Ruy de Figueiredo, Investigador Secreto da Agência dos Assuntos Interditos, aguardava nervosamente a reunião que iria ter lugar no Paço dos Duques de Bragança.

Após a calamidade que atingira o país meses antes, devastando Lisboa e várias outras regiões, fora incumbido pelos seus superiores de averiguar se havia ligação entre o terramoto, supostamente um desastre natural, e a perda de um projecto em que a Coroa investira imensos recursos… embora, em boa verdade, o Rei, tal como quase todos os Portugueses, provavelmente desconheceria tal projecto – não era por acaso que estava sob a alçada de uma Agência que não era reconhecida oficialmente.

Fosse como fosse, as suspeitas confirmaram-se, e era ter que dar essa notícia que lhe estava a causar males de estômago.

***

Ruy já ensaiava mentalmente há algum tempo a melhor maneira de apresentar o relatório quando, finalmente, um dos guardas da antecâmara lhe fez sinal para entrar no salão.

Na sala encontravam-se já sentados à mesa vários indivíduos que não reconheceu, excepto um. Era comum que tal acontecesse, a Agência era muito segmentada, diziam-lhe que por razões de segurança. O que sobressaltou o agente, isso sim, foi a presença do único indivíduo que reconheceu. Sebastião José de Carvalho e Melo. O Marquês de Pombal, que encabeçava os esforços de reconstrução na capital. Estaria ali apenas como convidado? Ou teria um papel de maior relevo? Havia rumores, palavras segredadas entre agentes, que o Marquês, para além de Secretário de Estado do Reino, seria um dos dirigentes, talvez mesmo o dirigente máximo, na organização.

O facto de estar sentado à cabeceira, lhe acenar e fazer sinal que se sentasse parecia confirmar essa hipótese.

– Muito bem, D. Ruy, fale connosco – começou o Marquês, com uma falta de cerimónia que apanhou o agente desprevenido. – Acredito que nos traz novidades.

– Sim, excelência. Antes de mais, queria aproveitar para cumprimentá-lo pelo superior trabalho que tem vindo a dirigir no tremendo esforço da reconstrução. Tem, indubitavelmente, cuidado dos vivos, agora que os mortos estão enterrados e bem enterrados…

O Marquês interrompeu-o com um sinal e respondeu:

– Agradeço muito, mas isso não é a razão da nossa presença aqui. E, por favor, antes de voltarmos ao assunto que nos traz aqui hoje, peço que se refreie de repetir esse chavão sobre vivos e mortos. Eu nunca proferi sequer tal frase. Foi-me atribuída pela populaça, sabia? No início até tinha a sua graça, mas começo a ficar saturado de a ouvir. Mas adiante. O que apurou?

Ruy ficou atordoado com o informalismo e a brusquidão. Sentia que o momento demandava outra postura, mas não ia reclamar com o dirigente da Agência dos Assuntos Interditos. Assim sendo, mais valia ir directo ao assunto:

– O terramoto que devastou Lisboa em Novembro passado não foi, pelo que apurámos, natural. Tudo indica que tenha sido causado pela destruição da base dos Zéfiros. – Com isto, alguns dos presentes murmuraram entre si. O Marquês permanecia impávido, embora o seu olhar deixasse transparecer, muito ao de leve, irritação. Ruy apercebeu-se que o seu interlocutor já devia saber o que se passara, mesmo sem a confirmação oficial.

– O que é lógico, já que os engenhos deles tinham o potencial para causar semelhante destruição. Nós queremos saber em concreto o que se passou – exigiu Sebastião.

– Bem, é isso que eu e os meus subordinados estamos a tentar apurar com mais detalhe. Deslocámo-nos de barco até à ilha artificial que os Zéfiros construíram quando chegaram cá há três anos. Mas devia dizer, na realidade, que nos deslocámos ao local da ilha. A ilha já não estava lá.

– Foi totalmente destruída?

– Receio bem que sim. Inicialmente pensou-se, como sabem, que o terramoto tivesse apenas interrompido as comunicações…

– Sim, sim, a tecnologia deles é difícil de compreender, especialmente a comunicação por ondas invisíveis no ar que eles usam para tudo, por isso os nossos filósofos naturais pensaram numa interrupção momentânea. Só quando não conseguimos reestabelecer contacto é que começámos a pensar no pior e incumbimos a sua delegação de perceber o que se passava. –Ruy ficou algo aborrecido com o tom do Marquês. Escusava de falar com ele como se fosse uma criança. Continuou:

– O facto é que a ilha desapareceu. Ora, todos sabemos que os Zéfiros têm máquinas voadoras, foi assim que vieram do mundo deles até ao nosso… – O Secretário do Reino olhava para ele com ar ameaçador, pelo que retomou o fio à explicação – Parecia muito estranho zarparem de um momento para o outro, sem aviso prévio. Não tinha lógica, tendo em conta o nosso programa de intercâmbio.

– Intercâmbio? – quis saber um dos indivíduos, a quem aparentemente não fora dada toda a informação, o que era típico da Agência. O Marquês explicou:

– Os Zéfiros, após o contacto inicial connosco, decidiram que não era prudente partilharem os segredos da tecnologia deles com os “nativos”. Decidiram que somos muito perigosos. Então, foi acordado que iriam receber representantes nossos, que iriam “educar” e “iluminar”. Em troca, alguns deles iriam permanecer entre nós, para compreenderem melhor o nosso mundo.

– Mas os Zéfiros nem sequer passam por humanos! São alados, e parecem nem ter substância.

– Quando querem, passam, garanto-lhe. Têm essa capacidade, e muitas outras que não deve conhecer. Mas continue, D. Ruy, por favor.

– Muito bem. Inicialmente pensámos que podiam ter ido embora, o que seria um comportamento ilógico, que não é típico deles. Claro que poderia ter havido uma emergência, ou algo semelhante. Mesmo assim, não fazia sentido terem levado a ilha. Só mais tarde começámos a descobrir os destroços. Percebemos então que teria havido uma explosão cataclísmica, que pulverizou a ilha. Ora, a ilha estava ligada ao fundo do mar, por uma espécie de… caldeiras…? – Aqui, o agente hesitou.

– Os Zéfiros aproveitavam o calor de debaixo do solo, pelo que percebi – elucidou o Marquês. – Sim, faz sentido. Uma explosão maciça na ilha, com todas as máquinas deles, poderia afectar o solo por baixo, estando ligados.

– É o que pensamos que aconteceu. Afinal, a maior parte das instalações deles ficavam debaixo do mar, a ilha era só o ápice da construção.

O Marquês quedou-se pensativo. Algo não parecia fazer sentido. Aventou:

– Só não entendo como um povo tão avançado tem um desastre desta magnitude. Era de esperar que com tanta maquinaria a soubessem controlar melhor.

– Ora aí está a questão, excelência. Acreditamos que tenha havido jogada maliciosa.

O Marquês, uma vez mais, não pareceu surpreendido com a revelação. Ruy continuou:

– Como sabe, embora os restantes desta sala possam não ter conhecimento, de há alguns meses para cá temos vindo a apurar que há certos grupos que estão insatisfeitos com o contacto com os Zéfiros. E isto para colocar a questão de modo ligeiro. Muitos querem, pura e simplesmente, a destruição dos nossos visitantes. Alguns acreditam que são uma abominação aos olhos de Deus, outros que devíamos atacá-los e apropriarmo-nos dos recursos deles.

– Ridículo! – protestou um dos desconhecidos. – Quer uma hipótese, quer outra. Abominação? Isso é uma superstição! Quanto a apropriarmo-nos dos recursos, como os iríamos usar? Não. Nós precisamos dos Zéfiros.

– Correcto, – continuou o agente – mas muita gente, gente poderosa, não percebe isso. Ou não quer perceber.

– D. Ruy, diga-me uma coisa – pediu Sebastião. – O seu grupo suspeita de alguém? Já se debruçaram sobre o assunto?

– Sim, excelência. Há um grupo que se tem revelado particularmente problemático desde o início da nossa convivência com os Zéfiros. É encabeçado por…

– Não – interrompeu o Secretário do Reino. – Não aqui, nem agora. Quero o resto do relatório por escrito, apenas para os meus olhos. A confirmação será entregue a outro grupo, e depois serão tomadas as medidas adequadas.

– Mas, excelência – protestou Ruy. – Nós estamos a um passo de confirmar…

– Obrigado, D. Ruy. É tudo. Aguardo o relatório lacrado amanhã. Pode entregá-lo pelas vias habituais. Escusado será dizer que o que aqui foi discutido fica entre nós – reforçou, dirigindo-se à mesa. – Agora, temos de planear como vamos eliminar todas as eventuais evidências do contacto com os Zéfiros.

O agente levantou-se, aborrecido. Todo o secretismo e divisões incomodavam-no, sentia que não tinha controlo nenhum sobre os resultados do seu trabalho. Mas que fazer para além de obedecer? Não se iria arriscar a ter uma visita nocturna de um Disciplinador por interferir num assunto que deixou de ser seu. Saiu da sala resmungando uma despedida meio formal e foi escrever o relatório.

***

No dia seguinte, no seu gabinete na sede da Agência dos Assuntos Interditos, o Marquês quebrou o lacre do documento. Após a introdução ao tema dos possíveis sabotadores, surgia a lista de suspeitos. Se tivessem tido mão no desaire de Novembro, iam sofrer. Ia apanhá-los e fazê-los pagar, e não se importava com os meios.

Leu o primeiro nome da lista:

“Francisco de Assis de Távora”

Retrato_do_Marquês_de_Pombal

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