Sair das instalações usando o comboio de alta velocidade estava fora de questão. Havia sempre guardas na estação e, mesmo que conseguisse entrar no comboio, ia acabar noutra estação repleta de mais guardas. A hipótese de fugir a pé pela floresta também não se colocava. Jado não conhecia aquelas montanhas, e tento em conta a densa neblina que surgia do nada várias vezes ao dia, o mais certo era acabar perdido. Se estivesse sozinho, provavelmente arriscaria, mas nunca com um bebé ao colo. Não, a sua única opção era sair dali pelo ar.

Avançou silenciosamente pelos corredores do edifício, escolhendo sempre os caminhos menos utilizados para não se cruzar com ninguém. No topo do Centro de Investigação, havia três naves pousadas, normalmente usadas pelos Soldados da Luz para patrulha. Ao que parecia, as aulas de piloto que tivera quando fora mais jovem iam finalmente dar fruto.

Ao chegar junto à saída para a pista de aterragem, escondeu-se atrás de uma das paredes e espreitou. Havia dois guardas à porta, ambos armados com armas semiautomáticas. Olhou de seguida para a bebé envolta numa manta que transportava nos braços. Tinha de arranjar uma forma de se livrar dos guardas sem colocar a criança em risco.

Deixou escapar um sorriso ao ver uma consola de acesso ao virar da esquina. Talvez a sorte estivesse do seu lado. Aproximou-se do terminal e pousou a criança adormecida no chão. De seguida, introduziu os códigos de acesso e entrou no sistema. Tal como julgava, conseguia ter acesso remoto ao equipamento do laboratório através da consola. Sem pensar duas vezes, alterou as definições da pressão dos tanques das incubadoras do Ventre. No monitor, viu o sinal de disparar o alarme quando a pressão do sistema atingiu o estado crítico.

A explosão fez todo o edifício tremer. Os expressores no tecto ligaram-se e a sirene de alarme começou a soar. Jado pegou novamente na bebé que estava a acordar. Fez figas para que ela não começasse a chorar.

Do seu posto, os dois guardas correram em direcção ao piso inferior, tentado perceber o que se passava.

Com a saída livre, Jado correu em direcção à porta. No exterior, estavam pousadas duas naves, a terceira devia estar em patrulha. Abriu o cockpit de um dos caças e sentou-se. Com a bebé ao colo, colocou o cinto de segurança do assento em torno dos dois. Ligou os sistemas e a nave respondeu de imediato. O computador de bordo verificou rapidamente todos os parâmetros. Estava pronto para voar. Respirou fundo e descolou.

Do ar era possível ver uma densa coluna de fumo negro que se erguia agora das instalações. Talvez tivesse sorte e, no meio de toda aquela confusão, ninguém desse pela sua falta até ser tarde demais…

Jado fez a nave dar meia volta e seguiu no sentido dos carris. Não fazia ideia da direcção da cidade mais próxima, pelo que teria de seguir o caminho efectuado pelo comboio.

O fumo da explosão era já uma pequena coluna à distância quando o comunicador da nave deu sinal.

– Interceptor Um, identifique-se – soou uma voz.

– Raios! – protestou Jado.

– Interceptor Um, identifique-se.

A nave que estava em patrulha aproximava-se na retaguarda. Fora demasiado ingénuo ao pensar que conseguia sair dali sem ser detectado.

– Interceptor Um, este é o último aviso. Identifique-se e regresse à base, ou serei obrigado a recorrer à força.

Não tinha outra escolha, tinha de se livrar da outra nave. Pressionou o joystick para a frente e fez a nave descer quase a pique em direcção à linha, em grande velocidade.

Apanhado de surpresa, o caça partiu em perseguição e abriu fogo.

Jado fez a nave esquivar-se numa série de movimentos em ziguezague. No visor do cockpit a percentagem de energia do escudo reduzia cada vez que o caça era atingido.

Puxou o joystick para si e fez a nave subir abruptamente. De seguida activou o sistema de combate. Podia não conseguir deter o outro caça, mas pelo menos ia ganhar-lhe algum tempo.

O sistema de defesa automático abriu fogo contra o caça inimigo, obrigando-o a afastar-se um pouco. Jado aproveitou o estar novamente afastado do solo para ganhar mais velocidade. No horizonte viu um desfiladeiro entre as montanhas. Era arriscado, mas podia ser a sua única oportunidade de se livrar do adversário.

A nave entrou em velocidade ultra-sónica. Tal como esperado, o inimigo fez o mesmo.

Estava já quase em cima das rochas quando reduziu abruptamente a velocidade. Colocou o caça de lado e entrou no desfiladeiro. Ao colo, a bebé começou a chorar.

O piloto adversário não estava a contar com a súbita mudança de velocidade e rumo. Não foi capaz de desviar o caça a tempo e parte da asa raspou na rocha, desfazendo-se em estilhaços. A nave perdeu o controlo e embateu contra uma das paredes do desfiladeiro, transformando-se numa brilhante bola de fogo.

Jado tirou o caça do desfiladeiro, contudo não foi suficientemente rápido. A asa da nave embateu contra a rocha e perdeu o controlo. Instintivamente, ejectou-se. Do ar, viu o caça explodir no meio das árvores da floresta. O pára-quedas abriu-se e ficou a flutuar no ar. A bebé parou de chorar.

Do ar, apenas a alguns quilómetros de distância, Jado viu uma pequena aldeia. Conseguiria alcançá-la a pé numa hora ou duas. Respirou fundo enquanto perdia altitude e a copa das árvores se aproximava.

A fuga não ia terminar ali. Quando a Igreja percebesse que não tinha morrido na queda da nave, iriam mandar os Soldados da Luz atrás de si. A sua vida como Jado Mafawi terminava naquele dia. Quanto à bebé, não se podia arriscar a deixá-la com ninguém. Não queria pensar no que aconteceria se a Igreja descobrisse as suas capacidades. Teria de ser ele a ficar com ela.

Sentiu o impacto quando as botas tocaram no chão. Desprendeu-se do pára-quedas e avançou pela floresta. Aguardava-o ainda uma longa caminhada. Ao seu colo, a menina voltou a adormecer.

Génesis 4

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