Observou-a, como havia observado, dia após dia, desde que a tinham conseguido transportar do museu de Massachusetts para Portugal. Sempre que podia, tirava uma hora, meia hora, ou até mesmo meia dúzia de minutos para se sentar diante dela. Era uma pedra colossal que lembrava um paralelepípedo imperfeito nas suas 40 toneladas; sob a luz fraca, pequenos fenocristais brilhavam na superfície grosseira. Mas havia mais, muito mais, para além de rocha naquele arenito gigante. O lado voltado para si estava coberto de inscrições antigas, cuja possível interpretação alimentava uma polémica centenária.

– Ainda a olhar para esses arabescos? Não te cansas, Cecília? – perguntou o irmão, espreitando o interior da sala larga.

A pedra não era o único objecto exposto naquela galeria privada. Num dos cantos estava um leme cuja madeira os elementos tentavam corroer ao longo dos séculos – dizia-se ter pertencido à nau São Gabriel, que Vasco da Gama comandara até à Índia e Pedro Álvares Cabral usara para descobrir o Brasil. Mais além, uma vasilha de argila de bordos escaqueirados, que remontava a 10 séculos atrás, mas cuja existência sobrevivera à dos homens do seu tempo. Também havia armas de metal devorado pela corrosão, visíveis através de vitrinas de vidro.

Cecília rodou a cabeça na direcção de Marco. Ele acabou por se encostar à ombreira da porta, de braços cruzados. Os lábios erguiam-se num sorriso meio descrente, meio de lamento divertido.

– Ainda. Sabes o quão importante é este artefacto para a nossa família, tal como sabes o quão enigmática é a sua superfície – notou, voltando a contemplar as inscrições. Estavam demasiado erodidas para qualquer um deles ter certeza absoluta daquilo que significavam. Mas muitos estudiosos teorizavam que pertencia a um dos seus antepassados, um Corte-Real, que as inscrições tinham sido feitas por ele, quando todos o julgavam morto. E ela acreditava nisso.

– Restos do passado. Miguel Cortereal pela vontade de Deus aqui chefe dos Índios 1511. Até sei as supostas inscrições de cor. Isso não as torna mais reais. Há quem veja coisas onde elas não estão. – Marco encolheu os ombros. – Mas se achas terapêutico ficar a olhar para um calhau…

– E há quem ignore o que é óbvio – respondeu-lhe a irmã. – Para além disso, há a questão dos espaço-temporões. Os sensores detectaram uma mudança na sua conformação, após o transporte da pedra para o nosso país. A radiação também se tornou mais intensa, o que demonstra que aconteceu alguma coisa. A pedra mudou. Talvez possa ter alguma coisa a ver com o magnetismo…

– Ou talvez tenha ficado enjoada da viajem de barco até aqui. E a radiação mais intensa afectou-te a cabeça.

O tom irónico dele fê-la encher os pulmões de ar, para a seguir os esvaziar muito devagar.

– A radiação afectou-me tanto que estou tentada a pegar numa daquelas espadas e experimentar o gume da lâmina em ti.

Marco soltou uma gargalhada animada e aproximou-se da irmã, acocorando-se ao seu lado.

– Agora a sério, o que pensas obter desta tua vigília? Que o nosso antepassado salte da pedra a qualquer momento, directamente do séc. XVI? – perguntou, contemplando também o artefacto.

Cecília esticou a mão para as inscrições, deixando os dedos percorrerem-nas ao de leve. Um dos fenocristais brilhou mais devido ao reflexo da luz.

– Quem sabe?

Ele suspirou e abanou a cabeça. Esticou as pernas, os joelhos estalando no processo, e endireitou-se.

– Quando te fartares, o teu lado da família que continua vivo espera que dês o ar da tua graça como companhia – disse, antes de lhe voltar as costas.

– Não te preocupes – disse, chegando-se um pouco mais para a frente.

Havia um novo brilho, mais forte. Certamente não era de um fenocristal. Talvez um mineral diferente incorporado na rocha aquando a sua formação, há milhares de anos. Deslizou o dedo até lá. Era estranhamente morno, como se tivesse absorvido a pouca energia da luz em redor. Um formigueiro tomou-lhe a cabeça do dedo. Arqueou as sobrancelhas, quando essa parte de si começou a tornar-se menos densa.

– Claro que me preocupo. Nós queremos… – Marco voltou-se para trás, pronto a barafustar. No entanto, o que viu emudeceu-o.

Cecília tornara-se translúcida, conseguia ver através dela. Susteve a respiração. E durante o longo instante em que ficou sem saber o que fazer, ou sequer o que pensar, a irmã desapareceu.

*

Uma golfada de água invadiu-lhe a boca. Bateu as pernas, agitou os braços e fechou os olhos sob aquele contacto súbito. Onde antes só havia ar e uma pedra diante do seu nariz, agora havia água e uma corrente que a puxava para baixo. Lutou com todas as forças. Por um momento, a cabeça perfurou a superfície. O vento soprou-lhe o rosto, antes de uma onda a empurrar para baixo, voltando a imergi-la. Bateu contra qualquer coisa no seu esbracejar incessante de pânico. Num reflexo de se agarrar à vida, crispou as mãos em redor da superfície áspera e içou-se nela. O corpo resistiu à força que o tragava. Quando mais de metade de si já estava acima do nível da água, Cecília atreveu-se a abrir as pálpebras e olhou em volta, por entre os cabelos que lhe tapavam metade do rosto. Se uma das margens ficava a poucos metros de si, a outra, pelo contrário, parecia imensamente distante. Árvores altas rodeavam o rio, ocultando o sol que descia no horizonte e lançando uma sombra fresca. Demasiado fresca. A superfície brilhante enganava quem a olhava, fazendo-a parecer mais serena do que era.

Agarrou-se melhor, enquanto pensava nas opções disponíveis. Só então reparou onde estava agarrada. Era a Pedra de Dighton, com as suas inscrições, numa gravação perfeita, sem erosão visível. Percebeu então que estava a montante do estuário do rio Taunton, donde a rocha era originária.

Um súbito assobio repercutiu-se no ar. Ergueu o rosto. Em terra firme, apontando na sua direcção, estava um homem. Atrás dele, de entre os troncos das árvores, surgiu outro, e mais um. Indígenas. Falaram entre si, gesticulando. Um deles trazia uma lança nas mãos, outro um arco com uma flecha parcialmente montada.

Cecília engoliu em seco. De repente teve ainda mais medo. E se vissem nela um alvo a abater? E se fossem canibais? Nada sabia sobre aqueles homens, apenas que poderiam pertencer à tribo dos Narragansett, que se supunha habitarem ali na altura em que as inscrições tinham sido feitas.

– Pedra, leva-me de volta para casa – implorou. Contudo aquele estranho brilho não estava lá. Os dedos começavam a ficar dormentes de se agarrar.

Um dos homens despiu a pouca roupa que tinha, uma espécie de tanga, e avançou nu para o interior da água gelada. Com braçadas fortes, cortou a corrente, sem se deixar arrastar.

O pânico apertou-lhe o peito e a garganta. Não tinha saída. O homem nadou até à pedra e agarrou-se nela. Deve ter percebido o pânico no rosto de Cecília, porque a expressão dele suavizou-se um pouco. Apoiou-se somente com uma mão e estendeu-lhe a outra, incitando-a a segurá-la. Hesitou um instante. No entanto, quando a primeira mão largou a pedra, a segunda escorregou. Os dedos roçaram nos dele, enquanto a água a empurrava sem piedade. Caiu desamparada e foi arrastada, tragada para o fundo, empurrada para cima como uma boneca nas mãos de uma gigantesca criança. A água invadiu-lhe o nariz e a boca, tomando-os como seus, infiltrando nela os dedos frios. E tudo ficou negro.

A dor em cada músculo era como se tivesse levado uma carga de pancada. Tossiu e, por um momento, pareceu que os pulmões lhe iam saltar pela boca. Entreabriu as pálpebras. A luz escasseava em seu redor. Por cima de si, as copas das árvores agitavam-se à brisa, num canto de natureza. Mas estava demasiado ensopada e dorida para o apreciar. Rodou a cabeça e encarou o índio ajoelhado ao seu lado. Ele perscrutava-a com dois intensos olhos castanhos. A pele dos braços, do peito, tal como o cabelo, continuavam molhados. Mas, pelo menos, já vestira qualquer coisa da cintura para baixo. Ele disse qualquer coisa na sua língua estranha. Cecília piscou os olhos, confusa. O índio passou uma mão pelo queixo, ponderando um pouco, talvez no que fazer com ela. Desviou o olhar para o rio Taunton.

A jovem sentou-se com cuidado e estremeceu de frio.

– Miguel Corte-Real – disse para o índio. Ele poderia reconhecer o nome.

Ele voltou a olhá-la, erguendo as sobrancelhas negras.

– Miguel Corte-Real? – repetiu, num sotaque peculiar que parecia querer enrolar as palavras.

Cecília confirmou com um aceno.

Atrás de si, escutou passos. Os dois indígenas armados tinham regressado, ou talvez nunca tivessem saído dali. Não podia ter a certeza. Contudo havia um sorriso perigoso nos seus rostos, enquanto a observavam. Dirigiram-se ao que estava ajoelhado ao seu lado, no que parecia ser uma ordem. Ele tentou protestar qualquer coisa, mas eles silenciaram-no e o da lança apontou a arma à rapariga. Ela estremeceu por dentro. O índio que estava ao seu lado ergueu-se e atirou-lhe algumas palavras ríspidas. Ela teve a impressão que era suposto imitá-lo. Ao mesmo tempo, um dos outros homens desencantou uma corda grosseira de uma bolsa que trazia à cintura e amarrou-lhe as mãos atrás das costas. A corda enterrava-se na pele, magoando-a. Não resistiu. Sabia que não tinha qualquer hipótese se tentasse fugir.

Foi empurrada através de um carreiro estreito, onde as raízes e as pedras se instalavam onde bem desejavam. O índio que a salvara ia atrás de si, os outros dois à frente, guiando-a. Por vezes lançavam olhares por cima do ombro, e linguajavam entre si, dando acenos esporádicos, como que a confirmar qualquer coisa. Ao fim de uma hora de caminhada, alcançaram uma pequena clareira. As habitações nasciam da terra, feitas de casca de árvore e paus, firmemente presas e demonstrando uma estabilidade espantosa ao olhar. Algumas fogueiras estavam montadas e acesas, onde eram cozinhados peixes, coelhos esfolados, mas também espigas de milho. O perfume de comida enchia o ar.

As crianças, que brincavam nuas por ali, pararam para os ver passar. As mulheres, que cosiam peles ou faziam o que lhe pareceram redes de pesca, detiveram as agulhas e cravaram o olhar nela. O silêncio tomou a pequena tribo. Só se escutava o crepitar do fogo e dos alimentos que assavam, e o balir ocasional de um ou outro animal.

Os índios não a deixaram parar, levando-a até à cabana maior, montada sobre uma ligeira elevação do terreno.

Um deles deteve-se à sua frente e voltou-se de súbito, atirando-lhe à cara uma imprecação, acompanhada de vários perdigotos, que a fez estremecer. O homem atrás de si pousou-lhe uma mão no braço e pressionou-o um pouco. Ela olhou por cima do ombro, temendo o que poderia aquilo dizer, porém o olhar que ele lhe deitou, apesar de sério, não era agressivo. Indicou o chão com a mão livre e voltou a pressionar-lhe o braço. Cecília baixou-se, incerta, e acabou por se ajoelhar diante da tenda.

O homem mais à frente falou alto, em modo de anúncio. Então, esperaram o que lhe pareceram vários minutos, até a pele que cobria a entrada da tenda ser desviada para um dos lados. Com passadas largas, um nativo robusto saiu do interior. Um dos lados da cabeça do homem fora rapado, apresentando no lugar do cabelo a pintura a negro de uma águia; do outro lado, duas penas compridas pendiam-lhe do cabelo. As rugas aprofundavam-se no rosto de tez castanha, no entanto o porte direito e firme subtraía-lhe vários anos. O homem abriu a boca para falar, no momento em que a viu. Cecília aguentou-lhe o olhar, implorante e não desafiadora. Talvez houvesse algum laivo de piedade naquele que deveria ser o chefe da tribo dos Narragansett. Ele aproximou-se e levou um joelho ao chão, observando-a mais de perto.

Um dos que a tinham levado até ali disse qualquer coisa, onde incluía o nome do seu antepassado. O nativo que se baixara fez um aceno, sem deixar de a examinar. Levou uma mão ao rosto dela e voltou-o para um lado e para o outro. As mãos calejadas e de pele seca arranharam-lhe a cara, antes de a largarem. Ergueu-se e disse qualquer coisa ao índio atrás de si. Cecília sentiu que a puxavam para cima pelas axilas e apressou-se a pôr-se de pé. Desequilibrou-se por um momento, embatendo no peito daquele que a levantara.

– Peço desculpa! – disse, muito depressa. Não que eles a entendessem, contudo olharam-na ao escutá-la, sem nada dizer.

Foi levada para uma cabana mais pequena. A pouca claridade do crepúsculo entrava pela porta e por um orifício no topo da habitação, aberto para que o fumo de alguma fogueira que fosse acesa no interior pudesse sair. Mas, naquele momento, não ardia ali qualquer chama, nem arderia. Sentou-se numa pequena esteira, com ajuda do homem que a salvara das águas do rio. Continuava ensopada e a tremer de frio.

O Narragansett sentou-se diante dela, observando-a por um momento, antes de levar uma mão ao peito.

– Moanam – disse.

Cecília olhou-o por um momento, antes de baixar os olhos para o restante chão de terra batida. Abanou a cabeça para si. Fora ali que a sua curiosidade a levara, feita idiota. Mordeu o lábio inferior e sentiu as lágrimas picarem-lhe os olhos.

Lá fora, a vida voltara à aldeia. O zunzum entrava ali sem ser convidado e, apesar de não o compreender, sabia que falavam de si, do que lhe iria acontecer. Iriam matá-la. Miguel fizera-lhes alguma coisa, e seria ela quem sofreria as dolorosas consequências.

– Moanam – insistiu o índio, chamando-lhe a atenção. Mantinha a mão sobre o peito. Seria o nome dele?

– Cecília – sussurrou em resposta. Se levantasse muito mais a voz, esta vacilaria e daria vez a algum soluço.

– Eu… tirar… tu.

Cecília arregalou os olhos.

– O quê?! – A voz dela subiu vários níveis. Ele falara português, falara mesmo. E não havia muitas formas de ele ter aprendido. Só os exploradores portugueses poderiam tê-lo ensinado. A não ser que tivesse havido outros viajantes temporais.

– Sssh – fez Moanam, com urgência. Olhou por cima do ombro para a entrada da casa, porém ninguém veio apurar donde viera aquela exclamação.

– Como? – quis ela saber, inclinando-se um pouco para a frente.

– Água descer… pedra – tentou explicar.

– Tu sabes que eu – tentou indicar-se a si e a ele só com a cabeça – vim pela pedra?

O índio escutou-a com atenção e ainda houve uma pausa antes de responder.

– Pedra porta deuses. Povo medo.

Eles sabiam. Provavelmente mais alguém já teria aparecido ou desaparecido dali.

– Como consegues falar? – perguntou, devagar, fazendo uma pausa entre cada uma das palavras. Tinha de matar aquela curiosidade, pelo menos isso.

O índio sorriu.

– Miguel – sussurrou, somente.

Parte I

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