A Raposa nunca vira o Corvo a ter uma atitude tão dissimulada. Não fazia parte do seu estilo. Ela sabia que ele era pomposo e fazia tudo o que estivesse no seu alcance para ser o centro das atenções de todos e assinalar a sua presença de todas as formas possíveis e imaginárias. Se havia alguém que não passava despercebido era ele e isso causou algum desconforto e curiosidade na Raposa. O que estaria ele a esconder para ter tal atitude tão fora do seu caráter?

Decidiu segui-lo. Poderia descobrir algo que a auxiliasse no futuro próximo a resolver o grande dilema que enfrentava.

Tinha de se manter nas sombras e longe do alcance de visão do Corvo: se fosse apanhada tudo estaria acabado e ele tornar-se-ia mais cauteloso e não conseguiria ter outra oportunidade de o seguir, descobrindo o seu segredo como estaria ele a conseguir manter-se tão gordo ao longo do pior Inverno de todos os que havia memória. Era imperativo que ela não fracassasse nesta missão, tudo dependia dela.

O Corvo movia-se erraticamente pelas árvores, pousando em ramos e retrocedendo em muitas zonas como se temesse ser seguido, mas o olfato apurado da Raposa não lhe permitia perdê-lo, e, portanto, conseguia segui-lo mesmo sem o ver com relativa facilidade. Por duas vezes temeu o fracasso da sua missão, mas rapidamente recuperou o rasto.

Quando ela menos esperava, o Corvo parou no meio da floresta como se estivesse à espera de algo, quando a boca da raposa começou a salivar. Se não encontrasse algo em breve o Corvo seria um bom petisco para esse dia e pelo menos ganharia algum tempo, teria de fazer esse sacrifício pelos seus filhos, porque era sabido por todos os animais que os corvos sabiam muito mal e poderiam causar problemas de digestão a quem o comesse, mas se tivesse de ser, pelo menos teria algo para trincar. O seu nariz detetou um cheiro bastante saboroso e que era muito mais apetecível que o velho Corvo. E qual não foi o seu espanto quando o viu a mover-se na direção em que o cheiro vinha. Ela seguiu-o de perto, curiosa em descobrir o segredo do corvo.

Rapidamente ela descobriu que o maravilhoso cheiro provinha de uma quinta de humanos, o que a deixou bastante nervosa. Eles temiam as raposas e muitas vezes caçavam-nas por temerem pela segurança das suas galinhas. O seu estômago roncou ao imaginar as suculentas galináceas na sua boca, mas seria um grande risco porque bastaria um sinal de alarme e um humano viria logo para a apanhar e aí as suas crias estavam mesmo condenadas. Tinha de esperar por uma altura mais propícia para conseguir algo, mas pelo menos era uma nova hipótese que se abria à sua frente, uma que nunca teria imaginado.

Ela deitou-se, disfarçada pelo seu pelo de Inverno, a observar as movimentações do Corvo. Este espreitava ansiosamente às janelas, esvoaçando entre o rés-do-chão e o primeiro andar da quinta e esperando. Que tanto ele perscrutaria e o que faria aí? Os corvos não caçavam galinhas.

Não tardou muito para ela ver todas as suas dúvidas esclarecidas. Assim que o Corvo encontrou o que queria pousou num ramo de uma árvore e começou a gritar uma música que repetia insistentemente sempre que decidia cantar. Dizia que era a sua preferida e que era a que entoava melhor. Ela sentiu-se grata por estar tão longe e os seus ouvidos não sofrerem daquela diarreia verbal que assassinaria qualquer ouvido e que daria dores de cabeça a qualquer um que tivesse a infelicidade de estar ao lado dele quando decidia cantá-la. Para seu espanto viu uma janela a abrir-se e algo semelhante a um pão a ser atirado em direção ao Corvo, o que ele agarrou rapidamente ainda em voo, antes de partir, satisfeito consigo próprio.

A Raposa não conseguia acreditar no que via: afinal o Corvo estava gordo porque ia buscar comida aos humanos. Uma vontade de se rir enchia-a e ela soltou umas valentes gargalhadas a imaginar o Corvo, convencido, a idealizar que estas ofertas tinham algo a ver com a sua capacidade vocal. Conseguia vê-lo inchado pela sua própria arrogância, e um plano começou a nascer na sua mente: acabou por decidir que iria usar o maior defeito do Corvo contra ele e que iria conseguir enganá-lo no seu próprio jogo. Essa seria uma noite sem comer, mas no dia seguinte esperava-a o manjar dos deuses que lhe seria trazido pelo bico do Corvo, e assim também lhe ensinaria uma lição que ele não iria esquecer tão cedo.

Parte2

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