Aquele Inverno estava a ser longo e rigoroso, a comida escasseava e todos passavam fome. A Raposa sentia o estômago a roncar dia e noite, mas pior do que a sua própria fome era ouvi-la nos estômagos das suas pequenas crias, as quais dependiam dela para tudo. Ela sentia-se impotente e incapaz de avançar, lutava todos os dias para conseguir colocar alguma coisa nas barrigas dos seus pequenos, mas, a maioria das vezes, não conseguia fazê-lo. O Verão e a Primavera pareciam-lhe distantes e os grandes manjares dessas épocas um sonho que não conseguiria alcançar. Temia que nenhum dos seus filhotes conseguisse ver mais uma mudança de estação e que nem ela mesma fosse capaz de resistir ao longo Inverno.

A manhã nascia gelada e os poucos raios solares que atravessavam a densa camada de nuvens eram insuficientes para aquecer o tempo. A Raposa estremecia, mas felizmente havia forrado a sua toca com bastantes paus e folhas secas de forma a manter os seus pequenos numa cama quente e fofa quando ela não estivesse com eles. Esta sabia que estes tinham nascido antes do tempo, os seus trigémeos, e que seria complicado mantê-los confortáveis e alimentados nos próximos tempos, mas nada a impediria de o fazer, porque de uma forma ou de outra ela iria conseguir ultrapassar todos os obstáculos que se impusessem no seu caminho. A neve que cobria os campos gelava-lhe as patas e a Raposa movia-se com dificuldade, a cada passo que dava parecia que milhares de facas lhe eram cravadas e o vento gélido humedecia-lhe o pelo. Toda ela tremia e mover-se era penoso.

– Velha amiga! – interrompeu-lhe os pensamentos o Corvo, que ela desprezava por ser bastante egocêntrico e egoísta. Os maiores pecados que poderiam ser imputados a um indivíduo, na sua opinião. – Que mau aspeto que tens! Nunca te vi com o pelo tão ralo.

Esta sabia que o Corvo não mentia, a sua preocupação era bem patente, bastava olharem para ela para saberem que algo estava mal consigo. O seu pelo caía aos molhos e quando se levantava de manhã um enorme tufo revelava onde tinha repousado durante a noite. Mas ouvir estas palavras do pomposo Corvo fez com que algo se agitasse dentro de si e a velha fúria que, muitas vezes, tentava controlar irrompeu do seu interior e nesse mesmo instante ela apercebeu-se de algo muito importante! O Corvo parecia não estar a sofrer com o Inverno: continuava gordo e a sua penugem era de um preto resplandecente, o que muito intrigou a Raposa.

– Velho amigo! – respondeu ironicamente. – É verdade que este Inverno está a ser muito complicado para mim. A comida escasseia e cada vez é mais difícil encontrar algo onde enterrar o dente.

– Como sempre, minha amiga, tens razão. Este está a ser o pior Inverno desde que me lembro, até o meu Avô Corvo me falava de uma estação assim quando ainda não sabia voar e estava no ninho. Isto não está a ajudar a minha voz. Pois não é que no outro dia acordei e descobri que estava rouco! Fiquei deveras assustado porque pensei que teria perdido de vez a minha grande capacidade vocal e que nunca mais poderia cantar…

A Raposa revirou os olhos. Bem sabendo que a capacidade de que o Corvo tanto se orgulhava apenas estava na sua cabeça e que nunca ninguém o contrariara porque percebiam que ele não os tomaria por certos. Mas sim, por invejosos que não eram capazes de reconhecer o verdadeiro talento nem que este estivesse ao lado deles. Por esse mesmo motivo deixavam-no viver na ilusão que era o melhor tenor do mundo, melhor cantor do que o rouxinol. Mal ele voltava as costas era motivo de chacota por parte de todos, mesmo que não fosse o mais correto de fazer. Mas era melhor do que as dores de cabeça que as discussões com o Corvo traziam ao final do dia.

Ele continuou a tagarelar, contudo, a Raposa tinha pressa, pelo que o interrompeu dizendo que tinha de partir antes que fosse tarde.

– Já vais? Que pena, agora que eu estava a gostar da conversa, mas não faz mal também tenho as minhas coisas para fazer. Até breve. – Despediu-se cordialmente.

Ela sentiu-se aliviada. Podia finalmente centrar-se na sua missão de encontrar alimento. Caminhou grande parte da manhã, sem sucesso. Nem sequer um pequeno rato do campo encontrou, aos poucos sentia que o desespero estava a começar a dominá-la, temia pela vida das suas pequenas crias. O que seria delas se ela não encontrasse alimento? Era certo que as amamentava, mas sem comer não conseguiria produzir leite.

Foi nesse momento de desespero que viu o corvo ao longe a mover-se com uma atitude suspeita, saltitando entre os ramos das árvores e olhando em volta tentando verificar se não estava a ser seguido. A Raposa decidiu segui-lo.

Parte1

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