz focaram de imediato o fogo contra Amy e o Sakuki, obrigando-os a procurar refúgio por detrás de uma pilha de madeira.

Espreitando por entre as abertas dos disparos, Amy fixou mentalmente a posição dos cinco soldados. Estava fora de questão abatê-los, eram demasiados. A sua única hipótese era criar uma diversão que lhe permitisse chegar à nave.

– Mantém os tipos ocupados – ordenou a Shakesh.

Dito isto, a caçadora activou os jactos da mochila e impulsionou-se no ar, saltando sobre os adversários. Aproveitou o voo e atingiu um dos soldados no ombro, enquanto o homem-lagarto continuava a disparar da sua trincheira improvisada.

Conseguiu o efeito desejado. Os soldados, apanhados de surpresa, dividiram-se entre ela e Shakesh, sem saber bem sobre em qual dos dois focar a atenção. Para espanto de Amy, o Sakuki soube aproveitar o momento e abateu mais um Soldado da Luz.

Amy não esperou que os adversários percebessem o que ela estava a tentar fazer e correu em direcção à nave. De um momento para o outro, sem perceber o motivo, os disparos sobre ela cessaram.

Estava quase a alcançar a rampa da aeronave quando foi puxada para trás por uma força invisível. A força foi de tal ordem que a fez cair de costas ao chão. Foi então que viu o que a puxara: colocado agora entre ela e a nave, estava o Roul com a sua alabarda de lâmina de cristal roxo.

– Tratem dos selvagens, eu ocupo-me da caçadora – ordenou, para de seguida retirar o manto negro que o cobria, revelando o rosto e uma armadura biónica de cor negra.

A jovem não sabia como descrever aquela face. A cara do Roul estava marcada por cicatrizes e parcialmente queimada, tornando impossível vislumbrar como teriam sido as suas feições antes de ter ficado deformada. Já pouco restava do nariz, a boca era torta e não possuía orelha do lado direito, apenas um buraco. O Roul era praticamente careca, apenas com uma fina e frágil camada de cabelo negro a cobrir-lhe parte da cabeça. Porém, eram os olhos cinzentos e raiados de sangue que mais assustavam Amy. O ódio e a sede de sangue estavam presentes no seu olhar: aquele homem estava decidido a matá-la.

Usou novamente os jactos da mochila e lançou-se no ar, disparando contra o Roul com a pistola.

Movendo-se a uma velocidade sobre-humana, o oponente ora se esquivava do disparo ora interceptava o mesmo com o cristal da lâmina, afastando-o. Girava a alabarda com uma rapidez e agilidade que Amy julgava não ser possível com uma arma daquele tamanho.

Sentiu mais uma vez que era puxada para o solo e em direcção ao Roul por uma força invisível. Tentou cravar os pés no chão, mas foi arrastada. Estava já à mercê da lâmina quando se conseguiu desviar. Com um corte limpo, a alabarda partiu a pistola laser em duas. Por pouco não lhe atingia a mão.

Amy aproveitou a proximidade e activou a braçadeira direita. Chamas alaranjadas voaram em direcção ao Roul, obrigando-o a desviar-se. Porém o efeito foi apenas momentâneo, pois assim que este saiu do alcance do fogo, avançou novamente contra ela, atingindo-a com a extremidade oposta à lâmina no estômago. Amy caiu de joelhos no chão e cuspiu sangue. Ela não estava à altura do Roul, no que raio é que estava a pensar?

O homem de negro ergueu a arma e preparou-se para desferir o golpe final. Contudo, antes que conseguisse lançar a lâmina de cristal sobre o pescoço da caçadora, foi atingido no peito por um disparo laser, que fez ricochete na armadura.

Um olhar rápido permitiu a Amy perceber que tinha sido Shakesh. De alguma forma, o homem-lagarto tinha conseguido livrar-se dos guardas e avançava agora na sua direcção. A caçadora não perdeu a oportunidade e activou a braçadeira esquerda. Vários discos saltaram do seu braço e colaram-se na armadura do Roul. Amy fechou a mão e activou tasers em voltagem máxima.

O Roul deixou cair a alabarda e caiu ao chão, contorcendo-se de dores enquanto tentava arrancar os tasers da armadura.

Sem pensar duas vezes, Amy accionou novamente o lança-chamas a atingiu o inimigo. Não esperou para ver e correu em direcção à nave.

Shakesh corria agora a seu lado. O homem-lagarto de dois metros entrou na aeronave ao mesmo tempo que ela.

– Agarra-te a algo – ordenou enquanto se sentava ao cockpit e fechava a rampa da nave.

No exterior, o Roul rebolava pelo chão enquanto extinguia as últimas chamas e tentava remover os tasers.

Amy nunca gostou tanto de ouvir o estrondo provocado pela ignição dos motores como naquele momento. Fez a nave erguer-se do chão e partiu a toda a velocidade, deixando o Roul e os Soldados da Luz para trás.

Shakesh avançou e foi-se sentar ao seu lado no cockpit.

– Parece que estou em dívida contigo – comentou.

O Sakuki rugiu em resposta.

Finn aprendera a entender o idioma dos homem-lagarto, de certeza que ela um dia também o iria conseguir fazer.

Foi então que reparou no pequeno cubo dourado pousado junto ao cockpit. Todo ele estava coberto por estranhos caracteres. Afinal, o que teria aquele cubo Inai de tão importante que justificasse o massacre de uma aldeia inteira?

A Caçadora de Prémios 3

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