Na manhã seguinte, a Raposa acordou cedo pois queria chegar ao ninho do Corvo antes de este acordar: só assim o seu plano daria resultados. Esse era o dia que ele deixaria de se rir de todos os outros. Ela seguiu-o de perto como no dia anterior. O Corvo prosseguia, ignorante do facto de estar a ser seguido, prosseguiu da mesma forma, não tornando a vida da Raposa muito difícil e num instante chegaram à Quinta do dia anterior. Ele procedeu da mesma forma que antes e em breve a janela abrir-se-ia para que desta saísse, novamente, um alimento qualquer.

Mas, desta vez, a Raposa não ficou lá a magicar, ela voltou a seguir o Corvo de perto até ver que seria a altura de agir.

– Olá, amigo Corvo! – disse ela sobressaltando o Corvo, que esperava estar sozinho para disfrutar do manjar que lhe tinha, literalmente, caído do céu. Ele acreditava piamente que havia merecido o que recebera nesse dia, um grande pedaço de queijo que segurava no seu bico. Achava que os seres humanos o presenteavam pelo seu talento vocal e que tudo o que lhe davam era uma prenda pelos seus serviços. – Pois vejo agora, meu velho companheiro, que estás ocupado de momento.

O Corvo acenou com a cabeça, evitando abrir o bico pois segurava o queijo.

– Tenho imensa pena que te encontres nessa situação, mas eu não quero interromper de forma alguma o que estás a fazer, todavia é que… Não. Não te peço. Seria algo que…

O Corvo olhou-a curioso, ele nunca tinha visto a raposa naquele estado, parecia que algo a estava a perturbar e queria poder ajudá-la de alguma forma. Acenou-lhe com a cabeça como que para a encorajar a continuar.

– Não sei se devo pedir isto. Mas é que, sabes como este Inverno está a ser difícil, e as minhas crias nasceram mais cedo e estou com dificuldades em adormece-las e tu cantas tão maravilhosamente. – O Corvo ficou todo orgulhoso do elogio feito por aquela criatura, finalmente sentia-se valorizado e que o seu talento era reconhecido por outro de uma forma tão voluntária e expressiva que nele nasceu a necessidade de fazer tudo o que lhe era pedido sem questionar nem sequer desconfiar das intensões da Raposa. – Posso pedir-te que me cantes aquela música que tanto tu gostas e que é uma balada para adormecer as minhas pequenas e frágeis crias?

O Corvo acedeu ao pedido da Raposa e, mal abriu o bico, o queijo escorregou e caiu em direção ao chão. Ela olhou para o Corvo que cantava já as primeiras notas antes de se surpreender com a queda daquela comida que se esquecera que tinha. Ele olhou para baixo e hesitou, nunca imaginado que a Raposa seria capaz de lhe roubar tão descaradamente a comida. Ela avançou e olhou diretamente para ele.

– Obrigada pelo sustento. Senão ainda te teria de comer. – Pegou no pedaço de queijo e fugiu.

Nunca uma refeição tinha sabido tão bem à Raposa como aquela. Sentiu-se grata e astuta pois enganara o Corvo com facilidade, aquele que se achava tão esperto. Em breve chegaria a Primavera e as suas crias iriam sobreviver. Nessa noite ela dormiu descansada, quente e com a barriga cheia, junto às suas adoradas crias com a certeza que por elas faria tudo o que tivesse de ser para as proteger e as alimentar. Elas eram a sua vida. Por seu lado, o Corvo olhou incrédulo para a Raposa não compreendia a atitude dela, afinal pedira-lhe uma canção e depois deixara-o ali sem sequer esperar por ouvi-la. Ele sentiu-se enganado e traído por aquela a que chamava amiga e nunca mais confiaria assim noutro ser vivo.

O Corvo, esse, aprendeu uma lição valiosa. Nunca mais se mostrou arrogante ou convencido dali para a frente. Todos os animais da floresta repararam que ele estava diferente, mas nem ele nem a Raposa alguma vez tocaram no assunto, ninguém sabia o que passara naquele Inverno entre os dois, era um segredo muito bem guardado. Ele não queria admitir que tinha sido enganado por ela e esta não queria sequer pensar que tinha estado muito perto de comer o Corvo em vez do delicioso queijo que a salvara e às suas crias. Nenhum deles queria mostrar os seus pontos fracos e estavam bem assim. Também a partir desse dia nunca mais o Corvo importunou outro ser vivo para que o ouvisse a cantar.

parte3

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