As instalações eram impressionantes. Koff conduziu Jado pelos vários laboratórios do Centro de Investigação 5. O que se via do exterior do edifício não correspondia nem a metade da complexidade do local. Os pisos acima do solo eram essencialmente gabinetes e quartos dos funcionários e cientistas, a grande maioria dos laboratórios eram subterrâneos.

Durante a visita, Jado ficara a saber um pouco do porquê de o terem chamado. Grande parte da investigação que se fazia naquele local tinha como base a clonagem de órgãos humanos para transplantes. Com fundos praticamente ilimitados, Mafawi tinha de reconhecer que a investigação da Igreja estava anos-luz à frente do trabalho realizado por outros laboratórios.

– A ver se eu entendi… Pelo que vi, Doutor Koff, o meu trabalho aqui vai consistir em investigação na clonagem de órgãos, correcto?

– Ora, Doutor Mafawi, tem-se assim em tão baixa consideração? Não se esqueça que é um dos mais conceituados peritos na área. Esse trabalho é para… mentes menores, chamemos-lhe assim. O que a Igreja quer de si é algo muito mais interessante.

– Não estou a compreender…

– Siga-me – pediu Koff, conduzindo-o desta vez para um novo elevador.

Ao entrarem na cabine, Jado notou de imediato algo estranho: o painel não tinha botões para seleccionar o andar, ao invés, encontrava-se no local uma pequena consola com um scanner de impressão digital e leitor de retina.

Koff aproximou-se da consola, colocou as mãos no scanner de impressão digital e o olho direito em frente ao leitor de retina. Assim que o acesso foi confirmado, o elevador começou a descer.

– Para onde vamos?

– Para a verdadeira razão da existência destas instalações – respondeu Koff. – Antes de mais espero que perceba uma coisa. Tudo o que aqui vir neste laboratório oficialmente não existe. Se por algum motivo não quiser trabalhar connosco, espero que tenha o bom senso de não revelar o que viu a ninguém.

– Isso é uma ameaça?

– Nada disso, Doutor Mafawi. Vamos apenas dizer que os acidentes acontecem… – declarou Koff. – Presumo que esteja familiarizado com o estudo da tecnologia Inai?

Os Inai eram os deuses da Igreja, uma raça extremamente evoluída que habitara o planeta muito antes dos humanos. Ninguém sabia o que acontecera aos Inai e à sua civilização, de um dia para o outro, desapareceram da face do planeta.

– Não é a minha área, mas pelo que sei, não é possível utilizar dispositivos dos Inai.

– E se eu lhe disser que descobrimos o motivo de nunca termos sido capazes de activar a tecnologia Inai?

– Eu diria que isso seria um marco na ciência.

– A tecnologia Inai é diferente da nossa. Enquanto nós usamos energia para alimentar os nossos dispositivos, a tecnologia Inai usa outro sistema, e esse é o motivo pelo qual nunca foi possível activar os seus dispositivos.

– E que sistema é esse?

– O segredo está nos genes deles. A tecnologia usa um gene específico dos Inai para alimentar e interagir com os dispositivos. É por isso que nunca conseguimos interagir com um – explicou Koff.

– Assumindo que isso é verdade, você tem um sério problema: os Inai estão extintos. Não existe nenhuma amostra de ADN de Inai.

– E agora a revelação chave: nós temos o genoma de um Inai.

– O quê?!

Nesse preciso momento, a porta do elevador abriu-se e revelou um amplo laboratório onde trabalhavam dezenas de pessoas em bata branca. Espalhados pelo espaço, havia vários tanques ligados a máquinas que faziam a monitorização dos mesmos. A perplexidade da revelação de Koff foi de imediato substituída pela surpresa ao ver o que os tanques continham: fetos humanos.

– Bem-vindo ao Ventre, Doutor Mafawi.

– Aquilo é o que estou a pensar?

– Sim, são fetos humanos. Ou melhor dizendo, são o futuro da humanidade: indivíduos capazes de usar a tecnologia Inai.

– Mas, como?

– Estamos a alterar o seu genoma. O objectivo é fundir o par de cromossomas do ADN Inai no ADN humano, o que permitiria a esses indivíduos controlar a tecnologia – revelou Koff.

– E quais são os resultados até agora?

– Promissores. Mas estamos com alguns problemas. O ADN não fica estável e tem causado algumas reacções indesejadas, como a morte prematura dos fetos. Ainda não conseguimos gerar um indivíduo até à fase de gestação final. É para isso que você aqui está – explicou. – Doutor Mafawi, você é o maior perito mundial em genoma humano. Pense no que isto poderia trazer ao mundo.

Jado manteve-se em silêncio, ainda em choque com a revelação. Aquilo ia contra tudo o que a Igreja pregava.

– O que vocês estão a fazer aqui é ilegal. A Igreja é contra.

– Foi o próprio Supremo Sacerdote que ordenou esta investigação, e é a ele que eu tenho de reportar os avanços. Não se esqueça de uma coisa Doutor, é a Igreja que faz as leis – lembrou Koff. – Se está com receio de poder ser preso ou executado, esteja descansado. Estamos todos sob protecção directa do Supremo Sacerdote.

– E se eu me recusar?

– Bem, como já lhe disse, os acidentes acontecem…

Génesis 2

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