Os cinco exércitos cercam-nos neste monte alentejano. Estamos em Ourique, embrenhados em território inimigo. O sol de Verão está perto do horizonte. Não iremos combater hoje. Todavia, amanhã a batalha será inevitável.

Olho para os meus capitães vejo que eles esperam que lhes diga o que fazer. Sempre foi assim, desde que o meu pai morreu que todos esperam milagres de mim, o príncipe do condado Portucalense. É preciso traçar um plano para a batalha. Não me ocorre nada.

— Como podemos enfrentá-los? — pergunto, olhando para o esquema do terreno.

O silêncio abate-se sobre os homens mais valorosos de Portucale. Eu sei o que eles estão a pensar. Não devíamos ter vindo tanto para Sul. Irrita-me não mo dizerem abertamente. Os inimigos excedem-nos em cinco para dois. E os nossos homens estão com medo. Até estes diante de mim estão cheios de receios. Não os posso julgar, se soubesse o que sei agora, nunca teria embarcado nesta sortida.

— Se ninguém tem ideias, eu vou pedir-vos que se retirem. Preciso reflectir. Mantenham sentinelas durante a noite e preparem o exército. Iremos dar batalha aos mouros de madrugada. Dar-vos-ei mais detalhes ao nascer do Sol.

Um a um, abandonaram a tenda. Estudo o esquema de novo. No topo do monte estamos seguros. Conseguimos defender ataques vindos de qualquer direcção. No entanto, não conseguimos sair daqui com facilidade. Se tentarmos romper o cerco nalguma direcção, eles conseguem contra-atacar pelos flancos e pela retaguarda. Preciso de algo que possa mudar o rumo da batalha decisivamente. E, claro, algo que moralize os meus homens.

O céu escurece sem que me surja nenhuma ideia. Estou a ver que irei passar uma noite em branco. Um dos servos entra na tenda com o meu jantar.

— Não desejo comer — explico, acenando para que me deixe. — Não desejo ser incomodado até uma hora antes do nascer do sol. Preciso de orar.

Sou de imediato deixado só. A desculpa da oração resulta sempre. Não tenho intenções de o fazer, pelo menos não agora. Todavia, seria perfeito se aparecesse Jesus Cristo e me dissesse como ganhar esta batalha.

— Deus tem muitas formas — constata um idoso, vestido em trapos.

Não dei pela entrada dele. Como teria passado os guardas?

— Eu disse que…

— … que querias ficar sozinho — completou o velho, sorrindo.

— Como é que entrou aqui? — pergunto incrédulo.

— A pergunta certa não é como, mas para quê. Dom Afonso, quão forte é a tua fé? — inquire, aproximando-se.

— A minha fé é forte e sempre será — replico, a mesma frase que repeti vezes sem conta.

— O que dizes não é totalmente verdade. E digo-te mais, se a tua fé for forte, vencerás a batalha e serás rei. Se a tua fé vacilar por um momento, a derrota e morte esperam-te aqui.

— Como assim?

— Hoc Signo Vinces — diz-me, mostrando-me as palmas das mãos, as quais ostentam uma enorme cicatriz cada.

E desvaneceu-se no ar.

***

Assim que o escudeiro acabou de me prender a armadura, abandonei a tenda, encontrando os capitães à entrada. Tinham um ar cansado. Não devem ter conseguido dormir. Eu passei a noite em oração, ainda sem saber se Jesus realmente me visitou.

A escuridão ainda era quase completa. Os soldados atarefavam-se nos preparativos para a batalha. Sons distantes indicavam que o inimigo fazia o mesmo. Desde cavaleiros em armadura completa a lanceiros, todos receavam o combate.

— Durante a noite orei — comuniquei-lhes, elevando a voz para que os soldados comuns o ouvissem também. — E Jesus Cristo apareceu-me, mostrou-me as suas chagas e disse-me Hoc Signo Vinces, com este símbolo vencerás. Os infiéis não nos poderão vencer enquanto a nossa fé for forte.

Várias cabeças se voltaram. Espero que a fé deles seja tão forte como a minha.

— Preparem-se, é o nosso dever derrotar os infiéis! — comando, aproximando-me dos capitães.

Faço-lhes sinal para se aproximarem.

— O grosso do exército deve formar uma coluna única, excepto a cavalaria pesada que irá ficar na retaguarda e fora de vista. A cavalaria ligeira deve atacar o inimigo com armas de arremesso para o forçar a atacar, mas deve recuar assim que ele avance — explico, colocando o elmo.

Afasto-me em direcção à minha guarda de honra, os mais valorosos cavaleiros do Condado. A luminosidade aumentava, revelando os cinco campos do inimigo. Cinco exércitos contra um. Em coluna única, posicionamo-nos na encosta, o Sol irá nascer nas nossas costas. Os batalhões inimigos formam-se à pressa, não estavam preparados para que tomássemos a iniciativa nem que lhes déssemos batalha tão cedo. A cavalaria não perde tempo, atirando lanças e flechas contra as fileiras sarracenas. O efeito em termos de baixas era reduzido. Olho para os soldados mais próximos. Parecem estar mais confiantes que eu.

Ainda sem estar completamente organizado, os mouros avançam pela colina acima. Dois dos exércitos inimigos ainda não se movimentaram. Estão descoordenados. A cavalaria continua a atacar a infantaria almorávida. Os cavaleiros adversários juntam-se à investida. Preparamo-nos para o embate.

O choque de metais é terrível. Deito um olhar furtivo à minha volta. As fileiras ameaçam ceder em vários pontos. A minha guarda protege-me do pior. Assim que termina o ataque, ordeno que o estandarte com a cruz de Cristo seja erguido. O campo está adornado de corpos, tanto de cavalos como de soldados. Não consigo saber se levamos vantagem ou não, mas sei que não resistimos a outra investida semelhante.

O encontro de infantarias está prestes acontecer. Trocam-se flechas e lanças. Quando as espadas se encontram com os escudos e as lanças com as armaduras, noto que a cavalaria está prestes a executar a manobra que eu lhe ordenei.

— Pater noster, qui es in cælis… — oro, apertando apega do escudo.

Duas fileiras ordenadas, uma de cada lado, com as lanças em riste, preparando-se para a carga. Duzentos cavaleiros, cem de cada lado.

— Sanctificétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra…

E num instante não são duzentos soldados. São muitos mais. Cada um torna-se em dois. E o efeito repete-se. A linha fica com uns vinte cavaleiros de espessura. Tenho a certeza que são mais de mil! Parece que multiplicaram-se por dez.

Nesse momento, o inimigo rompe o contacto e tenta recuar. Vejo o pânico nos seus olhares. A matança começa. A cavalaria persegue os mouros pela encosta abaixo, causando inúmeras baixas. Os restantes exércitos, desistem de se juntar à batalha e iniciam a retirada.

— É um milagre! — comenta um dos meus guardas.

— A fé salvou-nos!

Não tarda que se juntem todos em meu redor.

— É um sinal dos céus — conclui um dos capitães mais religiosos.

— Um sinal de que não estamos perante um príncipe, mas de um rei — anuncia Dom Gualdim Pais.

— A vontade divina assim o ditou — disse o velho, que entretanto aparecera entre os soldados.

E assim me aclamaram como rei, ainda no campo de batalha.

D._Afonso_Henriques_Batalha_de_Ourique

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