O verde das árvores transformava-se num borrão à medida que o comboio passava. As carruagens flutuavam acima dos carris com tal suavidade que, se não fosse pela paisagem em movimento, Jado era capaz de jurar que estava parado.

Passou a mão pelo cabelo grisalho e afastou a franja dos olhos. Com quarenta e cinco anos, Jado era um dos mais brilhantes geneticistas de que havia memória. Formara-se na Grande Academia com apenas vinte anos, e rapidamente se tornara uns dos professores mais conceituados da mesma. Fora o principal responsável por decifrar o genoma humano, o que há dez anos o colocara no centro de uma acesa polémica, da qual resultara a lei anti-clonagem.

Agora, passados tantos anos, fora contactado pela Igreja, a sua forte opositora. Quando atendeu o telefone a meio da noite, pensou que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. A Igreja não queria nada com ele. A ideia de ter o Supremo Sacerdote ao telefone, àquela hora, era ridícula! Porém, o pedido que se seguiu ainda conseguiu ser mais estranho: a Igreja queria contratá-lo para um projecto de investigação de fundos ilimitados.

Passadas quarenta e oito horas, Jado continuava sem saber ao certo o que a Igreja queria dele. Fora levado pelos Soldados da Luz, a guarda da Igreja, para a capital, onde o deixaram no comboio. As carruagens estavam vazias, era o único ocupante do transporte que pertencia à Igreja.

Não tardou para que a linha alcançasse a encosta da Montanha Negra, um terreno vendado a civis ao qual apenas os membros da Igreja tinham acesso. Era um dos poucos homens vivos a alguma vez ter entrado naquele território.

Jado espreitou pela janela quando o comboio atravessou o campo de forças que rodeava a área. Aos poucos, o verde das árvores tornou-se mais escuro, até tomar uma tonalidade quase negra, que dava o nome à montanha. Conforme subia a encosta, surgiu uma densa camada de nevoeiro que, numa questão de minutos, impediu por completo a visão do exterior.

A viagem durou quase uma hora. Jado nem deu conta de que o comboio parara, apenas se apercebeu de que chegara ao destino quando a porta da carruagem se abriu, deixando entrar dois Soldados da Luz armados com espingardas.

– Doutor Jado Mafawi, siga-nos, por favor – disse um dos homens através do capacete prateado com viseira dourada.

Jano levantou-se e seguiu os homens para fora da carruagem. No exterior, em plena floresta, erguia-se um edifício de linhas rectas cujas paredes eram quase todas espelhadas.

– Bem-vindo ao Centro de Investigação 5 – declarou um dos homens. – O Doutor Koff, responsável por esta instalação, aguarda-o no interior.

Sem mais uma palavra, Jado seguiu os dois soldados.

Avançaram para a porta do edifício. No exterior, dois soldados armados vigiavam a entrada. Estes desviaram-se para permitir a passagem do grupo e abriram a porta com um leitor de retina.

Uma vez no interior, Jado deu por si num amplo hall. As paredes, o chão e o tecto eram imaculadamente brancos, tal como as colunas colocadas simetricamente na divisão. No centro, entre duas delas, encontrava-se um homem na casa dos quarenta anos e calvo.

– Obrigado. Podem deixar-nos – ordenou o homem para os Soldados da Luz, que deram meia volta e saíram do edifício. – Seja bem-vindo, Doutor Jado Mafawi, eu sou Doutor Pietus Koff, o responsável do Centro de Investigação 5 e de toda a pesquisa.

Jado entendeu a mão e cumprimentou o homem, que era alguns centímetros mais baixo que ele.

– Trabalha para a Igreja, Doutor? – perguntou Jado sem rodeios.

– Sim. Tal como você caso se queira juntar à nossa equipa.

– Não me interprete mal, mas o que é que você e a sua equipa fazem aqui? Estou completamente às escuras…

Koff deixou escapar um sorriso matreiro.

– Não se preocupe, Jado. Eu vou colocá-lo a par de tudo. Acho que vai ficar bastante impressionado – respondeu. – Que tal uma visita às instalações para começar?

Sem perder tempo, Koff avançou em direcção ao elevador na parede do fundo. Jado seguiu-o.

Génesis 1

Anúncios