A noite não tardou a tomar a aldeia na sua escuridão. Após um aviso, uma nativa de peito desnudo e cabelo negro como azeviche entrou na cabana. Baixou-se e pousou diante de si um prato de madeira, no qual um peixe assado ainda fumegava. Lançou uma mirada a Moanam e disse qualquer coisa rápida. Ele acenou e a nativa não tardou a sair, lançando um último olhar de curiosidade e desconfiança à estranha. Moanam desatou-lhe os pulsos doridos. A jovem esfregou-os em redor da zona marcada, permitindo que a circulação se tornasse mais constante.

– Tu comer – murmurou o índio, com um aceno.

Não se fez rogada. O estômago queixava-se há já algum tempo, como se uma criatura de rosnar baixo vivesse lá dentro.

Pouco tempo havia passado quando dois Narragansett armados entraram na tenda. Ignoraram Moanam e foram directos a Cecília, erguendo-a pelos braços e empurrando-a para fora da tenda. As pernas trôpegas de tanto tempo que estivera sentada quase a fizeram estatelar-se, perante a brusquidão deles.

Fora da habitação, fora acesa uma enorme fogueira que lançava disformes sombras no chão. Uma grande parte da tribo, senão toda, estava ali reunida, aguardando. Os olhares caíram sobre si, enquanto se aproximava da fogueira. Na sua mente, contemplou uma bruxa a arder nas chamas, a gritar de dor, a contorcer-se enquanto o fumo lhe tomava os pulmões numa tosse convulsa. Não, não podia ser aquele o seu destino.

O chefe da tribo esperava-a, ao lado de uma idosa encurvada e de olhos fechados. As rugas formavam uma teia complexa no rosto moreno e pintado com símbolos estranhos, e o cabelo, outrora negro, era agora um misto de branco e cinzento. Parecia quase centenária.

Os dois guardas fizeram-na parar a menos de um braço de distância daqueles que a aguardavam. O chefe fê-los recuar com um gesto do bastão, mas nada mais. Em vez dele, a anciã aproximou-se, num passo lento e preso pelas articulações corroídas. Numa das mãos encarquilhadas segurava uma pequena foice cuja lâmina brilhava sob a luz das chamas nas suas costas.

Cecília recuou um passo. Ninguém falou, no entanto uma voz pairava diante de si, imaterial. A mulher estendeu a mão livre numa ordem muda: “dá-me a tua mão”. As palavras não eram claras, mas o significado gritava-lhe com força tal que os músculos desejavam obedecer-lhe. A anciã só poderia ser a xamã da tribo. Recuou mais um passo e cruzou as mãos sobre o peito, segurando-as contra si, por falta de outra protecção.

– Não – murmurou.

O chefe deu uma ordem ríspida e a jovem foi prontamente agarrada. Desprenderam-lhe os braços à força e esticaram-lhe o esquerdo. Cecília puxou e rosnou, qual animal selvagem, mas foi em vão. A foice tocou-lhe a pele e um grito estrangulou-se-lhe a meio da garganta, deixando somente escapar um gemido de aflição. Esperava a frieza metálica da lâmina, no entanto foi um calor horrível que a queimou, ao mesmo tempo que a cortava. Um fio de sangue, com um brilho negro à luz do fogo, caiu aos seus pés. A xamã voltou-lhe as costas e coxeou até às chamas. Estendeu a foice, deixando que o fogo consumisse o sangue. A sua voz ergueu-se num cântico prenhe de poder que lhe arrepiou a pele. O fogo intensificou-se e a sua cor mutou de rubro para negro em algumas zonas. Por um momento, pareceu-lhe que formava figuras de corpos delgados, etéreos, e de embarcações esguias que o fumo empurrava até se desvanecerem.

A xamã estremeceu, como se acometida por um ataque. Ninguém fez nada, observando somente. Os joelhos dela cederam, prostrando-se no chão de terra batida e ficou muito quieta, com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados. No entanto, era visível o movimento sob as pálpebras. De súbito, ela abriu-as, fitando o céu escuro. Inspirou e expirou, devagar. O chefe ajudou-a a erguer-se e falou baixinho com ela. A anciã fez um pequeno aceno e, de imediato, o olhar do nativo caiu sobre Cecília, que ainda era agarrada por dois homens.

O chefe acabara de lhes dar uma ordem, quando um objecto veloz rompeu a noite, cravando-se no peito de um deles. O índio largou-a, ficando por um instante a contemplar as penas sarapintadas da flecha, e o fio de sangue que escorreu da zona perfurada, antes de tombar para trás.

Os membros da tribo perceberam então que estavam sob ataque. O segundo homem libertou-a, para poder ir buscar as suas armas, no instante em que uma segunda flecha cortou o ar, não acertando por pouco no chefe. Cecília olhou de um lado para o outro, desorientada e por um momento ignorada por todos.

– Cecília! – A voz soou pouco acima do borburinho e dos gritos. A jovem voltou a cabeça na direcção dela. Moanam aproximava-se com passadas rápidas, o rosto tenso de urgência. Parou diante dela, examinando os estragos que poderiam ter sido causados. Apesar de doer, a ferida no braço era superficial e o sangue pararia de correr, mais cedo ou mais tarde. – Vir!

Ela acenou, sem hesitar. Esta podia ser a sua última oportunidade de escapar. Ele deu-lhe a mão e puxou-a por entre os membros da tribo que se tentavam organizar e perceber donde vinha o ataque nocturno. Fugiram na direcção do bosque, sem que os impedissem, e penetraram na escuridão. À distância, brilhou uma muito pequena luz, desaparecendo no segundo a seguir, para voltar a aparecer e desaparecer. Um sinal. Moanam levou-a nessa direcção.

Um movimento do seu lado esquerdo fê-la dar um salto. Um vulto surgira por de trás de uma rocha, ao lado deles. O seu companheiro disse qualquer coisa, onde parecia identificar-se, o que mitigou qualquer intenção violenta. Assim, seguiram atrás do desconhecido, até junto de um pequeno grupo armado, encoberto por uma moita espessa. Os olhares curiosos detiveram-se sobre ela, medindo-a como a um ser raro.

– Miguel – chamou Moanam.

Um dos homens voltou-se, olhando na direcção deles. As roupas eram muito similares aos dos restantes índios, mas a pele, apesar de curtida pelo sol, tinha uma origem mais clara, e as feições eram também muito diferentes. Finalmente, conhecia-o, o seu antepassado cujo destino era dado como incerto. Estava ali, diante de si.

Um nervoso miudinho, completamente diferente de tudo o que já sentira naquela noite, tomou conta de si e, por um momento, as palavras fugiram-lhe da boca. Quando as proferiu, sentiu-as tolas.

– Chamo-me Cecília Corte-Real – disse. – Venho de Portugal…

Miguel observou-a, franzindo ligeiramente as sobrancelhas ao examinar-lhe a roupa e, provavelmente, a forma como ela falava. A Língua Portuguesa evoluíra muito em meio milénio. O suficiente para ele falar e Cecília não perceber metade. E vice-versa. Contudo, o explorador não chegou a dirigir-se-lhe. Uma chamada de aviso fê-lo desviar a atenção para o que havia diante de si e montar uma flecha no arco. Atirou algumas palavras, às quais Moanam acenou e ela sentiu-se a ser puxada daquele esconderijo precário. Lançou um último olhar para trás e Miguel Corte-Real sorriu-lhe.

Ouviu-os a segui-los. Não os que tinham deixado para trás, mas outros. Os gritos deles urgiam à sua perseguição. Tropeçou mais do que uma vez no que não via, mas o índio conseguia sempre apoiá-la antes que caísse. Por fim, a vegetação tornou-se mais esparsa e Cecília conseguiu detectar um brilho líquido, mais à frente, assim como o canto ligeiro a água. O rio Taunton corria leito abaixo, indiferente ao que se passava entre os humanos. Dirigiram-se para lá, tão depressa quanto conseguiram. O seu peito parecia querer explodir, sem fôlego. Quando alcançaram a zona onde a terra continuava húmida da maré que descera, Moanam parou.

– Correr! – Apontou para a rocha. Agora estava completamente descoberta, sob o luar. Não parecia sequer a mesma de há poucas horas, que as águas tentavam empurrar num esforço vão.

O primeiro pensamento foi obedecer-lhe, mas uma vozinha ao fundo da sua consciência deteve-a.

– E tu? – perguntou, levantando os olhos para ele. Não era tão alto quando lhe parecera antes, nem tão velho. Na verdade, agora parecia-lhe um rapaz em apuros por tê-la ajudado.

– Correr!

O índio empurrou-a na direcção da pedra. Cecília voltou a hesitar, mas não teve tempo para fazer mais nada, porque Moanam pôs-se a correr na direcção contrária, afastando-se dela. Inspirou fundo e rezou por ele. Não sabia bem a que divindade. Talvez aos próprios totens dos Narragansett.

Apressou-se então na direcção da pedra. Os pés escorregavam e afundavam-se no lodo, no cascalho e nas poças deixadas pela água. Olhou para trás uma vez. De entre as árvores surgiam vários homens que não tardaram a detectá-la, correndo na sua direcção. Deu a volta à pedra e olhou os caracteres, procurando aquele pequeno brilho que antes lhe prendera a atenção. Deixou os dedos escorregarem pelo relevo, de nariz quase encostado. Uma flecha embateu na pedra, fazendo-a soltar faíscas. Encolheu a cabeça entre os ombros.

– Vá lá… aparece… – sussurrou, implorante. E se as partículas tivessem fechado o portal criado no Espaço e no Tempo? Os espaço-temporões não podiam ter estabilizado tão depressa…

Como se escutando as suas preces, quando Cecília tomou um ângulo diferente de observação, o brilho revelou-se, intenso, num reflexo puro do luar. Tocou-lhe com o dedo no momento em que uma flecha lhe rasou a cabeça. Por instinto, fechou os olhos. E, de súbito, o canto do rio desapareceu.

*

– Cecília?

A voz do irmão. Abriu os olhos e respirou fundo, apercebendo-se que estivera a prender o ar nos pulmões. A luz fraca da galeria rodeava-a. Estava deitada no chão, de barriga para baixo. Não fazia ideia de como acabara naquela posição. Pôs-se de gatas, devagar, e sentou-se. Lançou um olhar estonteado primeiro em seu redor, e depois ao irmão que estava pálido como a morte.

– Estou viva? – murmurou.

– Estás. E descomposta. E acabaste de desaparecer e aparecer à minha frente, em menos de cinco segundos, e encheste o tapete de lama – disse, antes de se baixar ao lado dela. – O que aconteceu?

– Eu vi-o – sussurrou. E contou-lhe tudo o que acontecera, enquanto ele improvisava uma ligadura para o braço com um lenço limpo que trazia no bolso.

– Então… – começou Marco, depois de uma pausa. – Quer dizer que perdeste a oportunidade de te agarrares a um atlético índio nu, para te tentares afogar?

Cecília semicerrou os olhos. Mesmo depois de tudo o que passara, Marco continuava impossível.

– Não. Ele agarrou-me à mesma e ainda me fez respiração boca-a-boca. Só não me apercebi. Idiota…

O irmão riu-se, ajudando-a a levantar-se e levando-a até ao quarto, para que pudesse trocar de roupa e descansar da aventura. Porém, nem meia hora depois, ambos ouviram o grito da mãe e acorreram até ao local donde ele viera: o pequeno museu. Pararam à porta e piscaram os olhos.

– Cecília! – disse o indígena junto da Pedra de Dighton. Erguia ambas as mãos, mostrando que estava desarmado. O tapete tinha agora ainda mais marcas de lama.

– Bem, afinal sempre podes agarrar-te ao teu índio. A Pocahontas, versão masculina, agora em Portugal. – Um dos cantos dos lábios de Marco estremecia, revelando o quanto ele se continha para não rir.

Cecília deu-lhe um murro muito pouco meigo no braço, antes de entrar para tentar acalmar a mãe e inventar um boa explicação para a presença de Moanam. Apesar de tudo, estava aliviada por saber que o índio estava bem. Sorriu-lhe discretamente. O que fariam com ele?

Parte II

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