Segui o homem e a família por ruas e vielas enquanto corríamos para fora da cidade. Se parecera ter dúvidas quando lhe ordenara que fugisse, essas dúvidas dissiparam-se-lhe no momento em que viu a nave mãe a sobrevoar a cidade, pronta a disparar a qualquer momento.

Estávamos já perto da orla da localidade quando a nave mãe fez soar uma sirene grave. Sabia bem o que queria dizer, o ataque final estava eminente.

– Temos de ser rápidos! – insisti para com os nativos.

O homem acelerou o passo e incentivou o resto da família a fazer o mesmo.

A sirene tocou novamente. Os discos em torno do canhão da nave mãe começaram a girar lentamente, ganhando aceleração aos poucos.

Virámos numa esquina e outra vez na rua seguinte. Já era possível ver o fim da cidade e a estrada que conduzia ao sopé das montanhas.

Corri o mais rápido que conseguia naquela gravidade a que não estava habituado, cansando-me mais depressa do que o habitual. Sentia o corpo a querer ceder, mas se o fizesse seria o meu fim.

Alcançámos por fim a orla da cidade. A sirene tocou pela terceira vez. O massacre ia começar.

– Não olhem para trás! – alertei. – Fujam para as montanhas!

Atrás de mim, ouvi o som do feixe de luz da nave mãe a ser disparado. Sabendo o que me esperava se olhasse directamente para o mesmo, concentrei-me em correr para as montanhas.

Porém, a mulher nativa, que seguia à frente com o marido, não seguiu o meu aviso. Ao ouvir o som do disparo, virou-se para trás e olhou directamente para o raio de luz. A pele tomou de imediato uma tonalidade branca e os olhos perderam qualquer sinal de vida. A pele transformou-se numa crosta clara que começou a estalar. Em segundos, aquela estátua humana desfez-se em pó, incapaz de aguentar com o peso do corpo.

– Continuem a correr. Não olhem para trás! – insisti para com o homem e as filhas.

Continuamos a avançar. Estamos quase no sopé das montanhas. Dou mais um passo em frente e sinto uma dor aguda na minha segunda perna esquerda. A gravidade do planeta estava a dificultar-me a vida, não conseguia manter aquele ritmo. Olho em redor e vejo a entrada para uma caverna numa rocha a alguns metros.

– Senhor, estais bem? – questionou o homem, ao ver-me parar.

Aqueles seres, apesar de estranhos, tinham-me ajudado a escapar. Não os podia arrastar para a desgraça comigo.

– Continuem para as montanhas e não olhem para trás. O Senhor proteger-vos-á. O meu caminho termina aqui.

O homem assentiu e, sem perder tempo, seguiu caminho com as duas filhas.

Com a perna magoada, manquei até à entrada da caverna e refugiei-me no seu interior. O ataque ainda não tinha terminado, apenas a primeira fase. A segunda fase era o fogo, para eliminar todos aqueles que tivessem conseguido escapar.

Dando-me por feliz por ter encontrado aquele refúgio, tentei recuperar o fôlego enquanto esperava pela segunda fase. Talvez me conseguisse safar…

A onda de choque fez toda a caverna tremer. Olho para cima e vejo parte do tecto cair sobre mim. Salto e desvio-me no último segundo. Respiro de alívio. Nem o meu exosqueleto teria sido capaz de suportar aquele peso. Quando penso que ainda tenho uma vaga hipótese de sair dali com vida, apercebo-me do que me espera. A queda do tecto abriu uma fenda para o exterior.

Olho para a cidade e para a nave mãe a pairar sobre ela. Uma coluna de fogo laranja desce do canhão da nave e atinge o solo, espalhando-se rapidamente numa onda incandescente. O som da minha respiração ofegante é rapidamente substituído pelo crepitar do fogo, acompanhado de um forte cheiro a queimado.

Através da fenda no tecto, vejo a parede de chamas aproximar-se. Já não há nada que possa fazer. Abro os braços e aceito o meu destino. Uma onda de calor intenso atinge-me antes de o fogo me alcançar. Sinto o meu exosqueleto a derreter. Contorço-me com dores. Estou prestes a perder os sentidos, mas antes que isso aconteça, sou atingido pela parede flamejante. Num instante, tudo acabou. Sou um só com o Universo…

O Fugitivo - 5

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