A chuva caía com tal intensidade que se tornava quase impossível ver mais do que dois palmos à frente. Com a capa completamente ensopada, Amy avançava por entre a luz fraca dos candeeiros. Com aquela tempestade, demorou quase o triplo do tempo até chegar à porta do bar, escondida num beco sem saída.

Aproximou-se da porta de metal e bateu. Não tardou para que uma pequena escotilha se abrisse e revelasse uns olhos amarelos.

– Palavra-chave?

– O Supremo Sacerdote tem pulgas – declarou.

A escotilha fechou-se e a porta abriu-se.

Amy entrou e despiu a capa, revelando os lisos cabelos ruivos. Foi de imediato atingida pelo ar quente do interior do bar.

– Está uma noite complicada – declarou o homem de olhos amarelos.

– A quem o dizes, Tazz – respondeu.

Não fosse pela peculiar cor de olhos, fruto de uma alteração genética, Tazz pareceria um humano como qualquer outro. Não era muito alto, e o cabelo, tal como a barba na pêra, eram negros. O empregado do bar envergava uma túnica simples, com nódoas de uma bebida qualquer que se entornara.

– É sempre bom ver-te por aqui, Amy.

– Obrigada, Tazz. Nada como uma bebida para me fazer esquecer este maldito temporal.

– O habitual?

– Vês como me conheces bem?

Com um sorriso no rosto, Tazz afastou-se em direcção ao balcão, e Amy encaminhou-se para uma mesa vazia num dos cantos do espaço.

As luzes néon vermelhas que iluminavam o bar faziam Amy lembrar-se do Sol e do Verão. Como ela desejava que aquela maldita chuva parasse…

Pelo canto do olho, viu um homem envolto num manto negro, com o rosto coberto pelo capuz, aproximar-se. Sem lhe dirigir palavra, puxou a cadeira e sentou-se à sua frente na mesa.

– Tenho um trabalho para ti, caçadora – declarou numa voz rouca.

– O quê? Agora nem há apresentações? – questionou Amy, recostando-se de encontro à cadeira. Aquele homem era o motivo pelo qual ali estava naquela noite.

– Não vamos usar nomes.

– E o que é suposto eu chamar-te?

– A tua missão é simples – declarou, ignorando por completo a pergunta. – Uma tribo Sakuki das montanhas tem em sua posse um artefacto que me é muito preciso. Eu quero-o.

Amy conhecia bem os Sakuki. Eram uma raça tímida e que raramente se intrometia nos assuntos dos humanos. Os homens-lagarto, como por vezes eram chamados, eram exímios caçadores e uma gente pacífica.

– Os Sakuki não são propriamente perigosos. Por que não pedir o artefacto pessoalmente? Porque precisas de mim?

Sem responder, o homem meteu a mão na capa e retirou do interior um pequeno cubo holográfico.

– Tens toda a informação que precisas aí. O pagamento será feito para a tua conta quando entregares o artefacto conforme as instruções.

Dito isto, o homem levantou-se e saiu do bar, deixando Amy com ar confuso a olhar para ele. A aura pesada e o rosto sempre coberto do individuo davam-lhe arrepios.

Sentiu-se observada e olhou para o lado. A algumas mesas de distância, um mulato de cabeça rapada e tatuada, com óculos de protecção metalizados, olhava para ela.

– Que raio queres, Finn?

O homem levantou-se e aproximou-se com um sorriso matreiro nos lábios. Ao passar junto a Amy, acariciou-lhe ao de leve nos cabelos. Sentou-se de seguida à sua frente.

Ao olhá-lo de frente, os óculos de Finn reflectiram os olhos verdes da jovem.

– Novo cliente? – perguntou na sua habitual voz grave.

– Isso não te diz respeito. E mesmo que fosse, é meu cliente, não teu.

– Só estava curioso em saber o que um Roul queria de ti…

– Um Roul?

– Oh, não me digas que não percebeste… – troçou Finn. – Sabes, Amy, por algum motivo eu sou o melhor caçador destas bandas e tua a segunda, ou talvez terceira…

– Vai sonhando, meu caro…

Sem esperar pela resposta, Amy levantou-se e dirigiu-se para a porta.

– Já te vais embora? – perguntou Tazz ao cruzar-se com ela. – Tenho aqui a tua bebida.

– Fica para a próxima, Tazz. Tens de ver se melhoras a qualidade da tua clientela – declarou, suficientemente alto para que Finn a ouvisse. Este lançou-lhe um sorriso arrogante.

Encaminhou-se para a porta e saiu do bar.

Se o idiota do Finn tinha razão, talvez não fosse má ideia pensar duas vezes antes de aceitar o trabalho. A última coisa que queria era problemas com os Roul.

A Caçadora de Prémios 1

Anúncios