Nas semanas seguintes, Jado leu todos os dossiês sobre a investigação. Aquele projecto tinha já quase três anos e os resultados eram espantosos. Estava longe de imaginar que a Igreja pudesse financiar uma pesquisa daquelas. Tendo em conta a posição de Koff e da Igreja, vira-se obrigado a aceitar integrar o projecto. Afinal, a outra opção era uma morte prematura, e possivelmente bastante dolorosa.

Os primeiros dias de trabalho foram complicados. Jado nunca trabalhara sob ameaça, e o simples facto de estar enclausurado naquelas instalações contra a sua vontade, foi suficiente para que estivesse disposto a fugir e a esquecer tudo aquilo que vira. Porém, ao fim de ler os primeiros relatórios, o seu lado de cientista tomou o comando. Podia não concordar com a forma de trabalhar da Igreja, e muito menos da sua abordagem para recrutar novos membros para a equipa de investigação, mas uma coisa era certa: estava-se a fazer História naquele laboratório.

Ao final de um mês de trabalho, Jado estava a cem por cento na investigação e não demorou a perceber o que levava à morte prematura dos fetos. Resolver o problema levou-lhe mais tempo. Precisou de quase três meses, com muitas tentativas falhadas, para chegar à conclusão. Mas, como sempre, tinha conseguido. Por algum motivo ele era o melhor.

Por fim chegara o dia. O mundo iria presenciar o nascimento de um novo estado de evolução do ser humano, um ser em tudo igual a tantos outros indivíduos, mas com uma capacidade única: ser capaz de interagir com tecnologia Inai.

No Ventre, o laboratório onde toda a investigação decorria, Jado aguardava ansiosamente com Koff a seu lado. Aquele era o momento da verdade.

– Iniciar processo de nascimento do espécime dois – ordenou Koff.

Um dos ajudantes que controlava a consola do tanque dois apressou-se a dar inicio ao procedimento.

– Nascimento iniciado.

Aos poucos, o líquido do tanque onde o bebé flutuava foi drenado.

– Drenagem completa.

– Iniciar manobras respiratórias – disse Koff.

Accionado por um dos assistentes, um braço mecânico aproximou-se do recém-nascido. A máquina aspirou o nariz e a boca do bebé, limpando todos os resíduos de secreções, ao mesmo tempo que desobstruía as vias aéreas.

– Cortar ligação à placenta.

Novamente, a comando de Koff, um dos técnicos do laboratório voltou a accionar a consola de comandos. Ouviu-se o som de válvulas a abrir e, em meros segundos, o tubo de carbono que unia o umbigo do bebé à placenta artificial soltou-se. De seguida, o mesmo braço mecânico que desimpediu as vias aéreas efectuou o curativo da zona, cicatrizando a ferida com laser.

– Processo de nascimento concluído com sucesso – declarou um dos técnicos.

Nisto, o vidro do tanque subiu, permitindo o acesso à criança.

Ao aproximar-se, Jado percebeu que se tratava de uma menina.

– Tragam o artefacto – ordenou Koff.

Em quase um ano de trabalho, aquele era o primeiro nascimento a que Jado assistia. Em nenhum dos outros testes se tinha passado a fase de gestação de seis meses. Aproximou a mão da criança e esta agarrou-lhe o dedo com a sua minúscula mão. Por momentos, voltou a ser assolado pelas mesmas dúvidas que tivera no início daquele projecto. Que estava ele a fazer ali? Aquilo não era correcto…

Não tardou para que os assistentes regressassem com uma peça de tecnologia Inai que Jado nunca vira.

– Afaste-se Jado, vamos ver se a criança consegue activar o dispositivo – pediu Koff.

– Já? Mas ela acabou de nascer!

– Não foi você que disse que é um dom inato? Que basta a aproximação do dispositivo para este reagir?

– Sim, é essa a minha teoria.

– Então vamos testá-la. Agora afaste-se para sua segurança.

Jado foi sendo empurrado pelos técnicos que abriam caminho com Koff e com o dispositivo.

Para sua segurança. A frase de Koff surgiu de novo na sua mente, e um segundo olhar para o dispositivo revelou uma verdade terrível.

– Isso é uma arma Inai?!

– Claro que sim – respondeu Koff. – Como está à espera que testemos a sua teoria?
– Você quer humanos capazes de usar armas Inai?!

– Eu? Eu não, Mafawi. Quem quer é o Supremo Sacerdote, ele é que manda lembra-se? – De seguida virou-se para os técnicos ignorando Jado por completo. – Coloquem a mão da criança no dispositivo. Cuidado, seu idiota! Vai colocar-se na linha de fogo?! Quer morrer?!

Por momentos Jado ficou alheio a tudo o que o rodeava. O que fora ele fazer? Acabara de dar poder à Igreja para controlar todos os territórios sem que ninguém fosse capaz de se impor à sua vontade. Nem mesmo a ordem Roul iria conseguir fazer frente ao Supremo Sacerdote.

– Raios! – berrou Koff. – Voltem a tentar!

Como que acordado pelo grito em fúria de Koff, a mente de Jado regressou ao laboratório. A criança tinha a mão no dispositivo, naquilo que supostamente seria o gatilho, mas a arma não respondia.

– A sua experiência é um fracasso, Mafawi! Quero ver como vou explicar isto ao Supremo Sacerdote!

– Doutor, o que fazemos com os restantes espécimes? – perguntou um dos assistentes.

– O mesmo de sempre! Limpem tudo! Amanhã teremos de recomeçar do zero.

Perante o olhar de pavor de Jado, um dos técnicos aproximou-se do computador centra e accionou o comando. O líquido dos tanques foi drenado e substituído por ácido. Paralisado pelo horror, Jado assistiu imóvel enquanto o ácido desfazia a carne daqueles minúsculos corpos e consumia os ossos, dando um tom avermelhado aos tanques outrora incolores.

– Desapareçam da minha frente seus inúteis! – protestou Koff, dirigindo-se para o elevador acompanhado por alguns dos técnicos.

Jado voltou a aproximar-se da menina deitada na mesa metálica. O que tinha ele feito?

– Doutor Mafawi, posso eliminar o espécime dois? – questionou uma assistente de cabelos loiros. Fora a única que ficara para trás.

Nisto, o bebé começou a chorar. Provavelmente tem fome, pensou Jado. Porém, antes que tivesse tempo de reacção, a criança voltou a tocar na arma Inai que ainda se encontrava a seu lado. O dispositivo ganhou um brilho azulado e, sem aviso prévio, disparou um raio de energia contra a assistente.

Jado assistiu, incrédulo, quando o corpo da mulher se transformou em cinzas.

– Uma reacção emocional… É claro!

Como pudera ser tão idiota? A sua teoria estava correcta, mas não bastava o simples toque. A tecnologia era mais avançada que isso, era necessária uma reacção emocional para fazer com que a mesma respondesse.

Sozinho com a bebé no laboratório, correu para o computador central e deu ordem para apagar todos os dados da pesquisa. De seguida, pegou na criança ao colo e encaminhou-se para o elevador.

Ainda não sabia como, mas tinha que fugir dali. Não podia deixar que aquela criança caísse nas mãos da Igreja.

Génesis 3

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