A superfície do lago mudou ligeiramente. Para além do cais de madeira e do barco que lhe estava amarrado, pequenas luzes, semelhantes a pirilampos, pareciam surgir do seu fundo. O efeito durou apenas um momento, de modo que Alice não teve sequer a certeza que realmente acontecera.

Sentada no banco à beira da água, recordou-se do que Eunice lhe dissera numa tarde igualmente fria.

― Queres que te conte um segredo? ― sussurrou a amiga, embrulhando-se mais no casaco.

― Sim, conta.

― Sabias que o lago é mágico?

― Não acredito nisso! ― protestou Alice.

― Já suspeitava que dissesses isso. Eu sei que não é fácil acreditar numa coisa dessas, se não tivesse visto, também não acreditaria.

― Mas o que é que tu viste?

― Luzes, mas não eram luzes quaisquer. Eram lindas, apetecia-me ficar a vê-las durante horas a fio, mas só duraram um momento.

Olhara a amiga sem lhe responder. Ela estive estranha nos últimos dias e não achou por bem contrariá-la. As duas encararam aquela massa de água, mas esta permanecia igual ao que fora durante as longas tardes em que haviam conversado naquele banco de madeira.

No presente, Alice voltou a fixar o lago, esperando que o efeito se repetisse. Esperou em vão e acabou por se fartar. Para afastar os pensamentos negativos, tentou apreciar a maravilhosa vista.

― Querida, o jantar está pronto ― ouviu o seu marido chamar.

Olhou para a entrada da casa e assentiu com a cabeça. Ao caminhar de volta, uma rajada de vento obrigou-a a enrolar-se ainda mais no seu velho casaco de lã cinzenta que a acompanhara nos dias mais negros. Em passo lento, percorreu o caminho que separava o miradouro das traseiras.

De súbito, sentia-se diferente, uma estranha alegria havia-se apoderado dela. Sem hesitar, atirou-se aos braços de Igor e beijou-o, como fazia quando tinha dezasseis anos. Ele ficou surpreendido.

― Pareces estar melhor ― elogiou-a com um sorriso ― Vem, fiz o teu prato favorito.

A grande janela da sala de jantar estava virada para o banco onde Alice se costumava sentar. Os tons avermelhados do pôr-do-sol reflectiam-se na ampla divisão e transmitiram-lhe uma sensação de aconchego.

Sentaram-se na pequena mesa ao centro, de frente um para o outro. Apesar de a refeição ter ocorrido em silêncio, achou que fora o melhor que comera nos últimos meses.

― Hoje estou muito feliz ― anunciou, olhando o marido. ― E a comida estava maravilhosa!

― Isso são muito boas notícias, espero que melhores rapidamente.

― Eu sinto-me melhor. Sabes, às vezes sinto-me sozinha, tenho saudades da Eunice… ― interrompeu-se de olhar fixo no vazio.

― Oh querida, não penses nela agora…

― Desculpa, não consigo evitar. Nós costumávamos sentar-nos e falar durante horas a fio ― relembrou Alice, à beira de um ataque de choro.

― Oh docinho, acalma-te! ― implorou Igor, abraçando-a com força.

O abraço trouxe-lhe uma sensação de aconchego. Desejou que ele a abraçasse mais vezes, como fazia há dez anos.

― Não achas que o lago é muito bonito? ― perguntou-lhe com um ar sonhador.

― Claro que é muito bonito, por isso é que estamos aqui ― devolveu-lhe ele com um tom de voz ligeiramente enfadado.

Alice não acrescentou mais nada, percebera que não podia partilhar o segredo de Eunice com ele. A barreira de comunicação estragou-lhe a felicidade daquele fim-de-tarde.

― Não te esqueças dos comprimidos! ― relembrou-lhe Igor, assim que ela se levantou da mesa.

Ela lançou-lhe um olhar arreliado. Detestava que ele estivesse sempre a relembrá-la dos malditos medicamentos. Contrariada, aproximou-se das caixas e escolheu a dose da noite. Observou as cinco cápsulas coloridas na palma da mão. Sem pensar, atirou o de dormir para o lixo. As noites sem sonhos eram a pior parte do tratamento. Engoliu os restantes e foi-se sentar no sofá, aguardando por Igor. Ele demorou um bocado, pois estava na cozinha a lavar a loiça.

Quando olhou para o lago, voltou a vê-las. Apesar de o sol já se ter posto, as estranhas luzes reflectiam-se na superfície. Eram tão grandes e brilhantes que pareciam vir do próprio lago. Pareciam dançar umas com as outras num padrão tão harmonioso como desconhecido. Alice achou que era a visão mais bela que alguma vez tivera. Não tinha dúvidas de que Eunice estivera certa o tempo todo.

― Alice ― ouviu alguém chamá-la.

― Igor, chamaste-me? ― perguntou, olhando em volta, confusa.

― Não, o que é que se passou? ― ouviu responder, a partir da cozinha.

― Nada. Não se passou nada, não te preocupes!

Voltou a olhar para o lago, mas as luzes haviam desaparecido. Quando ele voltou, foram directamente para o quarto. Mudou-se para a sua camisa de dormir branca e enfiou-se no meio dos lençóis frios. Pouco depois, ele juntou-se a ela. Falaram um pouco sobre o dia, pois o doutor havia-lhes recomendado que o fizessem com frequência. Geralmente funcionava, já que se sentia melhor. Naquela noite, pareceu ter o efeito contrário. Ardia por contar a Igor sobre o lago. Como não o podia fazer, toda a conversa se tornava mais um fardo do que um alívio.

Em breve, ele dormia e Alice ficou satisfeita com a opção de não tomar o sedativo. Pensou que poderia dormir mais tarde, afinal já não trabalhava naquela maldita companhia. Ela só queria poder voltar a sonhar.

Olhou para o tecto branco durante muito tempo. Talvez fossem segundos ou talvez horas. Levantou-se da cama e Igor acordou.

― O que se passa querida?

― Nada, estou só com sede. Vou beber um copo de água.

Ele pareceu ficar satisfeito com a resposta. Virou-se para o outro lado e voltou aos seus oníricos prazeres. Alice tinha inveja desses pequenos pedaços de felicidade. Nunca tinha pensado muito nos sonhos até os perder.

Parou à entrada da sala. Nada a podia ter preparado para o que viu. As luzes do lago estavam brilhantes como nunca tinham estado. A luz era tão forte que até se projectava nas paredes.

― Alice, vem ter comigo ― ouviu mais uma vez.

Um estremecer de excitação percorreu-lhe a coluna. Sem pensar, abandonou a casa no seu vestido de dormir. Uma vez no exterior, correu até ao banco.

Apesar da temperatura ter descido, sentiu-se invadida por uma sensação de calor. Não conseguia despregar os olhos dos brilhos do outro mundo. O líquido frio lembrou-lhe que estava descalça, mas não se importou.

Sem hesitar, dirigiu-se ao cais de madeira, só para poder estar mais perto daquelas luzes.

― Esperei por ti desde o momento em que nasceste ― sussurrou-lhe a mesma voz.

Os pirilampos aquáticos continuaram a mexer-se. Pareciam estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Naquele momento desejou agarrar um deles na mão. Uma força de atracção irresistível fez com que entrasse no barco. Remou em direcção ao centro. O movimento exigia-lhe um grande esforço. Percorrida uma dezena de metros, já lhe doíam os braços e os dedos mal podiam agarrar os remos. Mesmo assim, ela continuou.

Finalmente ficou rodeada pelas luzes. Num impulso, tocou na água e elas desapareceram.

― Alice, vem ter comigo ― insistiu a voz.

O lago ficou novamente brilhante. A intensidade era tanta que nem em sonhos vira algo assim. As reflexões deixaram-na com uma tontura ligeira. Era o momento certo, percebeu, largando o remo, que rebolou até cair borda fora.

― Sim, Alice, é o momento certo. Será o melhor momento da tua vida, eu prometo.

Alice levantou-se num equilíbrio precário. Nem a lua conseguia ter metade do brilho dos reflexos. Atirou-se para o lago. A água fria rodeou-a por completo. Ela não sabia nadar e nem o queria fazer.

As luzes estavam ainda mais brilhantes e a sua beleza avassaladora. Moviam-se em estranhos padrões nunca antes vistos. Valia a pena ter nascido só para ver aquilo, percebeu Alice.

E, como Eunice, afogou-se.

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