Deitada de barriga contra o chão, escondida entre as rochas e os arbustos da montanha, Amy pegou nos seus binóculos e observou o acampamento da tribo Sakuki. Em redor das cabanas contruídas na base das árvores, os homem-lagarto moviam-se com calma, executando as tarefas do seu dia-a-dia, completamente inconscientes da sua presença.

Depois de rever toda a informação contida no cubo holográfico, Amy ponderou seriamente não aceitar o trabalho. A missão parecia ser demasiado simples, apenas tinha de conseguir deitar mãos a um pequeno cubo metálico que estava na posse daquela tribo. Apesar de não ser perita no assunto, a imagem da caixa deixara-lhe poucas dúvidas. Os caracteres e o metal trabalhado eram claramente Inai. Se havia coisa que a caçadora de vinte cinco anos tinha aprendido no seu ramo de trabalho, é que quando o trabalho metia Inai, o melhor era não aceitar. Porém, com a falta de clientes dos últimos tempos e com dívidas por saldar, Amy não tivera outra opção senão aceitar. O trabalho era extremamente bem pago e podia ser a solução para os seus problemas financeiros.

Durante a caminhada pelas montanhas, perguntou-se diversas vezes se Finn dissera a verdade. Era conhecido o interesse da Igreja em tudo o que fosse Inai, mas o que queria um Roul com essa tecnologia? Apesar de não haver um conflito aberto entre as duas entidades, a Igreja e a Ordem Roul eram fortes opositores.

Guardou os binóculos e levantou-se. Estava na hora de ir buscar o maldito cubo.

Pelo que tinha observado do acampamento, não iria ter grandes dificuldades. Como era habitual nos homens-lagarto, os machos da tribo tinham saído para caçar, deixando apenas mulheres e crianças na aldeia. Não seria complicado esgueirar-se por entre as árvores, apanhar a caixa e fugir com ela antes que alguém se apercebesse. Os Sakuki não lhe iriam dar o cubo sem nada em troca, e dado que o seu empregador não autorizara trocas, aquela era a sua melhor opção.

Apanhou a mochila do chão e preparou-se para percorrer o restante caminho.

Não soube dizer de onde apareceu aquele vulto gigante. Antes que tivesse tempo de fugir ou de se defender, foi atingida na parte detrás das pernas, fazendo-a cair ao chão de joelhos. De seguida, sem lhe dar tempo sequer de ver o seu oponente, foi agredida violentamente na têmpora.

Amy tombou no chão. Ficou com a visão turva para cair de seguida em completa escuridão.

***

A primeira coisa que sentiu ao despertar foi uma enorme dor de cabeça. Conforme ia ganhando consciência, apercebeu-se de que tinha o corpo dorido. Sentia os membros pesados e dormentes. Quando abriu os olhos, ainda meio zonza, deu por si no interior de uma cabana, muito provavelmente dos homem-lagarto. Tentou mexer-se, mas tinha sido amarrada pelos pulsos contra uma coluna de madeira. Tentou activar as armas de pulso para se libertar, porém alguém lhas tinha tirado.

Amy estudou o interior da cabana. A divisão onde se encontrava era ampla e circular. A coluna contra a qual estava amarrada encontrava-se bem no centro. Espalhados pela divisão estavam vários caixotes, alguns de madeira outros metálicos. Amy concluiu que o local era alguma espécie de armazém da tribo. Havia apenas uma porta na divisão, e esta estava coberta por cortinas.

Sem armas e sem conseguir alcançar alguma ferramenta que a pudesse libertar, Amy permaneceu sentada de costas contra a coluna e aguardou.

Não teve de esperar muito tempo. As cortinas da porta abanaram e um homem-lagarto entrou. Apesar de morfologicamente se parecer com um humano, todo o seu corpo estava coberto por escamas verde escuras, com padrões garridos de negro e vermelho no peito e nas costas. Os seus olhos eram de um amarelo vivo, as orelhas pontiagudas e, onde deveria estar um nariz, havia duas fendas. O nativo olhou-a com ar ameaçador. Era possível ver os caninos afiados a sobressaírem dos lábios. Avançou na sua direcção, movendo a cauda musculada de um lado para o outro. Vestia apenas umas calças num tecido negro com ar primitivo, deixando os pés com garras afiadas caminharem livremente pelo chão.

Ao aperceber-se de que Amy recupera os sentidos, o nativo emitiu uma série de rosnados e grunhidos sibilantes.

Apesar de não compreender uma única palavra do que dizia, a jovem caçadora percebeu de imediato que ele não estava muito contente com a sua presença.

– Eu adorava ficar aqui e conversar, mas é um pouco desconfortável com os pulsos presos por esta maldita corda – comentou.

Em resposta, o Sakuki voltou a soltar uma série de sons que Amy não conseguia compreender.

– Precisas de ajuda com a tradução? – questionou alguém em tom de gozo.

Amy desviou o olhar para a porta e viu Finn à entrada.

– O que raio estás tu aqui a fazer?

– Aparentemente o teu trabalho – respondeu. – Cheguei a um acordo com os nossos amigos homem-lagarto. Eles vão dar-me o artefacto. Acho que o Roul vai ficar bastante satisfeito.

– Seu filho da mãe! Ele é meu cliente! Este trabalho é meu!

Finn aproximou-se e ajoelhou-se à sua frente. O seu rosto estava apenas a alguns centímetros de distância.

– Um conselho, Amy, da próxima vez tenta ser um pouco mais cuidadosa. Ser apanhada a espiar a tribo que vais roubar nunca é boa ideia…

Em fúria, Amy cuspiu-lhe para cara.

Finn afastou-se e limpou a cara com a luva. De seguida virou-se para a jovem e esbofeteou-a.

– Nem imaginas como estou contente por estares preste a ser enforcada. Sabes que essa é a pena dos Sakuki para os ladrões, certo? Para a fedelha que és, causaste-me demasiadas dores de cabeça.

Dito isto, Finn virou as costas e saiu pela porta, deixando as cortinas a abanar.

O homem-lagarto manteve-se de pé a olhar para ela, com um ar curioso.

– Se vais ficar aí, ao menos podias trazer-me água. Estou com sede – protestou.

Amy não sabia se o Sakuki a tinha compreendido, mas este virou-lhe as costas e saiu da cabana.

Passados alguns minutos, o homem-lagarto voltou com uma pequena tijela de barro cheia de água. Baixou-se junto dela e levou-lhe o líquido aos lábios. Amy bebeu sofregamente.

– Obrigada.

O nativo soltou um grunhido em resposta e ficou a olhar para ela.

– Como te chamas? Eu sou a Amy.

O homem-lagarto lançou-lhe um olhar confuso.

– Amy – repetiu. – E tu?

Um sibilar rápido saiu dos lábios do indígena.

– Shakik?

Com um ar divertido, deixando escapar o que poderia ser riso, o homem-lagarto abanou a cabeça negativamente e repetiu o seu nome.

– Shakesh?

O sorriso no rosto do nativo foi a reposta que Amy precisava.

– Obrigada, Shakesh – declarou.

O homem-lagarto assentiu com a cabeça, pegou na tigela de barro e saiu.

A Caçadora de Prémios 2

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