A porta do salão abriu-se com um estrondo. O servo entrou num passo acelerado.

 – O Barão Soeiro Mendes de Sousa – anunciou.

Também conhecido por Grosso, o nobre entrou na sala e juntou-se aos restantes barões portucalenses.

– As forças de Fernão Peres de Trava estão a reunir-se – declarou, interrompendo a reunião que tinha lugar.

– Quanto tempo temos até que comecem a avançar? – questionou Egaz Moniz de Ribadouro, o barão que era conhecido por O Aio.

– Talvez um dia, dois no máximo.

Sentando no cadeirão, Afonso Henriques passou a mão pela barba negra com um ar pensativo.

– Senhor, se atacarmos antes que o Trava reúna as tropas podemos acabar com isto de uma vez por todas – disse Gonçalo Mendes da Maia, O Lidador.

– Está na hora de recuperar o que é seu por direito, Senhor. A vossa mãe cometeu um erro ao aliar-se a Bermudo e a Fernão Peres de Trava – lembrou Gonçalo Mendes de Sousa, conhecido por Sousão. – Vós sois o príncipe herdeiro, o condado é vosso, não desses condes galegos.

– Temos homens suficientes para assegurar a vitória? – questionou por fim o príncipe herdeiro.

– Não vos vou esconder a verdade Senhor, haverá sangue, mas se lutarmos com valentia, seremos capazes de os derrubar – respondeu o Grosso.

– Vós tendes a nossa lealdade Senhor, as nossas espadas e os nossos homens são vossos. Se nos liderar para a batalha, nós seguimos – lembrou O Aio.

Afonso cada vez gostava menos da posição em que os barões o colocavam. Tal como eles, ansiava por estar à frente do condado, era o seu direito de nascença, e não seria a mãe, D. Teresa, que lho iria retirar juntamente com os dois condes galegos. No entanto, estava consciente de que os barões apenas pretendiam ocupar um lugar que não estivesse subordinado a ninguém, a não ser uma autoridade local em serviço dos seus interesses, e ele fora a escolha óbvia.

– Preparai os homens. Partimos de alvorada – ordenou.

Um a um, os barões fizeram uma vénia e abandonaram o salão, deixando o herdeiro a sós.

***

Afonso não conseguia dormir. O confronto com as forças dos condes galegos e da sua mãe tirava-lhe o sono. Era um momento fulcral para a sua campanha. Se vencesse, ele e os barões portucalenses tinham caminho aberto. Se falhasse, esperava-o a morte. Incapaz de ficar na cama, acabou por se dirigir ao pátio. Estava uma noite bastante quente mas, naquele estado de espírito, isso não o incomodava.

 – Não é uma boa noite para passeios, Senhor – declarou uma voz familiar.

Afonso virou-se e deu de caras com a velha ama.

– Maria… O que fazes aqui? Está um frio de rachar, mulher!

– Isso pergunto-vos eu! Pensava que tínheis uma batalha amanhã. Talvez não fosse má ideia dormir – respondeu a idosa.

Maria fora escolhida pelo pai, D. Henrique de Borgonha, para ser sua ama durante a infância. Sempre leal ao pai e atenta ao filho, nunca caíra nas graças de D. Teresa. Quando Afonso se juntou aos barões e se rebelou contra a mãe, a velha ama fez questão de o seguir. Alguém tinha de cuidar do príncipe herdeiro, dizia ela.

– Não consigo dormir.

A idosa aproximou-se devagar. Mancava da perna esquerda, fruto das artroses.

– A vossa hora está próxima. Um dia ides ser um grande rei.

– Rei? Como sabes isso?

– Está escrito nas estrelas – respondeu num tom de voz enigmático.

Maria nunca se livrara da fama de praticar bruxaria, mas sob protecção de D. Henrique, e agora de Afonso, ninguém ousava levantar uma mão contra ela. No entanto, o príncipe herdeiro conhecia os rumores.

– E que mais te disseram as estrelas?

A idosa sorriu e tirou um fio de ouro da rude capa que lhe cobria os ombros.

– Tomai – disse. – Usai-o ao pescoço na batalha de amanhã. Irá proteger-vos e dar-vos forças para derrotar os vossos inimigos.

Afonso estendeu a mão e recebeu o fio. Na ponta, havia um pequeno anel prateado, todo ele trabalhado em runas antigas que o príncipe desconhecia.

– Se eu usar isto amanhã, provavelmente vai-se perder na batalha – explicou.

– Por favor, fazei esta vontade a uma velha mulher.

Afonso sorriu e colocou o fio ao pescoço. Talvez Maria tivesse razão, talvez o fio lhe trouxesse a força e coragem que precisava para a batalha. Aproximou-se da idosa e beijou-a na testa.

– Obrigado, Maria.

***

A poeira que pairava sobre o campo de batalha tapava a luz do Sol. De espada em punho e com o rosto salpicado de sangue, Afonso avançava por entre as hostes inimigas, derrubando adversários e liderando as suas tropas. Entre soldados a pé e a cavalo, a confusão era total, um caos onde se misturavam os grunhidos dos guerreiros com o som das espadas a embater umas nas outras, deixando escapar, por vezes, audíveis gritos de dor daqueles que tombavam em combate.

Afonso fez a lâmina tingida de vermelho descer sobre mais um homem. O corpo caiu ao chão, sem vida. O herdeiro avançou pelo campo de batalha à procura. Onde estaria ele? Onde estaria Fernão Peres de Trava? Foi então que o viu, no meio dos seus homens, montado num garanhão negro, comandando as suas tropas.

Ignorando tudo o resto, o príncipe herdeiro avançou em direcção ao seu alvo. Estava na hora de terminar aquela batalha.

Ao verem Afonso aproximar-se, os homens do conde galego tentaram interceptá-lo, mas este, com uma série de movimentos rápidos e fortes da sua espada, derrubou os adversários.

– Fernão Peres de Trava! – gritou acima do ruído do combate. – Desce desse teu cavalo e enfrenta-me como um homem!

Só então o conde olhou para o adversário. Com um sorriso no rosto, saltou do cavalo e desembainhou a espada. Sem dirigir uma única palavra, fez sinal aos seus homens para que o deixassem e avançou em direcção a Afonso, envergando a sua imponente armadura de azul-cobalto. Fernão era conhecido pela sua destreza com a espada, e pela sua atitude, não via Afonso como uma ameaça.

O conde parou a alguns metros do herdeiro e esperou. Afonso ergueu a espada e avançou.

Com um movimento fluído, quase que um passo de dança, Fernão desviou-se do ataque. O príncipe voltou a atacar, mas o conde esquivou-se novamente. Aquela dança manteve-se numa sucessão de ataques. Afonso tentava derrubar o adversário, contudo este evitava as suas investidas sem dificuldades, deixando o herdeiro cada vez mais frustrado.

Irritado, Afonso cedeu à fúria e avançou num ataque desenfreado, deixando as suas defesas expostas. Com um movimento da espada, Fernão bloqueou o ataque e atingiu o jovem com um pontapé no peito, atirando-o ao chão. Com a força da queda, Afonso deixou cair a espada, ficando desarmado.

– És um tolo se pensas que algum dia me poderás derrotar num frente-a-frente – declarou o conde. – Está na hora de acabar com esta revolta de uma vez por todas! Servirás de exemplo aos barões para eles verem o que acontece a quem ousa enfrentar-me!

Fernão Peres de Trava ergueu a espada e preparou-se para enterrar a lâmina no peito do príncipe herdeiro. Naquela fracção de segundo, Afonso assumiu a sua derrota e preparou-se para receber a morte.

A lâmina estava já a poucos centímetros do coração de Afonso quando uma luz vermelha começou a brilhar no seu peito, bloqueando a investida da espada. De seguida, como se tivesse vontade própria, a luz vermelha percorreu a lâmina e estilhaçou o metal, projectando o conde para longe.

Os homens do conde vieram em seu auxílio, mas quando se aproximaram, a luz vermelha voou na sua direcção, transformando os homens em verdadeiras tochas, reduzindo os seus corpos a cinzas.

Incrédulo, Fernão olhava para o príncipe herdeiro, que se levantara e voltara a pegar na espada.

– Mas que bruxaria é esta?! Do que estão à espera homens, matem-no!

Mais soldados avançaram em direcção a Afonso, mas desta vez ele bloqueou o ataque com a espada. Quando as lâminas se tocaram, o príncipe sentiu a luz vermelha percorrer-lhe o braço, dando-lhe uma força sobre-humana. Com um único gesto, atirou os adversários pelo ar como se nada pesassem.

– Não podemos lutar contra isto… Retirar! Retirar, homens!

O conde correu para o dorso do seu cavalo enquanto gritava as ordens.

Afonso Henriques deixou-se ficar ali, de espada em punho, vendo os poucos homens que não tinham sido derrotados pelo seu exército fugir. Quando já estavam suficientemente longe, enfiou a mão na cota de malha e retirou o fio com o anel que Maria lhe dera. Assim que tocou no pequeno objecto, este desfez-se em pó, tendo esgotado todo o seu poder.

– Então os rumores são verdadeiros… ­– murmurou Afonso

***

De regresso ao castelo, após a que ficaria conhecida como a Batalha de São Mamede, Afonso Henriques procurou a sua velha ama. Ficou então a saber que a sua querida Maria tinha morrido enquanto estivera na batalha: fora assolada por uma forte febre e não resistira. As mulheres que cuidaram dela contaram-lhe as suas últimas palavras: “agora estás salvo, meu pequeno príncipe”. Depois, no seu último fôlego, o corpo da velha ama transformara-se em pó, tal como o anel.

 O Anel do Rei

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